home Antologia, LITERATURA Irmão de Gelo – Alicia Kopf (Alfaguara, 2018) 

Irmão de Gelo – Alicia Kopf (Alfaguara, 2018) 

“[…] e porque graças a ti, irmão de gelo, tomei a palavra pela primeira vez.”

Irmão de Gelo (Alfaguara, 2018), não é um livro comum. Vencedor dos prémios Llibreter, Documenta, Cálamo e Ojo Crítico, aplaudido pela crítica e pelos leitores, o romance de estreia de Alicia Kopf – pseudónimo literário da catalã Imma Ávalos Marqués, artista plástica nascida em Girona, em 1982 – é uma obra que, partindo de uma linguagem confessional (como um diário), desafia definições. Ao folhear as suas páginas, encontramos, a par da narrativa propriamente dita, links da Wikipédia, ilustrações originais, imagens meteorológicas, fotografias, apontamentos científicos, crónicas, notícias, conversas de Whatsapp, notas de rodapé… Após a estranheza inicial, com a leitura, percebemos que todas aquelas peças soltas seguem uma lógica interna consistente. Irmão de Gelo é um livro de metáforas, figura de estilo que a autora explora de forma prodigiosa.

De acordo com relatos da própria, a ideia para o livro começou a germinar em 2008, ano em que terminou os seus estudos em Belas Artes e Literatura, e, no auge da crise financeira e imobiliária espanhola, tentou encontrar um emprego estável e comprar um apartamento. Falhou esses objectivos, mas reuniu matéria para um blogue sobre saber ouvir “não” sempre que pedia para entrar no mundo (fosse do trabalho, do imobiliário ou do amor). Mais tarde, Kopf reuniu esses textos num volume de autor, a que deu o título Modos de (no) entrar em casa, inspiração para uma campanha publicitária  de incentivo ao crédito à habitação para jovens, promovida por uma instituição financeira. Este episódio, deliciosamente irónico, encontra-se relatado na pág. 166 desta obra inequivocamente autobiográfica, a que a autora prefere chamar de “romance transgénero de autoficção”, porque, diz, inventou grande parte do mesmo.

Reduzido ao essencial, o livro conta-nos a história de uma artista em formação, em busca de um caminho, que escolhe um trabalho “normal” numa loja de roupa, em horário pós-laboral, para poder seguir o sonho de uma carreira na arte, adormecendo sobre os livros na mesa da cozinha, e do seu fascínio pelo gelo (o gelo real, das regiões mais frias do planeta, e o gelo metafórico, das relações com os outros e com o mundo).

O romance vai oscilando entre o relato documentalmente preciso das expedições polares de Amundsen, Robert Peary e Frederick Cook, e a(s) estória(s) pessoais da narradora: a falta de diálogo com os seus pais, os seus falhanços amorosos, a relação especial com o irmão, a quem sempre protegeu, apesar de mais velho. Ao longo do livro, acompanha-nos uma banda sonora onde cabe a Islândia de Björk, mas também Daft Punk, Jeff Mills ou Laurent Garnier, que vão marcando o ritmo da escrita e a linguagem utilizada.

No início do livro, Alicia Kopf apresenta-nos a teoria de John Cleve Symmes, que no séc. XIX defendia que a Terra tinha dois buracos nos extremos, comunicantes entre si: “Como as matrioskas, a Terra alojava a entrada para sete mundos que, por sua vez, se alojavam uns dentro dos outros. Pelos seus buracos penetrava luz solar suficiente para sustentar alguma forma de vida, coisa que Symmes pretendia demonstrar com cálculos e diagramas complicados. Se fosse possível chegar ao pólo, ter-se-ia ao alcance todo um universo interior. […] Como na teoria de Symmes, o eu narrativo deste romance projecta-se através de sete figuras diferentes”.

Partindo desta teoria, a narradora introduz-nos, gradualmente, na vida do seu irmão mais velho, M, que vive preso no gelo da não-emoção (ou da impossibilidade da sua exteriorização), e que se torna a peça central do livro: “O meu irmão é um homem preso no gelo. Vê-nos através dele. Ou, mais exactamente, no seu interior há uma fissura onde por vezes há gelo. Ele está e não está.” (pág. 34). Diagnosticado apenas quando tinha 30 anos, M passou de borderline a Asperger e depois a autista: “Fiquei contente por poder dar um nome a isso, embora não fosse o mais acertado. Creio que, desde então, consegui falar mais do assunto. É muito importante que as coisas tenham nome, caso contrário não existem. É totalmente verdade que o nome faz a coisa.” (pág. 37). Mas o autismo engloba casos muito distintos e, ao fim de um tempo, a designação passou a ser perturbação do espectro do autismo ou PEA: “Esta denominação tão vaga parece-me um caminho de regresso à indefinição.” (pág. 37). Tal condição implica que M não consiga formar e exercer vontade própria, e tenha dificuldades na comunicação com o mundo exterior. Pela sua incapacidade de tomar qualquer decisão, por mais pequena ou rotineira, cuidar de M exige uma atenção constante da família, especialmente por parte da mãe de ambos: “Não nos enganemos, ter um filho assim é duro para a minha mãe, embora nunca se queixe. Apesar da origem do problema se incerta, creio que por vezes se sente culpada. Entre os dois, ela e o meu irmão, que agora já é grande e peludo mas mantém a candidez da infância no olhar, gerou-se uma certa interdependência. Desde que se separou do meu pai, há mais de vinte anos, nunca mais teve uma relação séria. Deste modo, a minha mãe é uma exploradora polar e arrasta o meu irmão num trenó.” (pág. 36).

A condição especial do seu irmão e a exigências assim colocadas à família, acabam, pois, por ser determinantes na formação da personalidade da narradora: “A necessidade extraordinária de atenção de M é anterior à minha chegada ao mundo […]. Este facto manifestou-se em mim numa revelação precoce de independência que se exteriorizava com a roupa e modos de menino. Já na época do infantário recusava-me a usar vestidos e, se podia, fazia chichi de pé. Como usar o cabelo comprido, que me fizessem tranças ou receber a atenção de alguém era impossível, eliminei isso do meu catálogo de desejos e converti-o em algo execrável […] transformei em independência uma certa desatenção por mim, e talvez com o tempo a coisa se tenha tornado recíproca até que, paradoxalmente, essa atitude teve um certo paralelismo com o autismo no meu irmão. Porque a minha presença tinha de ser mais ténue, não dar mais dores de cabeça. E acabou por se formar uma fina camada de gelo entre mim e os outros; foi assim que o gelo entrou em mim.” (pág. 179).

Mas à narradora não interessam tanto os exploradores polares em si (ainda que relate as suas biografias, conquistas e infortúnios de forma minuciosa), mas sim o método por eles utilizado na sua busca por algo apenas sonhado, em locais desconhecidos e inóspitos: “Era dos pólos que queria falar? Ou é apenas a imagem da neve que me fascina? Instabilidade, desorientação, frio (está calor), determinação. Sensações que acompanham os exploradores polares e também aqueles que trabalham com o branco. Porque não me interessam os exploradores polares por si próprios, mas a ideia de procura num espaço instável. Gostava de falar de tudo isto como metáfora, porque o que desejo encontrar é uma épica, uma épica nova, sem adversários nem inimigos, uma épica da própria pessoa e da sua ideia. Como a dos artistas e dos escritores. Alguns alpinistas atingiram os cumes depois de uma forte crise pessoa, quando se encontravam num beco sem saída. Penso na minha mãe, em tantas pessoas que cuidam de pais e filhos dependentes ou em qualquer um que resiste numa situação irresolúvel, como a doença do corpo. Isso também é épico, é luta. Mas ainda não há boas imagens nem metáforas para isso. Eu procuro-as.” (pág. 75). Em entrevista, Kopf refere: “Interessa-me mais a história dessa mulher que tenta sobreviver através dos exploradores polares do que os exploradores em si. Trata-se da apropriação feita por uma mulher de um imaginário épico, colonialista e masculino, para transformar, no final, a sua própria realidade.”.

A autora não pretende escrever apenas o relato simples da vida do seu irmão: “Irmão de gelo, penso se recriar-te aqui nos fará bem. A mãe quis proteger-te, e por isso rodeou-te de silêncio. Eu apenas crio imagens, ficções, ninguém melhor do que tu sabe o que viveste…” (pág. 216); “Por outro lado, este livro não é sobre a tua vida, que é apenas tua; é uma exploração. A procura da origem de uma voz e de um olhar próprios, e é por isso que apareces nele […] uma vez que, nem sempre mas em algumas ocasiões, quem quer pode embora não possa, e porque graças a ti, Irmão de gelo, tomei a palavra pela primeira vez.” (pág. 217).

O que verdadeiramente interessa a Kopf é a exploração da exploração, do método científico, que pretende transpor para a criação artística, também ela desenvolvida em meio adverso. Ao fazê-lo, vai levantando inúmeras questões sobre a arte, a sua natureza, expressão e utilidade nos dias de hoje, enquanto estrutura de vida num momento em que escasseiam as referências sólidas.

Ao partilhar os seus segredos e as suas (des)ilusões, os falhanços das suas relações (familiares e amorosas), o desejo de conquista do mundo artístico e a inadaptação da sociedade a uma nova geração de artistas que, sem uma boa herança financeira e material, luta pela independência, Kopf vai esculpindo o retrato fiel, muitas vezes cru, da vida da geração dos trinta, em que se inclui: precária (precariedade não só material mas também das relações, a modernidade e amor líquidos de que nos fala Zygmunt Bauman), e muito aquém das expectativas em que cresceram: “Não sei se espere que a ferida cicatrize ou simplesmente tire umas férias mentais. Seria bom estar mais alegre. Penso em antidepressivos. No entanto, excluindo as patologias graves, tenho a sensação de que muitas pessoas tomam comprimidos para suportar situações das quais com frequência não são totalmente responsáveis ou, no mínimo, trata-se de uma responsabilidade colectiva, social. Como estar preso num emprego alienante do qual não se pode sair, ou num desemprego do qual não se pode sair, ou numa família da qual não se pode sair, ou num presente sem futuro, ou ter sido traído, ou despedido… Estes comprimidos que nos poupam a dor talvez também evitem o colapso do sistema. Evitam que as pessoas saiam à rua e peçam ajuda e exijam responsabilidades, que haja conflitos, mas talvez também soluções. Porque, a partir do momento em que pedimos aos outros que sorriam, que estejam alegres, que virem a página, que tomem comprimidos, que keep calm de merda, somos cúmplices da situação. Não os vou tomar.” (pág. 168).

Irmão de Gelo é um livro verdadeiramente especial na sua singularidade, de um lirismo pragmático e lúcido, destinado àqueles que, como a autora, têm na leitura a sua actividade subversiva preferida.

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