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Isto Tem Piada? – Jerry Seinfeld (Vogais, 2020)

Com algum excesso e, porque não?, com incursão na heresia, podia descrever-se Jerry Seinfeld com recurso a um famoso aforismo de Fernando Pessoa: «Não haver deuses é um deus também». Por mais que se pudesse negar a marca, a influência e os resultados da sua acção no humor, Jerry Seinfeld é um agente decisivo na história da escrita para humor e, talvez sobretudo, na comédia de stand-up. O seu estilo «limpo» e isento de uma agressividade notória, a sua atenção, enquanto humorista, ao mundo à sua volta – que não o levou, propriamente, a ser um activista, mas fez dele, sem dúvida, um dos melhores observadores das minúcias do quotidiano – deixou, sem dúvida, sucessores. Mesmo que possa haver paternidades desconhecidas. Ou que, em certos comediantes da actualidade, o pai biológico ainda esteja por conhecer. Para os mais distraídos, o pai chama-se Jerry Seinfeld.

«Quando vamos para casa muito empolgados com sacos de compras nas mãos, os homens do lixo estão nos seus camiões a olhar para nós e a pensar: “Até breve.” (p.356)
«Também gosto dos pequenos separadores de compras que há nas caixas dos supermercados. Porque queremos comprar aqueles produtos, mas também queremos ter ali uma pequena propriedade só nossa.» (p.130)

Nesse ponto, o humor de Seinfeld é, possivelmente, inultrapassável. O seu micro-realismo surpreende sempre aqueles pormenores que ninguém tem coragem de notar, ou capacidade para percepcionar. Porque Seinfeld não tem qualquer problema em parecer uma criança, em muitas das observações que faz. Aliás, com muita frequência, ele parece um miúdo impertinente, a lembrar-nos, constantemente, dos ridículos da vida, e a anotá-los sem afronta, mas com uma elegância e simplicidade que poderiam exasperar, não fosse a genialidade da entrega. Quantas vezes as suas peças humorísticas não constituem, precisamente, uma espécie de «Se fosse eu a mandar…»:

«Estou farto de roupa. Farto de comprar roupa. Farto de escolher peças no armário. Farto de inventar novos conjuntos todos os dias. Acho que a moda vai acabar por desaparecer. E vamos todos usar a mesma coisa. Nos filmes o programas de televisão em que há pessoas do futuro ou de outro planeta, usam todos a mesma roupa. Também elas se fartaram. Limitaram-se a decidir: “OK, pessoal, prestem atenção… A partir de agora, este vai passar a ser o look deste planeta… Todos o usaremos. É só um macacão prateado com um riscado em V e um par de botas. Mais nada.» (p.233)

Isto Tem Piada? é, portanto, uma edição que se acolhe com muito agrado. Trata-se de uma recolha de escritos de Jerry Seinfeld produzidos ao longo de quatro décadas e meia, o que dá bem a dimensão e importância, ao longo do tempo, deste legado cultural – e vai sem aspas, porque disso se trata. Não serão poucos os momentos deste livro que serão familiares aos indefectíveis da série televisiva Seinfeld, em que Jerry, mais ou menos, se retratava, como personagem central. No entanto, o livro não deixará de acudir à memória mesmo do frequentador mais esporádico daqueles episódios, que se estenderam por nove temporadas. O estilo inconfundível de Jerry Seinfeld passa, surpreendentemente, bem do ecrã para o papel. Sem grandes surpresas, isso fica a dever-se, com toda a plausibilidade, à importância do texto para este humorista. O próprio Seinfeld o explicita:

«sempre que me ocorria alguma coisa engraçada, fosse no palco, numa conversa, ou enquanto trabalhava uma piada no grande bloco de notas amarelo que era a minha tela favorita, guardava-a numa daquelas pastas antigas de fole.
É por isso que ainda tenho tudo o que pensei que valeria a pena guardar ao longo de 45 anos em que me matei a cinzelar a depurar o material.» (p.16)

Além disso, Jerry Seinfeld disse, e não o fez assim tão poucas vezes, que não era actor, mas humorista, escritor e comediante de stand-up – não um actor de raiz. Uma lição que não devia cair em orelhas moucas. E, no entanto, a prestação de Seinfeld, na série homónima, se não tinha o brilhantismo, o génio na representação de um Jason Alexander (o eterno George Costanza, fabuloso alter-ego de Larry David, longamente comparsa de Seinfeld, na chamada vida real e, de longe, o melhor actor do programa), mesmo assim, não envergonha ninguém. E talvez isso ajude a explicar, em parte, o êxito da série.
O tipo de humor que Jerry Seinfeld pratica há quase meio século (!) é de tal forma inteligente – embora sobriamente contido –, a tal ponto abrangente, que quase nada do que hoje se faz, em humor, pode – ou devia – gabar-se de estar incólume à sua marca. Se, do geral, formos ao particular do caso português, então, nada fica, digno do nome de comédia, que possa dizer-se que esteja imune ao legado de Jerry Seinfeld. Porque não se trata, neste caso, de sinais directos, de influências evidentes, mas de derivações sub-reptícias, múltiplas, mas imperceptíveis, mas que, apesar de tudo, nunca deixam de denunciar a presença de uma inspiração.
Ao contrário de comediantes como Richard Pryor, Lenny Bruce, ou, mais recentemente, Chris Rock, ou Louis C.K., a abordagem de Seinfeld nunca chega a extremar-se, pelo que é perfeitamente natural que possa desagradar aos mais adeptos de posições radicais. Impropérios, temas «fracturantes», ou violência desmedida, não se incluem na ementa servida pelo comediante nova-iorquino. Seinfeld sempre seguiu numa espécie de middle road. Com tudo o que isso implica. Desde logo, a sua tarefa é complicada por lhe faltar o recurso facilitador, a válvula de escape do insulto, da vulgaridade. Jerry Seinfeld tem de se manter, ou sempre optou por assim proceder, na finíssima linha de «normalidade» em que o discurso humorístico faz fronteira com o correntíssimo discurso do quotidiano. Os seguidores da série poderão lembrar-se de uma sequência em que a personagem de Jerry está numa festa e alguém o reconhece enquanto comediante, para logo esmorecer no entusiasmo e deixar escapar um «Ah, já sei: você é aquele tipo que fala muito de coisas do dia-a-dia, não é? Pois, já sei quem é…» Embora possa parecer arbitrário, pode ser um bom resumo para a esfera de actuação deste comediante. E do outro lado da pressão está a impossibilidade de adoptar uma postura de radicalidade que poderia granjear-lhe, possivelmente, outro tipo de audiência, que talvez se sinta inerte diante do «classicismo» de Jerry Seinfeld. Há poucos entertainers menos românticos do que este. O seu espírito é, no fundo, o da razão e da sensatez; o humor é, nele, a manifestação de um enorme poder de observação e de reparo constante. Assim, Seinfeld fez da banalidade e do coloquial o seu território. Quem o admire, há-de louvar o seu poder de transformar a realidade menos espantosa em surpreendente discurso humorístico do mais alto quilate. Os detractores podem muito bem queixar-se de falta de arrojo e de pouco atrevimento. Ainda assim, nem tudo são serenidades, neste humor. Em particular mais recentemente, o nível de confronto é maior, mesmo se o tempera sempre uma espécie de mediania risonha e apaziguada de antemão:

«Bem, deixem-me que vos diga uma coisa, seus fedelhos. Nem sequer tiveram uma infância, em comparação com o que nós tivemos nos anos sessenta. O que tiveram foi lixo. Nada. E sabem porquê? Os vossos pais prestaram-vos atenção. Os nossos nem sequer sabiam os nossos nomes. Eram ignorantes. Negligentes. Na nutrição, na segurança, na educação. Conseguem sequer imaginar o mundo que estou a descrever? Nos anos sessenta, crescemos como cães selvagens. Era magnífico. Sem cintos de segurança. Sem capacetes. Sem protecções de qualquer tipo. Sempre que os veículos paravam de repente, nós simplesmente voávamos pelo ar. Quando eu não estava a consumir açúcar puro, estava a voar. A minha infância foi assim. E foi fantástica. Os meus pais não sabiam onde ficava a minha escola. Que notas eu tinha. Por onde eu andava. Para os meus pai, eu era como um guaxinim.» (p.397)

Mesmo na escolha dos temas, nota-se, com a passagem do tempo, que a atitude de Seinfeld se vai tornando menos plácida. Há assuntos que, podemos imaginar a revolver na intimidade do humorista, irritações que lhe soltam a língua e aguçam a sua veia mais ironicamente maldosa:

«o nome Facebook completa a degradação final da palavra “book” (tenho a certeza de que olhar para fotografias dos nossos amigos bêbados durante as férias equivale a ler o Moby Dick), mas também porque dá a conhecer as ideias de gente nova e estúpida, o que é maravilhoso.» (p.304)

Nem mesmo as suas opiniões se revelam tão neutrais e genéricas. Parece que, à medida que caminha para os «sessenta», ou que os alcança – e essa faixa etária é tema de um dos textos de Isto Tem Piada? –, Seinfeld deixa a moderação de lado e não se importa nada de emitir opiniões pouco populares:

«Acho que a tecnologia abundante é a culpada, mas não vos parece que as pessoas andam constantemente desmemoriadas?» (p.306);
«A vossa vida já mal merece um visionamento. Ainda querem vivê-la duas vezes? [uma vez mais, o assunto era o Facebook]».

Na edição original, este livro chama-se: Is This Anything? Poderia dizer-se que talvez não tivesse sido pior (pelo contrário) optar por uma tradução literal do título. Um tema clássico, nestas matérias. Isto é Alguma Coisa (de Jeito)?, com ou sem o qualificativo «de jeito», seria, além de mais fiel ao original, talvez mais aguerrido e mesmo apelativo. Na forma em que ficou, parece um pouco uma pergunta humilde, um pedido algo subserviente, em vez de ser qualquer coisa que os comediantes norte-americanos, como Seinfeld explica, dizem entre si. Problema, sem dúvida, menor. Como, porventura, o são algumas questões de tradução. Desde logo, os casos perdidos, que já nem vale a pena mencionar, porque parece que cai sempre em saco roto qualquer recomendação nesse sentido. Mas siga, ainda assim: Não é: «Porque haveriam de o matar se estavam do mesmo lado?» (p.153), mas «Porque haviam de…»; não é «Porque haveriam os pássaros de ser os únicos?» (p.305), mas «Porque haviam os pássaros de ser…» A construção «haver de» não admite condicional, mas apenas presente e pretérito imperfeito do indicativo. Depois há questões idiomáticas. Em vez de «Vais usar isso?» (p.387), frase típica da mulher para o marido, ou da namorada para o namorado (segundo o autor…), antes de sair de casa, mas «Vais levar isso?», que parece muito mais natural. Do mesmo modo, não será propriamente de esperar que alguém diga «O teu carro é demasiado pequeno. Podemos espremer-nos» (p.383) [no original, «squeeze»?] , mas «O teu carro é tão pequeno [ou «pequeno de mais», o que já seria esticar a corda.] Podemos apertar-nos [ou melhor: «Podemo-nos apertar.», correcto, mesmo que isso pese aos puristas]. E podia perguntar-se se já alguém disse, alguma vez: «Estou faminto.» (p.383) Fica a pergunta, mas «cheio de fome», ou, quando muito, «esfomeado», «esganado de fome», ou fórmula semelhante, seriam, possivelmente, opções mais verosímeis. Em certos pontos, igualmente, parece que a força do inglês se sobrepõe à língua portuguesa. Ou, ao menos, torna-se ambíguo mesmo o significado de um adjectivo de uso tão comum, mas que não é raro que dê confusão na passagem de um para o outro idioma. Seria esse o caso aqui: «Gostaria de estar numa cena casual com o Darth Vader.» (p.373)? Marginalmente, acrescente-se que a opção gráfica dos textos, em linhas que não chegam à margem, com quebras que, possivelmente, exprimem as pausas dramáticas (cómicas!), poderá não ter sido a melhor. Os textos poderiam, perfeitamentem, ter sido apresentados noutro tipo de letra, pois a que se usa não beneficia uma leitura prolongada (embora, no caso de quem escreve estas linhas, nem que o texto estivesse na diagonal…), e as quebras poderiam ter sido eliminadas. O texto poderia ter sido justificado à direita, como geralmente acontece em livros portugueses, que isso não iria desvirtuar o original – e só tornaria a leitura (fisicamente) mais confortável.
Isto Tem Piada? é uma ampla antologia de textos de humor. São 45 anos de escrita humorística. Humor inteligente, atento ao que rodeia o seu autor, irónico e contido, mas muito capaz de deixar a sua marca no mundo.

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