home Antologia, LITERATURA Já não me deito… – Cláudia R. Sampaio (Porto Editora, 2020)

Já não me deito… – Cláudia R. Sampaio (Porto Editora, 2020)

Adjectivar a poesia de Cláudia R. Sampaio é tentador e relativamente facilitado pela intensidade das suas palavras e do espírito desafiador que imprime à cadência dos seus versos. Mas levantar a crosta que cobre as feridas sublimadas pela sua arte é o busílis deste Já não me deito em pose de morrer e o convite implícito desta poeta única.
Contrariando a tendência do mercado literário de “mastigar” a informação (e a poesia com especial acuidade), para “facilitar” o acesso do cidadão comum a este estilo (como se fosse cantonês ou russo), a Porto Editora, com o contributo de Valter Hugo Mãe, vem criando um interessante acervo de vozes poéticas nesta colecção elogio da sombra, num esforço meritório de preencher um lamentável vazio que insiste em prolongar-se no tempo.
Nesta colectânea, encontramos alguns poemas-chave de obras distintas da poeta e artista lisboeta. Na sua escrita é quase audível um eco transversal: a urgência de se largar nas palavras, gritar e cantar (no sentido mais clássico) a dor e o êxtase de ser mulher aqui e agora, como uma questão de vida ou morte. O sujeito poético é uma mulher lúcida, com uma sensibilidade superlativa no limite do suportável ao comum mortal. Contudo não se mostra ou sente extraordinária ou sequer especial. Baixa a cabeça e dissipa-se como uma nuvem de vapor na multidão que a devora e regurgita vezes em conta. Almeja o infinito e com esse horizonte avança, com quedas e feridas mas sempre olhando adiante, porque a poesia é o seu passaporte para a imaterialidade.
Como a vida, a sua poesia é imperfeita e contraditória, mas é desse choque de extremos que brota o poder das suas frases, de onde, apesar de tudo, sobra “essa sensação de um possível final feliz”, como diz, a propósito da sua escrita, na entrevista a Valter Hugo Mãe que serve de epílogo ao livro. E continua: “É certo que não sei de uma ínfima parte do que acontece para lá do meu peito, mas escrever torna-me ubíqua, polimórfica, invisível, sábia. E é agora que o meu corpo levita em plena consciência das infinitas possibilidades deste agora (…) E tudo isto requer tempo, o que quer dizer que temos de esquecer a cada instante que o instante está quase a acabar./Em tudo há o tempo e o fim, e talvez a poesia possa ser aquilo que está mais próximo do infinito. (…) Quando escrevo poesia, voo com certeza na direcção mais verdadeira de mim.”
E nós vamos com ela. Que esta seja apenas mais uma vitória entre tantas sobre o vazio. São vozes como esta que fazem levitar os dias claustrofóbicos.

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