home Didascálias, TEATRO Júlio César, Peças Soltas (BoCA) – Mosteiro S. Bento da Vitória, 30/03/2017

Júlio César, Peças Soltas (BoCA) – Mosteiro S. Bento da Vitória, 30/03/2017

Romeo Castellucci trouxe o seu Júlio César a Portugal pela primeira vez em 1997, integrado no PoNTI. Desta obra inicial, retirou fragmentos do Acto I para reformular o espectáculo que apresentou no Mosteiro de S. Bento da Vitória, desta feita no âmbito da BoCA – Bienal of Contemporary Art.

O italiano recupera a figura mítica do Imperador romano Júlio César, nas suas extensões mais notáveis e perénes: o Poder e a Palavra. A este pretexto, mesclando a sugestão com um realismo levado ao extremo, consegue, em pouco mais de 40 minutos, veicular a sua particular visão da performance dramática.

A propósito do seu teatro, disse certa vez: “Falo para te fascinar, falo para te corromper, para te ter diante de mim, para te levar onde não queres.”

Teoricamente é uma fórmula simples, mas a prática nem sempre alcança o que as palavras parecem sugerir, verdade verificável com particular ênfase nas artes performativas.

No caso deste Júlio César desmembrado, é notório esse desenraízamento de uma obra maior e a escolha de momentos chave tem consequências contraditórias. Se por um lado se mantém a aura transgressiva do original, uma ténue linha de coerência (não necessariamente narrativa) e se revela uma estrutura estilhaçada, bem consentânea com a mensagem de desesperança e aniquilação de velhas concepções (seja do Teatro, do actor, do texto dramático ou do Actor), por outro parece tratar-se de uma conveniente súmula, a espaços redutora, da obra originalmente concebida, priveligiando o choque e a surpresa em detrimento da força dos textos e da actuações.

O momento chave da apresentação é o discurso de Marco António aos populares romanos, após a morte de Júlio César, em que, servindo-se de todos os recursos que a retórica lhe permite, ataca Brutus pelo elogio irónico, convertendo uma multidão que apupava o imperador caído em turba de fervorosos inimigos do conspirador assassino.

Parte nuclear da obra de Shakespeare, é aqui interpretada por um idoso com uma laringectomia, reforçando assim de uma assentada o peso das palavras (pelo esforço a que a sua mera vocalização implica) e a atenção do público, perante o volume mínimo da voz que ainda resta ao actor.

O impacto do discurso é assim contrariado, mas de alguma forma mantém a sua acutilância, pela materialização das palavras, independentes das condições em que são proferidas.

A literalidade e fisicalidade da palavra, do processo da sua formação e propagação, mas também o poder dos silêncios, quando provenientes de alguém cuja presença é bastante para impor dominação, estão no cerne desta representação.

A inserção de uma sonda nas cordas vocais de um elemento do elenco vem neste sentido, criando um forte impacto gráfico e visual e relembrando-nos a nossa finitude.

Júlio César – Peças Soltas vive também dos detalhes.

O busto de César, defenestrado lentamente, atado a uma corda, relembra as humilhantes execuções dos tempos dos Sforza em Itália, anunciando a iminente destruição do grande líder. O cavalo negro grafitado é uma dessacralização de um ente simbólico do Poder, imagem concreta da volubilidade do domínio imperial absoluto.

A transcendência e a imanência convivem de forma hábil neste espectáculo, que peca apenas por saber a pouco.

Um desafio raro que urge repetir.

Foto © Luca Del Pia

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