home Antologia, LITERATURA Laços – Domenico Starnone (Alfaguara, 2018)

Laços – Domenico Starnone (Alfaguara, 2018)

É fácil julgar um livro pela capa. Ou por outra, a forma como o livro chega ao leitor, condiciona à partida a leitura e a adesão deste ao livro, seja pela promoção, biografia e bibliografia do autor, o seu país de origem, etc, factores aparentemente secundários, porém decisivos na escolha do livro onde vamos investir o nosso dinheiro e, mais do que isso, o nosso precioso tempo. Se apenas isto pesasse, atendendo às badanas e contracapa este Laços, escrito pelo multi-premiado Domenico Starnone, facilmente ficaria esquecido nas estantes, conotado com a literatura mais sentimental. Um evidente e equívoco desperdício, visto tratar-se de uma obra superior em diversos aspectos. Por aqui encontramos um romance fluido e inteligente que, em meras 141 páginas, abarca cerca de quatro décadas (em rigor, entre 1974 e 2011, embora com evocações de tempos anteriores) da vida de uma família italiana tradicional (casal heterossexual, com um filho – Sandro – e uma filha – Anna), marcada por uma série de eventos que a condicionam e moldam a cadência da acção. Mas mais do que isso, Starnone resiste à tentação de fazer um romance longo, para concentrar a atenção do leitor em eventos e emoções definidores, num trabalho minucioso de contenção e, certamente, de edição por parte do autor. Segundo o próprio Starnone, tratou-se de um trabalho doloroso, que consistiu em escrever material para dois ou três livros e depois reduzi-lo ao essencial, mantendo o texto com forte carga emocional e simbólica, única forma de manter relevante um livro curto. Não é dispiciendo que cite como fontes de inspiração Moravia, Kafka e Calvino.

Aldo é a personagem central do romance, voz que o perpassa e lhe empresta o tom, marcadamente dolente e reflexivo, caindo por vezes nas frases e condutas características do modelar homem de meia idade que, confrontado com a inevitabilidade do avanço do tempo e das diversas estagnações e questionamentos que esta consigo arrasta, procura preencher um angustiante vazio existencial fora da rotina familiar, neste caso com Lídia, aluna e musa inspiradora de futuros alternativos e (r)evoluções. Aos 36 anos, deixa a casa de família para perseguir o amor por que ansiava. Vanda, a mulher, esposa e mãe dedicada, fica surpresa com a confissão de Aldo e reage brutalmente. Este, no entanto, limita-se a uma meia verdade, incapaz de revelar que encontrara amor verdadeiro e não apenas uma relação passageira. “Apaixonado. Talvez devesse ter dito isso mesmo: Vanda, apaixonei-me. Ao invés, exprimi-me de uma maneira mais brutal e todavia, agora que penso nisso, menos definitiva. (…) Ela fitou-me estupefacta e eu próprio me assustei com aquelas palavras. Murmurei: poderia ter-te escondido isto. mas preferi dizer-te a verdade. E acrescentei: lamento, aconteceu (…) A Vanda insultou-me, chorou, bateu-me no peito com os punhos cerrados, pediu desculpa, voltou a enfurecer-se (…) surpreendeu-me uma reacção tão violenta.” (pg. 61). No fundo, Aldo sabia que a relação com Lídia não seria definitiva, mas queria tempo e liberdade para viver esse amor na plenitude. “ao revelar à Vanda a minha relação, queria apenas ter tempo para a viver à vontade, (…) até à consumação. (…) não tinha a menor dúvida de que haveria de voltar em breve.” (pg. 64)

“Se te esqueceste, excelentíssimo senhor, vou lembrar-to: sou tua mulher. (…) estamos casados há 12 anos (…) e temos dois filhos (…) Será preciso mostrar-te os documentos para te chamar à razão (…) Conheço-te, sei que és uma pessoa de bem. Mas, por favor, assim que leres esta carta, volta para casa. Ou, se ainda não te sentires capaz, escreve-me e explica-me o que te está a acontecer.” (pág. 9) Assim arranca o livro, em plena desolação e desespero, mascarado de raiva e desdém. Vanda recusa aceitar a ausência de Aldo e entregar-se resignadamente à derrota de uma casamento falhado, detalhando-lhe negligências e ruínas que deixou para trás, pressionando decisões, pela manipulação da realidade caseira e dos sentimentos de Aldo. Ou talvez se sirva do único meio de que dispõe para desabafar acerca da sua nova realidade, deixada só com dois filhos (Sandro com 13 anos e Ana com 9, aquando da ruptura), e as memórias de década e meia que se desmoronou sem aviso.

A segunda parte detalha o presente narrativo (2011), narrado por Aldo e marcado por novo evento disruptivo: uma invasão da casa de família (entretanto reunida), que se assemelha a um assalto e espoleta recordações e desconfianças. A parte final do livro apresenta-nos a perspectiva dos filhos, ambos cinquentões e com o peso de todos os percalços e tensões familiares nas suas personalidades. Entre analepse e prolepse, através desta estrutura fragmentada vamos conhecendo e, por vezes (quando o livro se torna realmente interessante), intuindo a dinâmica desta família. “Vivemos juntos há cinquenta e dois anos (…) A Vanda é uma senhora falsamente enérgica de setenta e seis anos, eu um senhor falsamente distraído de setenta e quatro. Ela organiza-me a vida, desde sempre, sem o esconder, eu sigo, desde sempre, as suas instruções sem protestar. Ela é extremamente activa apesar dos achaques, eu sou preguiçoso apesar da boa saúde.” (pg. 32) Esta reconstituição, que cabe ao próprio leitor, é o triunfo maior do livro, pela habilidade de deixar no papel, de forma sintética e certeira, o quão difícil pode ser o amor, quando a paixão e fulgor iniciais cedem perante a rotina, gerando algo bem mais complexo: um jogo de cedências e mudanças, tantas vezes irreversíveis e impactantes em quem as toma e em todos os que gravitam em torno deste campo magnético.

Aldo pouco contribui para apaziguar o processo de luto e racionalização de Vanda, incapaz de dar corpo ao impulso que o levou a abandonar os seus votos maritais. “Não sei qual era à minha ideia, talvez nada de preciso. (…) os primeiros anos foram bons, sentimo-nos um casal novo, a lutar contras as regras vigentes. Depois, a aventura foi-se transformando aos poucos num hábito imposto pelas necessidades das crianças. Acima de tudo, mudara de repente o fundo sobre o qual desempenhava o papel de marido e de pai. Tudo agora à minha volta parecia atropelado pelo declínio. (…) Estar casado, ter família própria numa idade novíssima, tornara-se um sinal (…) de atraso. Com menos de trinta anos sentia-me velho, (…) depressa me deixei fascinar por modos de vida que programaticamente suprimiam todos os vínculos tradicionais.” (pg. 62 e 63). No entanto, algo escapou ao seu controlo, depois de conhecer a jovem Lídia : “Tarde me dei conta de que não se tratava apenas de um intercâmbio sexual (…) Eu amava aquela rapariga (…) de uma forma absoluta.” Esse amor não mais se desvaneceu, mesmo depois de Aldo decidir regressar a casa, e surge simbolicamente representado pelo cubo de metal azul que mantinha no topo de uma estante da sala, onde guardava polaroids íntimas de Lídia, “escondidas” à vista de todos, e que desaparecem aquando do assalto.

Aldo tenta manter proximidade com os filhos, mas cedo se apercebe dessa impossibilidade, com Vanda a fazer os possíveis para minar esse intento. Acaba por afastar-se da família e apostar na carreira. “Afastei-me da minha mulher e dos meus filhos indo atrás daquilo que me apaixonava: a mulher nova que amava e um ofício veloz também ele novo(…)” (pg. 79). No entanto, depois de um evento chocante, a culpa e a saudade consomem-no, juntamente com a insegurança perante uma mulher mais nova e dinâmica, e tenta reatar contacto com os filhos. Numa das cenas mais marcantes da obra, que lhe dá título, é condensado o sentido da deste todo literário, precisamente durante o (re)encontro, em território “neutro”, em que os laços dos atacadores ganham sentidos insuspeitos. “a Anna perguntou-me (…) – É verdade que foste tu quem o ensinou [o irmão] a apertar os atacadores? Fiquei atrapalhado (…) Não me lembrava. (…) Respondi mentindo: sim (…) A Anna disse-me por seu turno: ele aperta-os de uma maneira ridícula, não acredito que também tu os apertes assim. (…) Está convencido, pensei, preocupado, de que manteve um relacionamento verdadeiro comigo através desse sua maneira de apertar os atacadores e arrisca-se agora a descobrir que se enganou.” (pg. 85 a 88) “A Anna olhou-me nos olhos. (…) Disse: mostra-nos como fazes, e dei-me conta de que também ela, embora gozando o irmão, estava a procurar, com aquela história dos atacadores, a prova de que eu não era um senhor qualquer ao qual havia que atribuir o papel de pai mas algo mais.” (pg 85 e 86)

Depois de demonstrar aos filhos ao detalhe como apertava os atacadores, as reacções fizeram antever o melhor desfecho, com os três satisfeitos a repetir os movimentos. Mas, no final, é Aldo quem termina com a farsa e assume que Sandro aprendera o gesto sozinho. “E, a partir daquele momento, senti-me culpado como nunca me acontecera. (…) Ali no café ouvira os meus filhos bem mais do que no passado, e sentira – reparara em cada recanto do corpo – a responsabilidade por aquilo que lhes retirara, o mal que lhes fizera com aquele roubo de certezas afectivas, e passara dias e noites a chorar, evitando que Lídia se desse conta.”. (pg. 87 e 88) Também o sofrimento de Vanda se lhe afigura pela primeira vez real e a sensação de que “enquanto eu estivera concentrado em furtar-me ao choque desse sofrimento, os nossos dois filhos tinham sido atropelados por ele, quiçá dilacerados. Todavia, perguntavam pelos atacadores.” (pg. 88)

A partir deste encontro, uma espiral depressiva espoleta o fim da sua relação com Lídia e o regresso a casa torna-se praticamente inescapável. Mas nada corre conforme o esperado. “comecei a recear Vanda.” (pg, 91), confessa a páginas tantas. “vivi de 1980 até hoje com uma mulher que (…) sabe como tirar-me as palavras e as forças, sabe tornar-me vil.” (pg.91) Mas nada volta ao normal: “Só que a dor daqueles anos recusava-se a ir embora, estava só à procura de outras saídas. A Vanda continuava a sofrer e dava ao seu sofrimento a forma de intransigência, Sofria e agastava-se, sofria e tornava-se hostil, sofria e assumia um tom desdenhoso, sofria e tornava-se inflexível.” (pg. 92) Para tentar o que se afigurava já impossível, Aldo assume uma posição submissa, o que deixa também os filhos expostos a toda esta violência. Torna-se um verdadeiro “homem-sombra, sempre silencioso” (pg 86) e no seio do casal estabelece-se um pacto de sobrevivência, para mascarar o nada onde se sustentava a sua relação: “(…) aprendemos os dois que, para vivermos juntos, devemos dizer um ao outro muito menos do que aquilo que calamos. Tem funcionado. Aquilo que a Vanda diz ou faz é quase sempre sinal daquilo que esconde. E o meu consentimento contínuo mascara que há décadas que não existe nada, absolutamente nada, em relação ao qual tenhamos sentimentos em comum.” (pg. 97). 

O capítulo final, dividido entre Anna e Sandro, reequilibra toda esta tensão dramática, com humor e uma pequena surpresa, recompensando assim leitor e irmãos por igual, depois do calvário emocional dos capítulos anteriores. 

À laia de conclusão/nota de rodapé, se o livro vos soar familiar, desde já prevenimos que há todo um conjunto de especulações, misturadas com factos, que confirmam a vossa impressão. Explicando: Domenico Starnone é marido de Anita Raja, a tradutora literária identificada como Elena Ferrante em 2017 na reportagem polémica do jornalista Claudio Gatti e há quem defenda que este Laços será uma “resposta” literária, uma sequela do livro Dias de Abandono (nomeadamente Rachel Donadio neste artigo do New York Times), o terceiro da escritora italiana, em que é detalhada a história de uma mulher obrigada a fazer o luto de uma relação de 15 anos que termina, ficando com os dois filhos, vista exclusivamente da perspectiva da mulher, situação também presente na tetralogia napolitana, com a personagem Lénu. Onde Dias de Abandono fala desse afastamento na perspectiva feminina, Laços é um livro virado para as motivações e consequências de um regresso depois da ruptura, e na dissecação da possibilidade do verdadeiro perdão, como hipótese derradeira de reconciliação, pelas múltiplas perspectivas de todos os membros da família. Por outras palavras, Laços apresenta-nos uma tese: será verdadeiramente possível e benéfico para o casal o regressar ao casamento do marido que traiu? Qual o peso de uma instituição tradicional já obsoleta (casamento) sobre a individualidade de quem opta por abraçá-la? (O casal Aldo/Vanda não chega sequer a contemplar a hipótese do divórcio…) O ressentimento pode ser ultrapassado com o regresso à rotina e coabitação?

Não é pela “capa” que se julga um livro, mas nem tudo é mau nesta história paralela ou noutras similares. Se foi um factóide a trazer-vos esta pérola, sorte a vossa. Aproveitem a descoberta e leiam. Vale bem a pena.

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