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Livros – Um balanço de 2017 em 4 capítulos – Vol. II

Neste segundo volume do nosso balanço literário de 2017, focaremos a atenção nos temas do Humor e das Viagens.

Na chamada literatura de viagem, escolhemos dois livros bem díspares, relativamente aos quais esta “gaveta” literária é, no mínimo, redutora.

  • Viagem ao Sonho Americano (A América Pelos Livros) de Isabel Lucas (Companhia das Letras)

A jornalista freelancer Isabel Lucas, conhecida pelos seus artigos de qualidade em jornais como o Público, descreve em doze capítulos a sua longa e laboriosa viagem por diversos estados dos EUA, acompanhada de alguma da melhor literatura de lá surgida. Entre olhares clínicos e incisivos sobre um Povo e uma Nação tão díspares e surpreendentes, Isabel Lucas consegue criar um todo harmonioso, em que, ao registo de reportagem, associa de forma magistral um toque pessoal, que se aproxima da literariedade, transformando o que, noutras mãos, seria uma mera compilação de artigos pré-publicados no Público, numa digressão emocional e intelectualmente estimulante por um território que, por muito que tenha a sua cultura internacionalmente divulgada e instalada como padrão, não cessa de surpreender o resto do Mundo com tantas das suas obsessões e decisões, com Trump sempre em pano de fundo.

O plano inicial era simples: “No final de Fevereiro de 2016, saí de Lisboa com a missão de percorrer os Estados Unidos a partir da sua literatura. Elegera 16 romances de partida para 12 reportagens. Uma por mês durante um ano, no jornal Público. (…) A proposta era fixar-me nesse espaço entre a ficção e a realidade para falar do país num momento de mudança. No resto, seria guiada pelo acaso. (…) Trabalhei a partir de todos esses lugares como se estivesse em minha casa em Lisboa. (…) Estes textos e o olhar que eles revelam resultam dessa vivência.” (pg. 19).

Dos acasos “extra-plano” resultam os melhores trechos de um livro recheado de grandes momentos. O encontro com a imensidão branca e a ausência de uma linha de horizonte no surpreendentemente cosmopolita Alasca, a pobreza extrema, casada com o desdém de quem com ela se cruza, numa Penn Station ausente dos filmes, na madrugada fria de Newark, as conversas sempre inesperadas com o cidadão comum, o anónimo cuja voz nunca se faz ouvir nos espalhafatosos noticiários ou no discurso político de uma 1600 Pennsylvania Avenue longínqua e ausente do quotidiano de um povo alheado do Poder e de uma Democracia que lhe é maioritariamente indiferente.

Cada capítulo é profusamente documentado com os dados básicos de cada Estado em questão, sem que estes números se tornem sufocantes, funcionando antes como pontos de partida ou auxiliares no caminho, para enriquecer uma conversa casual que se trava, não apenas com as personagens reais, escritores, políticos, taxistas que cruzam o seu trajecto, mas com o leitor, que se sente parte integrante desta aventura. Os “travel logs”, apontamentos pessoais e diaristicos da longa jornada, são a cereja no topo do bolo, a voz da escritora a temperar os relatos anteriores e a permitir ao leitor a merecida descompressão entre destinos, com impressões de momento que não caberiam na dúzia de capítulos convencionados. Da riquíssima bibliografia citada, a espinha dorsal da “Viagem”, constam nomes consagrados, como Philip Roth, Saul Bellow, Melville, David Foster Wallace, David Vann, John Updike, mas também descobertas, como o marcante Donald Ray Pollock que, só por si, vale uma viagem ao Ohio.

Acabada a leitura, com conclusão esperada na Big Apple, sobra a estranha sensação de que nem o dobro das páginas chegaria para um retrato fiel da realidade americana, mas retemos momentos marcantes, pessoas únicas, tiradas certeiras, retratos de ocasião que se tornam maiores do que a sua circunstância para, em conjunto, criarem um fresco colorido e intenso de uma América sempre grande, sempre “para a frente”, tanto no Sonho e na identidade que projecta, como na multiplicidade de gentes e ensejos que alberga e a tornam “larger than life”, para o pior e para o melhor.

Essencial e inspirador, de leituras e de viagens.

Aproveitamos a presença de Isabel Lucas na Feira do Livro do Porto para uma entrevista, uma conversa rica e interessante que podem ler AQUI.

  • Inverno no Próximo Oriente de Annemarie Schwarzenbach (Relógio D´Água)

Dona de uma escrita reconhecível em poucos parágrafos, Annemarie Schwarzenbach é uma das personagens mais fascinantes da Europa do início do século XX, apesar da sua fugaz passagem pela existência (ironicamente, morreu aos 34 anos num acidente de bicicleta, depois de várias tentativas frustradas de suicídio).

Neste “Inverno no Próximo Oriente”, há uma natural confluência entre os cenários com que a helvética se depara e a melancolia de que nunca consegue realmente abstraír-se ou libertar-se. Constantemente dividida entre o desejo de evasão e anonimato, com as infinitas possibilidades de novos começos daí derivadas, e a solidão das paisagens imensas e opressivas, como é apanágio de toda a sua obra, é desta dicotomia que se alimenta esta digressão interior e exterior, a que se somam paisagens (outrora magníficas e hoje desfigurados e/ou citados pelos piores motivos) de locais como a Síria, o Iraque ou Ancara, capital da Turquia.

Uma oportunidade única para um vislumbre histórico destes e de outros lugares míticos desta zona do planeta, uma perspectiva rica e detalhada, num registo íntimo e pessoal. Um belo livro da colecção de viagens da Relógio D´Água.

No género da literatura humorística, destacamos dois livros bem diferentes: um clássico da literatura britânica e uma colectânea de contos/short stories de um dos grandes nomes da literatura brasileira contemporânea.

  • Diário de Um Zé Ninguém de George e Weedon Grossmith (Tinta da China)

Charles Pooter é a personagem central deste relato na primeira pessoa de uma vida banal, que o pequeno (no sentido mais parvo do termo) burguês dos arredores de Londres, insiste ser digna de registo para a posteridade. “(…) não consigo perceber porque razão (…) o meu diário não seria interessante. Só me arrependo de não o ter começado quando era jovem.”, avança logo na introdução o respeitável senhor.

O registo é de um verdadeiro e detalhado diário, mantido pelo protagonista, de todos os “destaques” que tem por relevantes nos seus dias, mesmo (e principalmente) aqueles que o mostram como facilmente manipulável, avarento, pedante, irascível ou, muito simplesmente, idiota, pela sua incapacidade de perceber as nuances dos discursos e atitudes de todos os que o rodeiam, incluindo os amigos Cummings (sempre em casa do nosso anfitrião) e Gowing (sempre em fuga para um outro compromisso), a mulher Carrie, que quase sempre abertamente o despreza, e o filho Willie, que tem vergonha da sua “falta de chá” e noção de chique, apesar de ser um verdadeiro pelintra.

O cómico de situação é uma constante, entre mal-entendidos, enganos, deslizes trágicos e erros hilariantes de discurso e vestuário, com o nosso Pooter, sempre digno e de cabeça erguida, alheio à sua própria ineptidão generalizada, mesmo que apenas no papel do diário a sua honra não seja constantemente arrastada pela lama.

Um livro que garante grandes gargalhadas, apesar de escrito há mais de um século pelos talentosos irmãos Grossmith, uma espécie de Seinfeld e Larry David da sua era, donos de um humor clássico e certeiro, que a tradução de Margarida Vale do Gato consegue manter intacto.

  • Humidade de Reinaldo Moraes (Companhia das Letras)

Reinaldo Moraes teve o seu momento de glória com o fantástico “Pornopopeia” (Quetzal, 2011), um clássico instantâneo com tudo o que se espera da grande literatura: escrita impecável e a habilidade de agarrar a atenção do leitor, associada a um humor inteligente, provocatório e corrosivo.

Aqui encontramo-lo num registo de narrativa curta, que, a estas características, junta a criatividade necessária para condensar ideias e personagens perfeitamente definidas e marcantes num número bem menor de palavras. A genialidade da sua escrita é sempre evidente, com claras referências na literatura norte-americana contemporânea (Saunders e Shteyngart à cabeça) e alusões a companheiros de profissão (como o insano Marcelo Mirisola, editado em Portugal pela Cotovia), embora amiúde temperada pela banalidade e pelo riso fácil, mas quando acerta na fórmula, fá-lo sempre em cheio, proporcionando momentos de puro deleite e gargalhada incontrolável,

O conto homónimo do volume, publicado originalmente em 2014, é o mais longo e paradigmático deste estilo. “O Liminha jamais sonhou ter uma mulher como a Mariana. Quando ele conheceu Mariana, seus sonhos começaram. Aqueles peitos empinados como um par de golfinhos saltando em sincronia num tanque de exibições, aquilo era o bicho (…) – Que mulher! E digo mais: que puta mulher. Putíssima (…)” (pg. 57). A história de Liminha e da “impenetrável” Mariana tem todos ingredientes da grande comédia de cariz sexual: o desejo (de Liminha, cego de luxúria e vaidoso demais para perceber o que quer que fosse para além disso), a manipulação das expectativas pelo objecto desse desejo (a sensual e púdica Mariana, farta de esperar pelo homem perfeito e desejosa de ter a vida estável que sempre sonhou), e a impossibilidade crónica e risível de o concretizar, apesar de todo o empenho empregue nas repetidas tentativas.

O equilíbrio encontrado no conto consiste em apresentar a perspectiva de ambos os protagonistas, expondo assim o ridículo em que cai Liminha, ofendido na sua masculinidade, quando é impedido de consumar o seu apetite voraz e fanfarrão, assim como a ingenuidade e as cedências de Mariana, conformada com os avanços de Liminha, à ausência de melhor. “Mas aquele lá parecia diferente. Não sabia explicar por quê. Talvez nem fosse tão diferente, e ela estivesse apenas achando conveniente achar logo um novo idólatra fixo (…) fechou os olhos e acatou o beijo dele.” (pg. 61) Entre alfinetadas ao Brasil conformado na sua mediocridade, seguimos este jogo do empurra até ao desenlace final, mas não é este o melhor texto desta selecção de uma dezena. “Belo Horizonte”, “Sildenafil” e “Festim” partilham esse título ex-aequo.

“Belo Horizonte” é um longo solilóquio de um anónimo ébrio, que discorre sobre as agruras da vida no parapeito do topo de um prédio de vinte e um andares, e onde encontramos aquelas frases marcantes que todo o bibliófilo gosta de ler e todo o escritor de escrever, num misto de exibicionismo e ilusão de deixar uma marca. “Bem pensando, se tudo parasse agora eu até que beberia uma taça de vinho. Mas não trouxe a taça. Nem o vinho. Falta de lembrança. Eu tenho muita falta de lembrança. É que eu penso demais, não cabe tudo.” (pg. 37) Vale bem a pena ler até ao final.

“Sildenafil” (o nome do fármaco baptizado globalmente como Viagra) é uma conversa de cama, ou melhor, um duelo em pleno vale dos lençóis, entre um casal (Horácio e MAria Helena) de meia idade cuja rotina há muito foi contaminada pelo tédio e pela previsibilidade, em todos os aspectos possíveis da vida em comum. Maria Helena quer “trepar”, desesperadamente, e sem o comprimido sabe que nada feito. Horácio está mais interessado em ler o jornal descansadamente e dar uma olhadela no programa da TV, e disposto a agarrar-se a todos os argumentos para evitar engolir o milagroso amiguinho azul. “-Preciso de sexo, Horácio./-Mas hoje é segunda, Maria Helena./-Quero trepar. Foder. Ser comida por um macho de pau duro./-Francamente, Maria Helena, que boca. Parece que saiu da zona./-Quero ser penetrada, quero gozar./-O sexo é uma ditadura, Maria Helena. A gente está na idade de se livrar dela./- Saudades da minha dita dura. Olha só, você me fez fazer um trocadilho de merda.” (pg. 40). Perigo de riso incontrolável ao fim de algumas páginas.

Já “Festim” é uma entrada a pés juntos no reino da distopia, com comentário social e crítica velada a uma sociedade de prazer rápido e inconsequente. Uma festa em que vale tudo e nada é deixado ao acaso, para o prazer (nem sempre legal, moral ou eticamente aceitável) dos convivas. Um fim do mundo orgiástico e decadente numa mansão de luxo, com tudo ao dispor, inclusive o poder para decidir quem vive e quem morre. “Aquele détachement em relação ao lado excessivamente humano da vida, aquilo que era a elegância solipsista da verdadeira modernidade. Não era de bom-tom atribuir importância a cataclismos e calamidades que pudessem ocorrer em torno da sua flûte de Dom Pérignon” (pg. 232). Fátima Márcia da Bessa Rocha é a nossa narradora/protagonista, desejosa de subir rapidamente na vida e, já agora, de alguma emoção, “sair desta vida mofina de esposa de médico de convênio. Quero bovarizar-me à brava.” (pg. 218). Seguem-se cenas épicas de sexo explícito, com direito a narrador omnisciente, que se dirige directamente ao leitor, consumo de drogas várias e um final explosivo e inesquecível, que nos escusamos a revelar, porque vale mesmo a pena lerem com os vossos próprios olhos.

Se é esta a literatura que se faz no Brasil, por favor, queremos MAIS.

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