home Folhetim, LITERATURA Livros – Um balanço de 2017 em 4 capítulos – Vol. I

Livros – Um balanço de 2017 em 4 capítulos – Vol. I

Com o Verão tórrido a não desarmar, nada melhor que mergulhar num livrinho e divagar por palavras e mundos alheios. O primeiro semestre de 2017 foi rico em pérolas literárias, merecedoras de um balanço dos lançamentos que nos impressionaram, necessariamente subjectivo e sujeito a reparos. Decidimos dividir a listagem por 4 artigos e 10 secções temáticas. Começamos pela Poesia e o Teatro.

Na Poesia, escolhemos dois livros que nos impressionaram de sobremaneira, pela força da sua escrita, pela importância no contexto literário português e pelo trabalho de edição envolvido.

  • Uma Faca nos Dentes e Outros Textos de António José Forte (Antígona, 2017)

Livro incontornável da poesia portuguesa, esgotadíssimo há décadas, resultou de um trabalho minucioso de uma das editoras mais consistentes e coerentes do panorama português – Antígona – em conjunto com Paulo Costa Domingos.

O resultado é um volume indispensável para qualquer amante da literatura portuguesa. Para além do livro na íntegra, a edição foi enriquecida com um prefácio de Herberto Helder, fotos raras, facsimiles, um conjunto de escritos do poeta anteriormente dispersos por diversas publicações, assim como um vislumbre, em dois capítulos distintos, acerca de dois períodos seminais da vida do poeta: a sua ligação à biblioteca itinerante da Gulbenkian e os dias do mítico Grupo do Café Gelo.

Para detalhes mais aprofundados, têm a nossa recensão AQUI.

 

  • Poesias Completas e Dispersos – Alexandre O´Neill (Assírio e Alvim, 2017)

Pela primeira vez, depois de diversos volumes dispersos, sempre inconclusivos e incompletos, finalmente surge nas bancas uma edição mais holística da obra de um dos poetas e escritores mais reticentes quanto à fama e visibilidade da história da escrita em português: Alexandre O´Neill, numa edição da persistente e profícua “O´Neilliana” Maria Antónia Oliveira (que em seguida se debruçará sobre a biografia de Cesário Verde). Segundo o que a própria descreve nas notas a esta fantástica edição, “Poesias Completas & Dispersos” reúne num só volume dois livros de O´Neill: “Poesias Completas” (que teve várias encarnações e publicações ao longo do anos, com acréscimos pontuais) e “Anos 70 – Poemas Dispersos” da Assírio & Alvim.

Frequentemente associado ao grupo do surrealismo, a sua escrita superou largamente os ditames estritos de uma qualquer corrente ou moda literária, por definição volúvel e impermanente. O seu humor fino e inteligente, o domínio hábil e igualmente rigoroso do português plebeu e do português mais refinado, sempre o deixaram, por vontade própria, num território só seu, uma ilha de liberdade e criatividade sem freio, que traz à sua escrita um travo de contemporaneidade e plasticidade a que todos os seus pares e contemporâneos apenas podem aspirar.

Poesia, prosa, prosa poética, poesia em prosa, crónicas, improvisos em torno de pontuação e acentuação (o fantástico “Divertimento Com Sinais Ortográficos”), textos humorísticos, crítica social, escrita experimental, trocadilhos gráficos e de palavras, “o constante pendor irónico, o humor declarado, alguma esporádica tendência escatológica” (pg. 718), olhares ácidos, melancólicos e desiludidos sobre o Portugal onde as “vidinhas” iam correndo ao sabor do contingente, ao arrepio da realidade do eterno destino por concretizar. Foi nesta diversidade intencional que O´Neill sempre habitou e é essa multiplicidade de registos que (re)encontramos neste volume, em que o peso é do livro em si, nunca da escrita nele gravada. “O meu estilo é não ter estilo […] Entre a minha expressão coloquial e a minha expressão poética, não há distância. A diferença será de intensidade […]”

Sempre desprezou a fama, a falsa solenidade e reverência conferida à Poesia e aos seus cultores, o que lhe granjeava uma aura de rebeldia, face à qual não podia ser mais indiferente. A sua obra é omnipresente. Desde os poemas que Amália eternizou até aos versos sempre repetidos sobre Portugal ou sobre ele próprio. Não haverão feriados ou efemérides em seu nome, mas a sua voz poética, sarcástica e sempre livre far-se-á ouvir por muitos e bons anos. Este livro apenas veio facilitar esse desiderato.

Auto-Retrato
O´Neill (Alexandre), moreno português,
cabelo asa de corvo; da angústia da cara,
nariguete que sobrepuja de través,
a ferida desdenhosa e não cicatrizada.
Se a visagem de tal sujeito é o que vês
(omita-se o olho triste e a testa iluminada)
o retrato moral também tem os seus quês
(aqui uma pequena frase censurada)
No amor? No amor crê (ou não fosse ele O´Neill!)
e tem a veleidade de o saber fazer
(pois amor não há feito) das maneiras mil
que são a semovente estátua do prazer.
Mas sofre de ternura, bebe de mais e ri-se
do que neste soneto sobre si mesmo disse…

 

No Teatro, destacamos duas obras de referência: uma nova tradução de Shakespeare e uma reedição de Brecht.

  • Macbeth (Húmus, TNSJ)

Vigésimo volume da colecção de Teatro da Húmus e do Teatro Nacional de S. João, esta tradução de Daniel Jonas foi feita a propósito da estreia mais divulgada da temporada no principal teatro do Porto, com elenco de luxo e a visão de Nuno Carinhas. Esta abordagem do clássico de Shakespeare é a melhor edição da literatura do género este ano e as razões são várias.

Antes de mais, o seu autor. O trabalho de Daniel Jonas fala por si. Poeta, escritor, tradutor de excelência comprovada e amplamente reconhecida, não deixou os seus créditos por mãos alheias neste trabalho que se anunciava hercúleo, apesar da reduzida dimensão do texto (em comparação com a grande maioria dos trabalhos do Bardo). À dificuldade inerente de traduzir o frequentemente intraduzível, face aos séculos e contextos que separam o original e a tradução, juntou o tradutor a opção por manter uma métrica constante ao longo de todo o texto, fazendo temer o pior. Nada mais errado. O resultado final é uma actualização cuidada e criteriosa, não sem algumas escolhas arrojadas nas palavras utilizadas, mas que conferem ao todo da peça a velocidade voraz do original, com o bónus de tornarem a dicção exponencialmente mais ágil e o entendimento das deixas pelo público/leitor uma certeza, independentemente do grau de familiaridade com o monumento dramático shakespeariano.

O texto em si é de rápida leitura e de fácil apreensão, sem necessitar de recurso a notas ou a wikipédias para que o alcance de cada acto e frase seja deslindado. Como lhe chamou Nuno Carinhas, é “uma tradução muito concisa e económica”. Mas não é de facilitismo que aqui falamos, já que toda a carga dramática e toada ensandecida é integralmente preservada. A linguagem é tratada com cuidado mas evitando sabiamente os advérbios, interjeições e arcaísmos habituais neste tipo de edição, contribuindo assim para uma salutar renovação, não só literária, como de público leitor, finalmente crente na sua capacidade para contrariar o mito de que ler Shakespeare é entediante ou impossível para o comum dos mortais. Uma obra de referência, para literatos e iniciados nestas lides por igual.

Podem recordar a nossa crítica à peça AQUI.

 

  • Teatro 2 – Bertold Brecht (Cotovia)

Reedição de um volume há muito desaparecido dos escaparates, apresenta-nos a Cotovia a recuperar uma das colecções de Teatro mais seminais do panorama português, preenchendo uma pecha que poucos se vão atrevendo a tentar colmatar, o que, só por si, é de louvar.

Com a qualidade a que sempre nos habituou, este volume recupera quatro peças de Bertold Brecht que, sua maioria, são “versões próprias e controversas de peças já existentes”, como esclarece Vera San Payo de Lemos na introdução às obras. Duas delas valem só por si a aquisição do livro, por representarem colaborações com Kurt Weil no teatro musical e na ópera: “A ópera dos três vinténs” e “Ascensão e queda da cidade de Mahogonny”, aqui em traduções excelentes.

As duas peças restantes – “Um homem é um homem” e “A vida de Eduardo II de Inglaterra” são, respectivamente, a sua visão do furacão social e político ocorrido entre as suas Guerras Mundiais na Alemanha (com a queda de Weimar e as ascensão do Nazismo) e uma adaptação de uma peça de Christopher Marlowe, contemporâneo de Shakespeare (a menos representada do seu repertório ainda hoje), ambas de extremo interesse e de leitura prazeirosa.

Uma edição excelente para fãs do alemão e para quem gosta de bom teatro.

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