home Didascálias, TEATRO Macbeth (FITEI) – TNSJ, 2/6/2017

Macbeth (FITEI) – TNSJ, 2/6/2017

“Nem tudo o que luz é ouro”, diz-se amiúde quando as aparências ficam aquém da realidade. Contra todas as expectativas, foi o primeiro pensamento que nos ocorreu após a saída do Teatro Nacional S. João, com a peça Macbeth no pensamento.

Com honras de abertura do quarentão FITEI 2017 (que decorre até 17 de Junho), elenco e equipa envolvidos nesta produção da célebre “peça maldita” faziam antever uma noite memorável.

O texto é um dos mais curtos e velozes de toda a dramaturgia de Shakespeare, cavalgada diabólica repleta de emoções contraditórias e misticismo, em que o célebre “milk of human kindness” é derramado, calcado e coberto de sangue pelos Macbeth ao longo de cinco actos.

A tradução de Daniel Jonas é um dos superlativos desta encarnação de Macbeth. Para além de actualizar e tornar mais inteligível o texto ao espectador médio, mantém o ritmo e a rima, sem descurar o(s) sentido(s) e a eloquência das palavras dúplices que pululam em cada fala. Um feito hábil e raro para um texto de tamanha dificuldade.

“Imaginar Macbeth sem bruxas não é simplesmente possível”, diz-nos o tradutor no excelente Manual de Leitura da peça.

Diana Sá, Joana Carvalho e Sara Barros Leitão defendem heroicamente as suas bruxas, com a solenidade e mistério que se impõe, compondo uma interpretação consistente.

O elenco na sua globalidade revela uma grande coesão e qualidade, com o óbice extra de serem apenas uma dezena de actores e representarem vinte e uma personagens. Alguns desempenhos destacam-se naturalmente, numa equação em que o protagonismo que a dramaturgia de Pedro Sobrado lhes confere, casa com o talento e capacidade de agarrar a voz das personagens e torná-la sua.

Paulo Calatré, e o seu recto e justiceiro Mcduff, é paradigmático desta misteriosa combinação. Actor e encenador, dono de um currículo já invejável e de um aparelho vocal reconhecível até debaixo de água, apesar do texto reduzido ao seu dispôr desenha na perfeição o arqui-inimigo de Macbeth. A contenção e fidelidade iniciais, tomam as proporções da vingança violenta final de forma fluida, sem ceder à tentação das nuances interpretativas mais barrocas, trazendo-nos um bravo Senhor de Fife, que nem a raiva e a dor conseguem cegar e desviar do seu desiderato: eliminar Macbeth. Uma actuação de antologia.

Por falar em vozes imediatamente reconhecíveis, detenhamo-nos em Emília Silvestre. Referência incontornável do Teatro português, a sua relação com o Porto e o TNSJ é a de um bisavô que cuida ciosamente da sua menina mais preciosa e é retribuído em triplo, com entrega e devoção inexcedível. A “sua” Lady Macbeth não podia ser excepção.

Deixando para trás os ombros dos gigantes que a antecederam, a actriz compõe uma personagem sombria e tragicamente humana, consciente de cada palavra e tenaz na acção, para depois, lentamente, se desmoronar diante do nosso olhar, derrotada pelos factos e imersa na sua própria perdição.

A marca shakespeariana das personagens femininas fortes (como Portia n´”O Mercador de Veneza” ou Miranda em “A Tempestade”) encontra nesta Lady Macbeth perfeito eco, a que se junta a duplicidade, a coragem que a assunção do poder acarreta e o peso da responsabilidade/remorso pelas condutas necessárias para o obter. Ao espectador, resta o fardo de séculos: ensaiar uma resposta aos dilemas quanto ao verdadeiro carácter de uma das damas mais discutidas da história do Teatro, ao seu poder e influência sobre as acções do amado. Magistral e inesquecível.

Não obstante, algumas peças deste puzzle montado por Nuno Carinhas (responsável pela cenografia e figurinos e co-autor da dramaturgia), parecem deslocadas. Desde logo, o arranque da peça.

No cenário, aberto para a boca de cena, terra rubra no soalho, ladeado por três conjuntos de longas cortinas, formando um rectângulo, encontramos as bruxas deitadas. Em seguida, interagem longamente entre si e com o espaço, como se recém chegadas de um planeta distante, descobrindo os seus corpos e tudo o que os rodeia. Decisivas em momentos chave das vidas dos Macbeth, são estas “Weïrd Sisters” que lançam o nobre cavaleiro na sua destrutiva demanda pelo dominio absoluto do reino. As cenas que protagonizam, agravam a espiral inescapável de violência e loucura em que o guerreiro acaba enredado. Embora seja compreensível o seu destaque desde os primeiros segundos da peça, será enriquecedora a perda do ritmo certeiro que a cena inicial original proporciona?

O dispositivo cénico: como referimos, agreste e minimalista comme il faut, não fosse esta uma peça sanguinária e tenebrosa. Resulta em cheio nas cenas derradeiras, em particular o duelo entre Mcduff e Macbeth no bosque, em que as árvores são emuladas por paus suspensos, e nos monólogos de Lady Macbeth, em que a cortina do fundo se aproxima da boca de cena para lhe dar o destaque merecido.

No entanto, o despojamento de meios de iluminação e cenográficos acaba por condicionar a fruição de diversos momentos. Se a ideia era recriar uma atmosfera indefinida e de sonho/pesadelo, reproduzindo a privação de sono a que Macbeth se vê condenado, tal não foi perceptível ao público.

A expressividade dos actores (excepção feita ao protagonista Macbeth), acaba por dissipar-se na escuridão generalizada ao longo de toda a representação, privando-nos assim da fruição de uma interpretação integral, para além do registo da oralidade, em que todo o elenco se mostrou exímio (excelente trabalho de João Henriques na preparação vocal/elocução e de Francisco Leal no desenho de som).

João Reis, actor experiente no universo de Shakespeare, segura o grosso da peça nos seus ombros e voz, tarefa dantesca, se atendermos à multiplicidade de registos por que passa.  Dono de uma grande variedade de recursos interpretativos, soube colocá-los ao serviço do excelente texto com que foi presenteado, revelando, no entanto, a espaços, algum desacerto nos cambiantes escolhidos para a voz e a expressão corporal.

Perante o desespero da derrota iminente, com a insanidade já instalada em todo o seu estertor, Reis agarra finalmente a peça pelo pescoço e aperta-a até que o ar se esvaia por completo, tomando-a para si.

O factor mais desconcertante desta produção é a discrepância entre a sua duração percepcionada (mais longa) e a sua duração real, desaproveitando assim a excelência da tradução e o acerto e economia da dramaturgia (com a supressão de diversas personagens e trechos), em favor de uma visão cenográfica vaga, que raramente valoriza a acção em palco.

A ausência de uma encenação convencional, expediente cada vez mais utilizado no teatro contemporâneo, tem neste espectáculo o efeito inverso ao que supomos ser o pretendido, despindo a retórica de Macbeth, assim como os seus actos e consequências, do magnetismo e fascínio que um texto deste calibre exige, esfumando-se muita da toada poderosa e explosiva que torna esta peça única em qualquer palco em que é representada.

A “peça maldita” continua aqui a sua senda lendária de infortúnios.

Dia 9 de Junho, às 18:00, na Fnac do Norteshopping, é apresentado o vigésimo volume da colecção TNSJ/editora Húmus: Macbeth, de William Shakespeare, com a presença do tradutor Daniel Jonas, João Reis e Nuno Carinhas.

Macbeth mantém-se em cena até ao dia 15 de Junho.

Foto © João Tuna

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