home Antologia, LITERATURA Manifesto Contra-Sexual – Paul B. Preciado (Orfeu Negro, 2019)

Manifesto Contra-Sexual – Paul B. Preciado (Orfeu Negro, 2019)

Vinte anos depois da sua publicação, o Manifesto Contra-Sexual de Paul P. Preciado é agora traduzido para português, numa edição cuidada da Orfeu Negro e como parte de uma linha editorial dedicada a alguns dos textos basilares sobre questões de género, da qual já foram aqui revistos Teoria King Kong, de Virginie Despentes e Não Serei Eu Mulher?, de bell hooks e o canónico Problemas de Género, de Judith Butler. A difícil tarefa de traduzir um texto tão denso e constelado de referências e que rejeita categorias de estilo e ideologia, assim como o politicamente correto da academia mais tradicional, coube a Luís Leitão, que apresenta um tradução cuidada, tão radical quanto o texto original e envolvente. As ilustrações provocadoras de Miguel Bonneville e o prefácio detalhado e incisivo de pê feijó completam a edição.
O Manifesto de Preciado é tanto um manifesto com um anti-manifesto, pois em vez de propor mais uma teorização da(s) sexualidade(s), apresenta formas de descodificar e desconfigurar as identidades e os atos sexuais nas suas acepções mais plurais, um passo à frente da tal erotização da arte que Sontag defendia. O texto apresenta-se efetivamente ‘contra a sexualidade’ mas aquela que se desenha única, binária e natural. Ao ler o dildo como “a verdade da heterossexualidade como paródia” (115), Preciado traça ao longo do texto várias configurações para a prática e existência de sexualidades não binárias enquadradas numa matriz opressiva heteronormativa, binária e colonial, ao mesmo tempo que desenha uma complexa constelação de referências teóricas fundamentais dos estudos de género e queer. A sexualidade é semelhante a uma língua, no sentido em que funcionam como sistemas de comunicação e reprodução e aprendem-se sexualidades como se aprendem línguas (Preciado). Ao apresentar um regime do desejo alternativo, ancorado numa leitura do género como “prostético” (feijó in Preciado, 9), Preciado revê ao mesmo tempo as noções mais básicas de género e sexo, e as limitações destes mesmos constructos. Se “um livro, à semelhança de um dildo, é uma tecnologia cultural de modificação assistida do corpo sexual” (34), então o Manifesto apresenta-se também como modificação da própria teoria queer, assim como dos corpos sexuais quando enquadrados numa produção cultural de sexualidades alternativas a uma falácia capitalista assente na reprodução que demarca a heterossexualidade como norma, ao mesmo tempo que se entende o dildo e outras próteses como ferramentas de desconstrução da normalidade sexual em detrimento do reconhecimento das múltiplas configurações dos corpos sexuais e da sua castração por discursos médicos, sociais e políticos.
A produção teórica e textual é aproximada à produção de género em elaboradas comparações entre o texto literário e o texto carnal, ao entender o corpo como um espaço de inscrição e escrita de códigos. Em 2000, Preciado adiantava que “[e]m breve deixaremos de imprimir o livro e começaremos a imprimir a carne, entrando assim na nova era da bioescrita digital” (45), um indicador da perenidade do Manifesto e das mutações que os corpos sexuais podem sofrer, à medida que novas teorias, ou contra-teorias, são criadas e também questionadas, à medida que se inventam novos órgãos, novas funções sexuais, novos desejos.
Tal como qualquer manifesto, o texto de Preciado também apresenta os seus eixos de acção, neste caso para uma sociedade contra-sexual, onde se defende que é no corpo e não nas instituições que o género é feito, acabando assim com qualquer binarismo, dando primazia à vivência do género em vez daquele que é imposto pelo cartão de identificação e outros documentos legais, passando pela re-erotização do corpo e de todas as suas partes, a separação entre sexo e Estado, a prática de atos contra-sexuais de prazer de desejo, a liberalização do trabalho sexual e ainda a descentralização do discurso médico e das práticas cirúrgicas na redefinição de uma identidade sexual, criando “pós-corpos” cuja identificação sexual é um processo de auto-determinação em vez da imposição heteronormativa de códigos binários feminino/masculino.

Em “Prática de Inversão Contra-Sexual”, apresentam-se atividades performativas baseadas no trabalho de Ron Athey e na interação entre corpo e dildo. Em “Teorias”, Preciado desenha uma espécie de cronologia do dildo, quer das suas teorizações, quer de objectos artísticos como filmes ou performances que, ao olhar para o dildo, revêm categorias, identidades e práticas sexuais, assim como a performance da masculinidade e a desmistificação da “inveja do pénis”, convocando Annie Sprinkle, Judith Butler, Julia Kristeva, entre outros e outras”: “[o] dildo transformou-se no espelho da Alice queer, através do qual se podem ler as diferentes culturas sexuais” (102).
Uma outra parte do capítulo é dedicada a uma discussão muito relevante sobre a punição de atos masturbatórios pela medicina, assim como a história de castração da sexualidade feminina e do processo de diagnosticar identidades e sexualidades alternativas, assim como a imposição médica de cirurgias invasivas, dolorosas e cujos resultados eram normalmente insatisfatórios a pessoas intersexuais, uma categoria sexual normalmente negligenciada e incrivelmente disruptiva pela sua natureza não binária, numa obsessão com a normalização do corpo sexual que não apresenta a configuração esperada pelas matrizes de representação e codificação heteronormativas: “[o] corpo diferente não é erradicado, mas fisicamente transformado para ser incluído no regime visual heterossexual” (167).
“Exercícios de Leitura Contra-Sexual” encerra o livro em formato de vinhetas e fragmentos e apresenta reflexões sobre a homossexualidade e as suas várias configurações e as butches como “resultado de um curto-circuito entre a imitação da masculinidade e a produção de uma feminilidade alternativa” (232), ou seja, um das figuras que articula a gramática do dildo, re-escrevendo as configurações das sexualidade femininas e lésbicas.
Não teorizar é também teorizar. O Manifesto Contra-Sexual de Preciado, ancorado em textos canónicos de nomes facilmente reconhecíveis, é um texto radical e agradavelmente (im)perfeito, que pretende “evitar o fechamento do discurso académico, embora continuando a utilizar algumas das suas ferramentas críticas para compreender o que fora excluído dele” (37) e talvez a única forma de criar teoria sobre uma disciplina tão volátil e em constante transição como é a teoria e (os corpos) queer.

Por defeito profissional, a Ana Carvalho escreve de acordo com o novo desacordo ortográfico.

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