home Didascálias, TEATRO A Máquina de Emaranhar Paisagens – TeCA, 26/02/2017

A Máquina de Emaranhar Paisagens – TeCA, 26/02/2017

As paisagens emaranhadas evocadas no título são um excelente ponto de partida para o espectáculo a que assistimos no TeCA (Teatro Carlos Alberto).

Dirigido e interpretado por Dinarte Branco, vive do contraste de enquadramentos dramáticos para cada um dos textos seleccionados de Herberto Helder. Regra geral, assume uma aura quase cerimonial e mística, tal a crueza e perfeita definição das palavras partilhadas. O público recosta-se, confortavelmente mergulhado no turbilhão de emoções que delas deriva, envolto na escuridão da plateia, no jogo de véus e díspares tonalidades de luz e sombra povoando o palco, criados por Paulo Oliveira  e Feliciano Branco.

No entanto, perante a mestria de Dinarte Branco, em comunhão com a música original interpretada ao vivo por Cristóvão Campos, as palavras de Herberto Helder ganham novo fôlego. Graças à sua feliz concretização física, a representação dramática e a oralidade conferem-lhes uma densidade mais palpável, ao invés de as banalizarem (como acontece com tantos outros poemas, quase menores uma vez ditos), quebrando assim o seu famoso hermetismo.

A impressionante memória e a inteligente paleta de registos dramáticos presentes na interpretação nunca manipulam, apenas conduzem, apontam caminhos. A palavra é respeitosamente destacada, a tempos avassaladora na sua assertividade, cómica no seu absurdo, misteriosa nos seus silêncios marcados e dominadores. Livre afinal, como foi o seu criador e como se quer a verdadeira Arte.

Pela cena, passam excertos de A Colher na Boca (1961), Antropofagias (1971) ou A Faca Não Corta o Fogo (2008). Ver e ouvir textos como o inesquecível “Duas Pessoas”, tratados com o cuidado e emoção intrínsecos a cada detalhe, torna-se quase comovente. Surpreende o seu vigor dialógico e dramático, o confronto de perspectivas diametralmente opostas e a sua projecção em direcção à universalidade de um todo humano. Narrativa existencial, poética, mas presa ao chão. Redescobrimos sentidos, aliterações, repetições, ritmos.

Perde-se a revelação privada, entre o livro inerte e o seu leitor, germinada para se elevar ao patamar da concretização visual, sempre a rainha no mundo das nossas limitadas percepções.

O final é paradigmático e vai ao encontro d´ “A Máquina de Emaranhar Paisagens”, nome do espectáculo.

Como nos revela Rosa Maria Martelo, no programa da peça, a propósito de um projecto do poeta:  “Baseado num processo de combinação textual com variações, A Máquina de Emaranhar Paisagens (…) resulta da reunião de fragmentos recolhidos no Génesis e no Apocalipse, na Balada dos enforcados, de François Villon, n’A Divina Comédia, de Dante, e em Os Lusíadas. A estes elementos vem juntar-se um pequeno texto (…). Tratava-se de reunir fragmentos textuais (…) um lugar revelado no processo de os textos agirem emaranhadamente uns sobre os outros. Sintomaticamente, os fragmentos escolhidos permitiam recriar um mundo mítico, remetiam para o princípio e o fim dos tempos, para o encontro entre os vivos e os mortos. Imagens de um grande dinamismo, entre o apocalíptico e o genesíaco, acentuavam o deslumbramento.”

O “deslumbramento” final, com a música em picos de intensidade divergente, a luz num ascendente até ao intenso brilho, é uma despedida e um balanço final, tornado mantra hipnótico. Dissolve-se a noção de repetição e tempo, tal a eficácia da encenação combinada com a entrega ao texto, dito de olhos cerrados. Um convite ao abandono do controlo, uma entrega a algo maior, independentemente da teimosa e inevitável iteração da Vida e da Morte.

“Ver sempre o poema como uma paisagem”, anotava o poeta algures. Testemunhamos isso neste dia. A aventura da palavra, sempre inóspita, indómita. Fugindo à celebração reverente do poeta ungido e definitivo, Dinarte Branco ousa criar visões, amplia sentidos e alcances iniciais.

Um espectáculo memorável.

Foto ©Telmo Sá

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