home LP, MÚSICA Mostly Other People Do The Killing – CCVF, 11/11/2017

Mostly Other People Do The Killing – CCVF, 11/11/2017

Os Mostly Other People Do The Killing (doravante MOPDtK, por motivos óbvios), habitualmente um septeto com banjo, apresentaram-se no Guimarães Jazz 2017 no mesmo formato, mas com guitarra na vez do banjo (guitarra, bateria, contrabaixo, sax alto, piano, trombone e trompete), trazendo consigo o seu excelente 12º álbum Loafer’s Hollow (Hot Cup, 2017). Com o seu mentor e compositor Moppa Elliot (contrabaixo) como mestre de cerimónias, cada pausa entre tornados jazz era preenchida com um toque descontraído e irónico para, em seguida, o ensemble soltar o seu inacreditável vocabulário musical, colocando em sentido o público que compôs a sala e, não raras vezes, se via incapaz de reagir ao que lhe era atirado do palco com toda a força.

Os instrumentos levados ao limite do física e sonicamente possível, em sucessões de solos entre o inacreditável e o obsceno uso das capacidades inesgotáveis do colectivo, sem qualquer tipo de reverência com durações, compassos, ritmos ou melodias, destruíam de modo cataclísmico a introdução melódica, afilhada do dixieland mais tradicional, a evocar as marchas de New Orleans ou um Duke Elington na sua versão mais clássica.

Embora seja injusto destacar um elemento entre tanto talento, Jon Irabagon, encarregue do saxofone alto, encheu-nos as medidas. O domínio extremo de todas as cambiantes frásicas e rítmicas do seu instrumento, permitia-lhe, com toda naturalidade, deslizar entre o free jazz mais revolto e inclemente, sucessivas incursões por um universo quase místico, em que as notas como que se dissolviam à velocidade da luz e o regresso ao muzzak convencional e amistoso, com um cheirinho a pop até. Um talento que, ao vivo, supera o registo de estúdio a largas milhas e é mesmo daqueles músicos que valem um bilhete em qualquer palco do Mundo.

Moppa começa o concerto com uma explicação breve do contínuo conceptual que subjaz ao álbum e, por conseguinte, ao concerto que serviu para o apresentar na íntegra. Cada tema é baseado numa obra literária – a lista é ecléctica e incluí Ulysses de Joyce, Mason and Dixon de Pynchon, Blood Meridian de Cormac McCarthy, David Foster Wallace ou Vonnegut – de onde retira uma tradução musical, um ritmo, uma ideia dissonante.

No entanto, ao contrário do álbum, em que despacham 8 músicas em cerca de 40 minutos, no palco do Centro Cultural Vila Flor, tomaram todo o tempo necessário para fazerem das suas, carregando cada intervenção com todo o arsenal possível de afirmações e alusões melódicas, num aparente caos de sucessivos improvisos explosivos que terminava, sem excepção, em demonstrações cabais de superior qualidade técnica e coesão colectiva, a fazer lembrar ensembles históricos de gigantes criativos como Charles Mingus.

O resultado foi um épico caldeirão de referências, dos primórdios do Rock, com ecos de Elvis, à música clássica, por exemplo, num solo monumental do discreto, porém eficaz, pianista Ron Stabinsky, em que cita o que nos soou Scriabin e Chopin, entre frases diletantes e absurdas, escalas salteadas de loucura e pura desconstrução. O disco é bom, mas nada substitui ouvir os Mostly Other People Do The Killing ao vivo, para confirmar que, ainda hoje, o Jazz é o único estilo musical onde nada é interdito.
Numa altura em que qualquer parvoíce se torna “viral” e os idiotas viram ídolos, os solos virulentos e insanos destes senhores justificam um hype planetário.

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