home Antologia, LITERATURA Não Serei Eu Mulher? – bell hooks (Orfeu Negro, 2018)

Não Serei Eu Mulher? – bell hooks (Orfeu Negro, 2018)

“Nesses dias inebriantes [os anos 60], emancipação feminina era o nome que se dava a esta nova e espantosa forma de pensar o género” (9). Hoje em dia, o género encontra ainda novas e espantosas formas de ser pensado, tais como a que é apresentada por bell hooks em Não Serei Eu Mulher?. Nesta reflexão sobre a condição da mulher, em particular da mulher negra, a intersecção entre classe social, raça e género serve como forma para entender porque se sentia bell hooks posta de parte, dentro e fora do dito movimento feminista, enquanto jovem e negra. A autora, que sabia muito sobre o patriarcado e o sexismo, e como estes formavam a feminilidade, mas muito pouco sobre o papel atribuído às negras na cultura dominante, tenta então apresentar e criar novos modos alternativos aos espaços de privilégio branco, e entender, não só como o machismo, mas também como a raça, têm lugar na determinação do lugar da mulher negra. Assim, este livro, que apresenta uma visão cronológica dos vários tempos e espaços de segregação e opressão da mulher negra, desde a escravatura até aos movimentos, também eles patriarcais, da reclamação dos direitos civis pelos afro-americanos, pretende ser uma análise “da política quer do racismo, quer do sexismo numa perspetiva feminista […] um estudo do impacto do sexismo nas mulheres negras durante a escravatura, da desvalorização da mulher negra, do sexismo, do homem negro, do racismo no movimento feminista recente e da participação da mulher negra no feminismo” (34). bell hooks revela ainda o cuidado que teve com a escrita, para que este feminismo aqui apresentado seja verdadeiramente transversal, alcançável e entendível, independentemente da escolaridade de quem o lê.

bell hooks afirma que há uma dificuldade em aceitar que o sexismo seria mais opressor do que o machismo. No século XIX tinha-se lutado uma dupla batalha, quer contra o racismo, quer contra a segregação sexual, numa tentativa de emancipar “a mulher negra, duplamente cativa” (19). A autora apresenta ainda uma leitura cronológica que documenta, por exemplo, o apoio dado pelos homens brancos ao sufrágio negro que, sendo sexista, deixava mulheres, quer brancas quer negras, fora do direito ao voto, tendo resultado no direito ao voto para os homens negros que, concebido este poder, exerceriam o mesmo tipo de sexismo dos homens brancos sobre as mulheres negras, algo que se manteve durante longos anos:

“se tivessem feito sondagens às negras nas décadas de 1930 e 1940 e se lhes tivessem perguntado que força mais as oprimia, teria sido o racismo, não o sexismo, a primeira da lista” (22).

Mesmo durante os marcantes anos 60 e a revolta pelos direitos civis, os homens negros exerceram a mesma opressão sexista branca sobre as mulheres negras, ficando vincado que papéis eram expectáveis para as mulheres negras dentro do próprio movimento que, apesar de alinhar o racismo como força opressora comum, delineava claramente a fronteira entre as problemáticas femininas e masculinas dentro e fora das organizações negras: “defendem eles [homens negros] que a noção de feminilidade – e só quando são pressionados a abordarem-na é que pensam nela ou a discutem – depende da definição deles de masculinidade. E assim continua esta treta”, escreve Toni Cade Babara em “On the Issue of Roles” (23). Se o movimento pretendia a libertação negra, este acabou por reformar o patriarcado, agora negro, já que “o sofrimento da mulher não podia ter prioridade sobre a dor do homem” (24). hooks escreve ainda que “não se pode confundir resistência com transformação” (25) ao referir-se à imagem estereotipada da strong black woman, que resiste constantemente à opressão externa. Através desta imagem, as mulheres negras ficaram para sempre construídas como inatamente mães e sempre disponíveis como objetos sexuais, ou seja, todas as categorias de que as mulheres brancas, agora parte de um movimento feminista branco, abriam mão.

“Quando se fala de gentes negras, o sexismo opõe-se ao reconhecimento dos interesses das mulheres negras; quando se fala de mulheres, o racismo opõe-se ao reconhecimento dos interesses das mulheres negras”(26). Se existe, por parte de alguns e algumas, o cuidado em nos referirmos ao ser humano como “humanidade” em detrimento do vocábulo exclusivo “o Homem”, hooks reflete sobre o imperialismo racial branco na narração da história do Estados Unidos que, quando se refere às “mulheres”, estas são também exclusivamente brancas, negando a existência de todas as outras não-brancas – e são muitas – perpetuando assim a matriz patriarcal exercida pelos homens brancos. Sobrava assim, naquela altura, apenas a hipótese de se aliarem ao movimento patriarcal negro ou ao feminista branco. Nenhum responderia às suas necessidades. bell hooks adianta ainda uma premissa provocatória: são os académicos brancos (pelo menos na altura em que o livro foi escrito) que escrevem sobre os negros, num esforço que, apesar de louvável, é questionável e que reforça o ventriloquismo dos negros a quem não é dado um lugar de fala, sem nunca apresentarem estudos aprofundados sobre a condição social da mulher negra, apenas antologias que respondem às necessidades do mercado.

Raça e sexo, essas “facetas imutáveis da identidade humana” (34) apresentam-se  sempre articulados e, para hooks, nunca podem ser discutidos separadamente. Não Serei Eu Mulher? é um texto furioso, onde hooks desconstrói e destrói teorias e teóricos que, a seu ver, foram incapazes de entender e analisar a experiência de dupla segregação e invisiblidade que a mulher negra sofreu – e sofre ainda. Apesar de um tanto datado, este livro surge inserido na coleção que a Orfeu Negro tem vindo a traduzir e a publicar, depois de outros textos fundamentais do movimento feminista e seminais para os chamados estudos de género e estudos queer. Se Problemas de Género de Judith Butler (cuja recensão encontram AQUI) abarca questões sobre a performance do género e a homossexualidade, seria expectável que o próximo passo editorial passasse pela relação tão problemática e complexa que é aquela entre raça e sexo.

Este livro, entre manifestações efusivas por parte movimentos neo-nazis e de extrema direita, uma supremacia patriarcal branca, como demonstrada pela situação de país como o Brasil e os Estados Unidos da própria bell hooks, a morte de Marielle Franco e a resistência de movimentos como o #Metoo e Black Lives Matter, mostra-se como uma poderosa arma de reflexão do lugar desta identidade, tantas vezes rasurada, das mulheres negras, apanhadas numa luta constante contra o imperialismo branco e patriarcal, à medida que tentam resistir às várias colonizações do corpo sofridas diariamente por mulheres, e em particular, as não brancas.

Por defeito profissional, Ana Bessa Carvalho escreve de acordo com o novo desacordo ortográfico.

Mais recensões/crítica literária AQUI.

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