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NOS Primavera Sound 2019: os miúdos também podem entrar

O NOS Primavera Sound de 2019 arriscou num cartaz híbrido, mantendo a personalidade que o destacou e juntando-lhe cabeças de cartaz capazes de arrastar multidões. O tempo ajudou e o balanço, apesar dos habituais “velhos do Restelo”, é francamente positivo, com cerca de 75000 pessoas a encherem o recinto entre os dias 6 e 8 de Junho de 2019. Mas deixemos os resumos para o final e falemos de música.

O primeiro dia foi morno no Parque da Cidade, com Danny Brown a trazer os mais novos ao festival tido como da geração dos seus pais, cumprindo assim um dos desígnios anunciados pela organização para esta edição. A chuva antecedeu o concerto de Brown sem o prejudicar em demasia. Com a “casa” a dois terços da lotação (medido a olho), tivemos uma tarde de tépida e alinhamentos a condizer. Jarvis Cocker era um dos mais aguardados para este dia de abertura e confirmou-se como excelente comunicador e performer, embora sem a explosão dos tempos áureos, que a idade não perdoa. Os problemas técnicos também não ajudaram, mas Jarvis é bem mais do que a sua circunstância.

Por falar em idade, os Built to Spill foram uma das boas surpresas do dia, com a reprodução na íntegra do seu álbum Keep It Like A Secret, que celebra duas décadas. Pausados e talvez demasiado ponderados para o que tocavam, foram competentes, num concerto para agradar os fãs e pouco mais.
Miya Folick surpreendeu principalmente pela grande voz com que nos contemplou, com a sua formação lírica bem patente na afinação e alcance do seu instrumento primordial. Com uma actuação alegre e em constante comunhão com o público, soube controlar os ritmos e apresentar com classe o seu álbum de estreia, início certo de voos mais altos.
O regresso dos saudosos Stereolab foi um excelente interlúdio para o prato principal do dia, com o seu pop muzak chique e referencial. Calma e requinte no Palco Seat, que juntou umas boas centenas, que ainda comiam e fumavam tranquilamente um cigarro. Talvez à tarde tivesse sido um bom momento para ter o sol por companhia.

Seguiu-se Solange, que rapidamente calou dúvidas e preconceitos com uma actuação à altura das grandes vedetas mundiais.  Com uma entourage numerosa e de qualidade, ouviu-se música a sério no Palco NOS. A voz sempre imaculada, as coreografias sincronizadas, o contacto carinhoso e caloroso com o público que não arredou pé. O respeito ganha-se em palco e o nome não chega para assegurar o entretenimento, como ficou bem patente no concerto de serviços mínimos de Danny Brown. Não é preciso imprensa exagerada ou mitos e lendas associados a cada novo disco e digressão. Solange tem música que desafia, inova e cresce a cada disco e concerto. Foi um gosto testemunhar como se faz uma estrela.

O segundo dia teve um alinhamento para toda a família, com sol e novo jazz britânico, mas também reggaeton e rock. Confusos? Calma, não houve mortos nem feridos e o espaço chegou para todos conviverem em paz. A gestão de tempo entre palcos foi facilitada pela aplicação do festival e o seu separador Timelapse, que permitia saber o que acontecia em tempo real. Nubya Garcia passou pelo Palco Pull & Bear para tocar um jazz solto entre várias sonoridades. Sinon Jones compunha o ritmo na bateria, entre o ska, o Rock e o improviso, Daniel Casemere tomava conta do contrabaixo e James Benkley desenhava nas teclas a base melódica para o grupo soltar a imaginação. Um excelente refresco para o sol da tarde, preparando a chegada do furacão com os seus conterrâneos Sons of Kemet, pela segunda vez em Portugal, arrebatando facilmente um lugar no pódio dos concertos mais emocionantes e enérgicos deste NOS Primavera Sound desde a sua fundação. Com quatro bateristas, um vocalista com fato de treino colorido, um saxofone tenor nas mãos do carismático líder da banda Shabaka Hutchings e uma enorme tuba, a festa e o poder sonoro foram simultâneos e magnéticos. Com o seu fantástico terceiro álbum My Queen Is a Reptile a dominar o alinhamento, era puro fogo que emanava do palco, com as letras e invectivas do vocalista por um Mundo melhor e mais tolerante a mostrar a vertente política e humanista deste grupo de músicos de topo. Um concerto curto demais a pedir palco principal.

Com Aldous Harding e Surma a tocarem demasiado cedo para muitos festivaleiros poderem desfrutar do seu talento, tivemos Courtney Barnett em todo o seu despreocupado esplendor para compensar. O Palco NOS foi pequeno para tanta classe fluir naturalmente. O sol ainda presente convidava a ficar e trazer um amigo e uma loura de pressão. “Elevator Operator” e “Pedestrian at Best” não faltaram, entre outras num excelente concerto. A própria australiana gozava com as letras das músicas, convidando o público a cantar os refrões por serem fáceis. O Rock para ser bom não tem que se levar nem ser levado demasiado a sério. Afinal, é só música.

Chegou a noite e com ela os habituais Shellac e o seu festival de distorção e letras paranóicas, com o mítico Steve Albini ao leme. A groupie Courtney Barnett e a sua banda assistiam embevecidos e divertidos ao espectáculo a que estes veteranos já nos habituaram, com convite para “snifar coca” nos camarins incluído, entre outras preciosidades impossíveis com qualquer outra banda. O princípio do divertimento total e do absurdo de toda a distância artificial entre músico e público e do endeusamento da estrela rock é partilhado com a fã australiana.

Finalmente com o destaque merecido, os Fucked Up foram promovidos ao Palco Seat para um concerto bem puxado do seu hardcore , regado com energia a rodos e os melhores temas da sua carreira (quase todos do seu primoroso David Comes to Life) para mais uma actuação de antologia.

J Balvin trouxe famílias inteiras ao primetime do NOS Primavera Sound, com os mais novos munidos dos seus telemóveis sempre em punho, em delírio perante a música que os faz vibrar, e os mais velhos, uns metros atrás, vigiando com bonomia. A explosão de cores e ritmo vinda do palco fez as delícias de muitos milhares e provavelmente pagou o resto da alinhamento do festival até ali.

Os regressados Interpol presentearam o público numeroso que os viu com uma alternativa roqueira ao raggaeton, passando em revista uma carreira de sucessos, com o novo álbum e EP na primeira linha, não renegando hinos como “Obstacle 1” e “Evil”, para gáudio dos fãs mais antigos.

James Blake fechou a noite já depois da 1h, com a sua electrónica sentimental e o novo álbum Assume Form no domínio do alinhamento. O britânico deixou o piano em várias músicas, para cantar de pé. Olhos fechados, voz sentida, descalço no parque com Rosalía ou com limites no amor pela sua versão do tema de Feist, soube vencer a circunstância horária para criar um belo espectáculo.

O dia derradeiro das festividades foi liderado pela estrela Rosalía, com a sua bem sucedida síntese entre o flamengo e todo o espírito fatalista da cultura espanhola com o pop para consumo global, materializada no álbum El Mal Querer (2018). A voz continua infalível, como nos anteriores trabalhos em que dominava a tradição musical de nuestros hermanos, mas agora adornada com coreografias sensuais e coros contagiosos. O público do concerto do parceiro J Balvin trouxe mais amigos, o que em conjunção com as boas condições meteorológicas, deixou o recinto a abarrotar de menores e maiores desejosos de abanar as ancas e reconhecer com outros milhares em palco os sucessos que ouvem em stream. A artista agradeceu e deu o seu melhor, com êxitos como “Malamente”, “Barefoot in the Park” ou “Con Altura” a porem a audiência ao rubro.

Umas horas antes, no mesmo Palco NOS, tivemos o privilégio de um pedaço de história musical, com Jorge Ben, em excelente forma e disposição, rodeado de uma banda recheada de qualidade, a mostrar-nos tanta música que nem sabíamos ser sua quando a trauteamos, como o clássico “Mas Que Nada” e outros brindes. O Brasil para além da Bossa e do samba, com o rock e a MPB em versão anglo-saxónica que tanto surpreendeu nas idas décadas de 60 e 70 do século passado, é hoje património da Humanidade e Jorge Bem nunca enjeitou o seu papel nesse maravilhoso pedaço de mau caminho musical. Nunca é tarde para descobrir este génio.

O palco principal fechou com uma actuação de gala da imperatriz do soul Erykah Badu que, apesar do atraso de meia hora, compensou largamente a espera, com o calor da sua voz e presença. Com belos efeitos visuais em palco, e uma banda completa com secção de sopros, armada com alguma parafernália electrónica para tocar os temas dos mais recentes e arrojados álbuns New Amerykah Part One e Part Two, foi no entanto nos regressos frequentes ao passado dos memoráveis Baduizm, Live e Worldwide Underground, que a texana ganhou o público, com coros frequentes e a alegria de ver aquela música favorita finalmente ao vivo. Uma excelente aposta da organização, ganha sem espinhas.

Pelos lados do indie e das “novas” vozes que alinhavam no cardápio deste dia diverso, destaque para Lucy Dacus, Big Thief e Snail Mail. Em 2018, Lucy Dacus formou as boygenius, com as estrelas em ascensão Phoebe Bridgers e Julien Baker, editando um EP muito recomendável. Dona de um dos melhores álbuns desse ano (Historian, pela Matador Records), esta cantautora de Virgínia cultiva um estilo bem distinto de escrita confessional, sempre com a guitarra acústica por perto e o magnetismo que se estende para além da fisicalidade ou da performance (já que permanece estática todo o concerto), para se centrar no seu desempenho vocal e na simplicidade e eficácia das composições. Um grande pequeno momento para alguns privilegiados. Durante a actuação, perguntava ao público o que estavam ali a fazer, com um som tão bom vindo do Palco Seat. Curiosos, fomos espreitar para descobrir os Big Thief. Numa primeira audição, poderá parecer mais do mesmo, na onda de Dacus, mas com electricidade na equação. Nada mais enganador. As melodias são recheadas de pequenas surpresas e inflexões que fazem toda a diferença, e a ambiência contemplativa é assim equilibrada por um som mais assertivo e composto, para relatar angústias amorosas e existenciais de modo mais empático e interessante. O novo álbum U.F.O.F. (4AD, 2019) foi revisto em palco, mas não faltaram grandes temas do melhor disco da sua carreira, o indispensável Capacity (Saddle Creek, 2017), que esteve no topo das listas de melhores do ano de todas as publicações de referência.

Regressamos ao Palco Pull & Bear para assistir ao concerto de Lindsey Jordan, com o seu projecto Snail Mail, que antes da maioridade tinha já dois EPs editados. Com a sua estreia nos álbuns – Lush (Matador, 2018) – tivemos um vislumbre não apenas da qualidade das suas ideias, mas do potencial da sua música, aliando técnica e imaginação na guitarra, com o descaramento de quem não teme errar. Atitude neste caso não traz riffs poderosos, mas a música vale a pena da primeira à última nota.

Os veteranos tiveram grande impacto neste dia, com Guided By Voices e Low a oferecerem dois concertos imensos, embora em sentidos diametralmente opostos de intensidade. Começamos pelos imparáveis Guided By Voices, com um longo e frenético espectáculo, cujo alinhamento incluiu 35 (!) canções, incluindo a gloriosa “Game of Pricks”, com o histórico Robert Pollard a revelar-se o perfeito mestre-de-cerimónias para esta viagem a uma carreira que leva já mais de três décadas. Para quem não conhece, fica uma pérola para começar.

Já os Low fazem do silêncio poder, com cada minuto a soar eterno e imponente. “Do You Know How to Waltz” foi um daqueles instantes em que qualquer descrição fica aquém do momento, por falta de vocabulário que lhe faça justiça. Puro êxtase, com escuridão vinda do céu e do palco a completarem a cena na perfeição. O resto do alinhamento passou pelo já clássico Ones and Sixes (Sub Pop, 2015) e pelo extraordinário Double Negative (Sub Pop, 2018), construindo uma muralha de lassidão e eco que reverberou nas muitas almas sideradas que a contemplaram. Um duplo negativo da explosão atómica dos My Bloody Valentine há uns anos no palco principal, mas igualmente inesquecível.

Regressamos ao Palco Seat para ouvir o concerto de Kate Tempest na íntegra, junto à grade, o único em que o fizemos. Sabíamos do recém lançado The Book Of Traps And Lessons (Republic Records, 2019), conscientes de que, com a sua história na escrita e na música (poesia, prosa e dramaturgia editada, três discos e múltiplos EPs, premiada com um prémio Ted Hughes – a primeira pessoa com menos de 40 anos a consegui-lo – e um Mercury Prize, professora universitária de literatura, membro da Royal Society of Literature) a actuação era imperdível. Para além das letras, ditas com total entrega, flow certeiro e intensidade constante, Kate transforma-se em sombra para veicular ideias e sentimentos, buscando sentidos para esta temida e devoradora realidade que nos cerca, lançando perguntas, lutando contra o nada com beleza e versos armadilhados. Mesmo quando a batida entrou ao engano, adaptou a letra e o ritmo como se nada fosse, com um jogo de cintura que poucos rappers experientes teriam no seu lugar. Kate observa, digere e transforma em palavras o espírito deste tempo, na conturbada Grã-Bretanha actual mas também na Europa, no Mundo e no nosso silêncio introspectivo.

O álbum lê-se e ouve-se como um livro, múltiplo e urgente nas suas perspectivas, completo no seu conceito de retrato que parte do individual para chegar ao ouvido colectivo, inspirado e relevante, mas também atento e consciente das suas limitações. Afinal Kate é só uma voz, por melhor que a saiba utilizar. Outras houvessem. Fazem falta as vozes acima do coro imenso da mediania feita normalidade.

O balanço NOS Primavera Sound 2019 é de aposta ganha em toda a linha, espantados que foram os fantasmas da diversificação da oferta do cartaz poder afugentar o público, como se a lepra pudesse vir de um pouco de raggaeton. As descobertas musicais foram múltiplas, os concertos memoráveis idem, e o público compareceu em massa, confirmando a trajectória de crescimento sustentado, ainda longe da sobrelotação de outros eventos congéneres, com melhoras nas casas de banho e uma óptima oferta de serviços e opções gastronómicas. 2020 já tem o regresso dos Pavement garantido e a nossa presença certa. Até para o ano!

O resumo em forma de playlist do Spotify pode ser ouvido aqui:

Foto © Hugo Lima

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