home Didascálias, TEATRO O Arranca-Corações – Teatro São Luiz, 17/02/2019

O Arranca-Corações – Teatro São Luiz, 17/02/2019

O Arranca-Corações toma para o seu título o nome de uma arma que apareceu num romance de Boris Vian – A Espuma dos Dias (L’écume des Jours, na versão original). Esta arma é, em parte, personificada por Tiago Morto, nome dado por Nuno Nunes nesta adaptação para teatro a uma das personagens principais do enredo do romance (Jacques Mort).
O primeiro contacto com o mundo surreal de Boris Vian, um universo poético, cómico e trágico em igual medida, ocorre logo ao entrarmos na sala. O elenco aguarda os espectadores em palco e, entre um discurso perdido e algumas cantorias, lentamente enchem um balão, até que “BUM!!!”.
A peça começa com a apresentação de Tiago Morto, homem sem passado, e com a exposição do caminho que este percorre até chegar a uma aldeia peculiar. Ao alcançar o seu destino, o psiquiatra Tiago Morto ajuda Clementina no nascimento dos seus três filhos, Noël, Joël e Citroën, os dois gémeos e o “outro”, nascido logo após os primeiros. Clementina recebe Tiago Morto em sua casa e assim descobrimos um lar sem amor, quer entre os cônjuges, quer entre mãe e filhos, ou mesmo, entre quem serve e quem é servido. Aqui, neste lar, Tiago Morto vai experienciar, em dose reduzida, a falta de humanidade e de consciência perante o outro ou, melhor dizendo, a ausência de coração em tudo o que se faz e se é, característica da aldeia.
Clementina é uma mãe-contradição, que ama os seus três filhos sem os amar e que, sob o pretexto de os querer proteger, acaba por não os deixar viver uma vida normal enquanto crescem, isto porque vive em constante vertigem diante da inevitável incerteza da vida. Não perdoa ao seu marido Ângelo a dor do parto, e este, angustiado por se encontrar privado de ser pai dos seus filhos e de amar a sua mulher, acaba por fugir – não sem antes, através de vários diálogos com Tiago Morto, trazer alguma lucidez à loucura daquela aldeia sui generis.
A empregada Cu Branco é também presença assídua e elemento desta dinâmica familiar disfuncional – chega inclusive a ter um caso amoroso com Tiago Morto.
A aldeia macabra, situada junto a uma falésia (literalmente à beira do precipício) representa um mundo virado ao contrário. Ali reside uma população de personagens estranhas, alheia a qualquer tipo de consciência e livre de vergonhas ou pecados graças á “Glóira” que pesca com a boca e engole tudo o que os habitantes despejam ao rio – tudo o que se quer apagar. Esta povoação e os seus aldeãos, imaginados por Boris Vian, representam uma alegoria de uma sociedade cruel onde se torturam animais, as crianças são escravizadas para trabalhar (se preciso até à morte) e os velhos são vendidos em leilão à melhor oferta. É uma aldeia de “pão e circo”, como era Roma no apogeu da decadência que conduziu à sua queda, exponencialmente elevada a si mesma.
Enquanto isto, na aldeia existe também um padre histérico que considera a religião como um luxo e sente um visceral desdém por todos os seus habitantes. A dada altura, acaba por combater Satanás num desafio de pugilismo, sendo a Igreja um ringue de boxe para delírio da população, que tanto torce por um como por outro.
Descobrimos ao longo da peça que Tiago Morto é um homem sem passado, vazio, algo que transparece do seu temperamento ameno: nada o incomoda ou o satisfaz suficientemente. Esta personagem é alguém que procura ansiosamente “psicanalisar” para preencher o seu corpo com uma vida que não tem, feita das memórias e do sofrimento dos outros, pois só assim, arrancando corações, poderá ter apetites e desejos tornados seus. Nas suas visitas regulares à aldeia, vai-se acostumando a tudo que aí se passa, ou seja, conforma-se com o Inferno na terra e rende-se àquela forma de viver.

Como podemos constatar, o romance que Nuno Nunes adaptou aborda diversos temas: a maternidade, a família, a velhice, a religião, a infância e, no fundo, a própria fragilidade da natureza humana.
Boris Vian imaginou um mundo onde todas as pessoas cedem aos seus impulsos, e desenvolveu uma critica que se torna cada vez mais premente com o avançar dos anos: forma compassiva e indolente com que, muitas vezes, suportamos aquilo que intrinsecamente sabemos estar errado.
Em cena, Sofia Dias, Emanuel Arada, Ana Brandão, Hugo Sovelas e Miguel Damião assumem várias personagens do fantástico de Boris Vian. Apesar de uma boa prestação por parte de todo o elenco, a nível de interpretação, Ana Brandão e Miguel Damião destacam-se positivamente dos demais.
A melhor parte deste espectáculo porém, e onde só cabem elogios, foi efectivamente toda a componente sonora, nomeadamente a música ao vivo e os efeitos de som. Congratulamos Nico Tricot pelo seu excelente trabalho.
O cenário simples, fundo bege de papel amachucado, mantém-se ao longo de toda a peça, e enriquece com os adereços visuais com que os actores interagem ao longo dos actos: balões, areia, peças de madeira, lanternas, entre outros.
Estávamos a contar com uma peça estranha, pois estranho é o próprio romance de Boris Vian. E entendemos que, como o fez Vian ao leitor, quis Nunes desestabilizar o seu espectador. Mas não podemos dizer que tal foi conseguido com a mesma taxa de sucesso. Enquanto no romance de Boris Vian encontramos um confronto entre realidades dicotómicas e inversas, nesta peça infelizmente o espectador encontra apenas a vertente mais negra: não há beleza, apenas feiura; não há ordem, apenas caos; não há pudor, apenas excesso. Uma peça grotesca, crua e “bestial”. Neste sentido fica apenas a vertente critica e não se evidencia a procura por uma sociedade melhor. A audiência acaba somente revoltada com o que se passa naquele mundo inventado, com a sensação de que o propósito da obra não foi conseguido, reconhecendo igualmente a tarefa hercúlea que tal representaria.

O espectáculo passa pelo FITEI a 10 e 11 Maio.

Foto © Estelle Valente

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