home Didascálias, TEATRO O Corpo de Helena: contra a pandemia, um clássico ultramoderno

O Corpo de Helena: contra a pandemia, um clássico ultramoderno

Mantendo o rumo iconoclasta que norteia a sua actividade, a associação Teatro Nacional 21 criou O Corpo de Helena, um espectáculo experimental em que toma o texto homónimo do escritor, poeta e dramaturgo Paulo José Miranda (que teve por base o mito clássico de Helena de Tróia), para o submeter aos rigores e imponderáveis do confinamento e das novas tecnologias, transpondo todo o processo de criação e o próprio espectáculo para o contexto do directo on-line, o “novo normal”. Todo o elenco e equipa técnica interage do seu ponto de origem isolado para (re)criar este evento que se antecipa único.

Tivemos o gosto de entrevistar Paulo José Miranda, conversa que aqui deixamos na íntegra.

Revista INTRO (RI): Este “O Corpo de Helena” foi a segunda obra que publicou (em 1998). Ainda se lembra de onde surgiu a necessidade de a escrever? Qual a origem do seu fascínio pelo mito de Helena de Tróia (se é que existe)?
Paulo José Miranda (PJM): Escrevi esta peça em 1993 ou 1994. Estudava filosofia e grego antigo e esse era na altura o meu mundo. De algum modo ainda é. O meu fascínio pela Grécia antiga não é circunscrito a um mito em particular. Continuo a ler os filósofos e os poetas gregos.

RI: Qual foi o critério para a escolha das figuras do drama, deixando de fora a própria Helena e Páris, por exemplo e incluindo Ártemis num deus ex machina surpreendente?
PJM: O que me importava explorar era a dor de Menelau e de como essa dor poderia ser o motor de algo novo, neste caso motor da dúvida, que é uma categoria moderna. Explorar a força da perda de um grande amor. Neste sentido, senti que Helena não devia ter presença a não ser em forma de um delírio de Menelau. As figuras que me importava mostrar, além do coro, era as da casa de Atreu e as que a ela estavam ligadas, de modo a poder mostrar com clareza a diferença entre estes – que queriam fazer a guerra, perseguir a honra – e a de Menelau, que via a inutilidade da guerra. Pois nenhuma guerra faria com que Helena voltasse a amá-lo. Mesmo que matasse aquele por quem Helena se apaixonou, Helena não voltaria a sentir o que ele gostaria que ela sentisse.

RI: No final, a maior crueldade acaba por provir de uma mulher, e é invisível, ao incidir sobre a consciência de Menelau. Uma tragédia moral ou uma alusão ao poder da subtileza e inteligência feminina?
PJM: A maior crueldade não foi a de Ártemis, que não é uma mulher, mas uma deusa. A maior crueldade foi a de Helena, que deixou Menelau prostrado em dor e pensamentos. Não pretendi abordar nenhuma questão moral. O que pretendi foi mostrar como a perda de um amor pode destruir o mundo de alguém. E, por um lado, essa perda não depende de nós, por outro, nada do que se faça nos devolve esse amor. Nem uma guerra. Neste sentido, da inutilidade da guerra, podemos ver essa acção de Menelau de pôr em causa a destruição de Tróia como um elemento ético, sim, mas não moral.

RI: Como vê estas novas possibilidades tecnológicas aplicadas ao seu trabalho, este choque entre a ultramodernidade e o peso milenar da mitologia? O texto clássico ainda sobrevive entre o acesso instantâneo à informação e o coma actual da cultura mundial?
PJM: Infelizmente para os actores e todos os que trabalham à volta da peça teve de ser assim. Foi um recurso, uma tentativa de responder a este tempo que impede de estarmos uns com os outros. Mas para mim, do ponto de vista do autor, é uma experiência fascinante poder ver o que escrevi ir para além do que alguma vez pensei. Pois aquilo a que vamos assistir situa-se num território novo e desconhecido. Numa entrevista recentemente, que a actriz Emília Silvestre concedeu a Sandra Sousa no Jornal da RTP2, dizia que os actores ainda estavam a tentar entender que “objecto” estão a fazer. Talvez esta confluência entre uma forma tão contemporânea e uma tão antiga nos faça ver de outro modo o texto escrito. Gostava de sublinhar que para além da dificuldade do trabalho dos actores devemos acrescentar as dificuldades da encenação, das luzes e da figuração. Pois o Teatro Nacional 21 tem de usar o que cada um tem em cada casa.

RI: Porque é que em 2020 ainda é essencial o teatro? Ou melhor, em 2020 ainda faz sentido o teatro enquanto arte?
PJM: O teatro é iminentemente político. E a política nunca deixa de ser essencial, no sentido em que é estritamente humana a preocupação pela cidade que compartilhamos. Não sei se há teatro enquanto arte, isto é, se há teatro apenas com preocupações estéticas. O teatro sempre foi ou sempre tentou ser o mundo ao espelho. O teatro é o lugar onde o mundo vai para se poder ver melhor a si mesmo. Perder-se o teatro, nesta dimensão, perde-se grande parte da consciência do mundo sobre si mesmo. Basta, por exemplo, encenar uma peça de Shakespeare só com mulheres para que isso seja profundamente político e obrigue o mundo a pensar.

RI: Projectos literários para o futuro próximo?
PJM: Acabo de publicar o meu mais recente romance, Aaron Klein, na Abysmo.

No âmbito desta produção, Teatro Nacional 21 decidiu criar um Fundo de Apoio à Criação para os artistas formados em Artes Performativas no último ano lectivo (2018/2019). Embora o espectáculo O Corpo de Helena seja de acesso livre, os espectadores têm a possibilidade de contribuír (IBAN: PT50003300004543334286705), com o fundo a ser distribuído após o período de exibição do espectáculo.

Estreia nos dias 26, 27 e 28 de Junho, às 21H, em directo no Facebook e Instagram da companhia Teatro Nacional 21.

Ficha técnica

Texto| Paulo José Miranda

Direção | Cláudia Lucas Chéu

Intérpretes |Albano Jerónimo, António Durães, Emília Silvestre, Luís Puto, Marta

Bernardes

Espaço Cénico e Figurinos | Tiago Pinhal Costa

Desenho de Luz | Rui Monteiro

Assistência ao Desenho de Luz | Teresa Antunes

Direção de Produção | Francisco Leone

Produção Executiva | Luís Puto

Parceiro Institucional: República Portuguesa – Cultura

Apoios: Carlos Leal, Gerador, GMS Store, Oskar&Gaspar

Créditos do vídeo: R2

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