home Didascálias, TEATRO O Dia do Juízo – Teatro São Luiz, 16/10/2019

O Dia do Juízo – Teatro São Luiz, 16/10/2019

Uma das perguntas ético-políticas mais interessantes de Platão era a seguinte: um ato bom e justo continuará a ser o que é se permanecer desconhecido dos homens e dos deuses? E o mesmo se perguntaria inversamente: um ato mau ou injusto permanece o que é se for do desconhecimento geral? Sócrates respondia a essa questão defendendo que há duas razões para que nós não devamos matar, mesmo que ninguém o saiba. A primeira é que uma das características fundamentais dos seres humanas é a possibilidade de estes estabelecerem diálogos consigo próprios. Neste sentido, mesmo que ninguém saiba, é para eles inconcebível viver na companhia de um assassino para o resto da vida. A segunda razão é que, ao fazê-lo, os seres humanos passariam a ver os outros à imagem da nossa própria ação, isto é, como potenciais assassinos. Uma semelhante questão ética permanecerá na cabeça do respeitado e acarinhado chefe da estação de comboios de O Dia do Juízo, a peça de Ödön von Horváth, que Cristina Carvalhal levou a cena no S. Luiz.

Numa noite igual às outras, ele é distraído por um imprevisível beijo de uma jovem, falhando um sinal de aviso a um comboio que passava a estação. Dezoito pessoas morrem, num ruidoso e aparatoso acidente. Só que, entre voltas a travessas, o chefe da estação acaba por ser considerado inocente em tribunal, já que a jovem decide prestar um falso testemunho e afirmar que o terá visto a dar o sinal. Responsabiliza, portanto, o falecido condutor do comboio pela distração que originou o acidente. Mas poderá o guarda da estação e a jovem que o beijou viver com esta mentira? É a partir deste dilema que tudo se joga neste O Dia do Juízo.

Propondo-se, na senda do texto, a superar o vulgar drama burguês, a encenadora procura que a peça se torne numa metáfora sobre culpa e consciência, verdade e responsabilidade. Nessa perspetiva, adivinhava-se um desenvolvimento fértil. Mas tudo se complica quando os objetivos da peça generosamente se alargam, propondo uma relação do texto com temas atuais, como a proliferação das redes sociais, o papel do jornalismo, a manipulação da opinião pública, os populismos, o ódio e a xenofobia, a crise económica e as suas consequências nos serviços públicos, entre outros, sobre os quais Cristina Carvalhal reflete na entrevista que acompanha o espetáculo. Diga-se que as suas preocupações são certeiras e deve valorizar-se este esforço de fazer um teatro mais preocupado e centrado com o mundo em que vive, e menos embebido de fetiches herméticos, que muitas vezes o tornam uma doce torre de marfim, desligada do tempo em que ocorre. Só que ligar este texto com o que hoje vivemos, é uma tarefa de difícil execução.

Há paralelos que são claros e que a encenação assinala. A reflexão sobre a racionalização dos serviços conduz-nos, por exemplo, a uma interessante discussão sobre a responsabilidade dos funcionários, quando tudo parece institucionalmente organizado para que estes falhem. Está presente, também, uma preocupação sobre as flutuações irrefletidas da opinião pública, que ora vai para um lado, ora vai para outro, em função da narrativa hegemónica e da intriga de cada momento, geralmente ampliada acriticamente por um jornalismo mais interessado na exploração emocional do acontecimento, do que na investigação e no confronto de factos. E encontramos, igualmente, uma tentativa de construir o co-envolvimento da comunidade no problema: todos, de alguma forma, vão ser responsáveis pelo desfecho, porque todos, perante ele, têm um qualquer grau de responsabilidade e participação.

Essa tentativa, portanto, existiu. Só que a ambição de usar o texto quase como meta-narrativa metafórica do mundo atual deixou muitas questões por cumprir. Com as projeções de vídeo, por exemplo, procurava-se que a imagem refletisse uma certa dinâmica de aceleração das nossas sociedades, sempre agarrada a ecrãs, que diluíram as barreiras do espaço e do tempo. Só que as imagens não aceleram nada, e quase nada refletem de novo. Repetem, acentuam, carregam e aproximam o que se vê em cena, mas não vemos de que forma, afinal, elas poderiam dar conta dessa aceleração que supostamente procuram. Também o papel dos média aparece no início, na cobertura ao acidente, mas em mais momento nenhum nos lembramos de alguma deixa ou cena que aprofunde a questão da crise do jornalismo nos tempos em que vivemos.

As questões éticas, quase interiores às personagens, sobre a culpa e a justiça, com que abrimos esta reflexão, são muito interessantes, sob vários pontos de vista. Mas acabam, na verdade, por consumir a generalidade da narrativa da peça. Na ânsia de sabermos como se sentem e o que vão fazer o guarda e a jovem, todas as outras questões acabam por se tornar laterais, e quase dispensáveis.

Enquanto reflexão ética sobre culpa, consciência e responsabilidade, O Dia do Juízo é uma peça que vale a pena ser vista e discutida, porque o texto é muito interessante e a encenação adequada à sua dimensão. Só que a questão ética se sobrepõe, quase sempre, às variadas questões políticas que a encenadora queria trazer para palco e para reflexão. E não é que isso torne a peça, em si mesma, desinteressante. Simplesmente a desadequa dos seus próprios propósitos, deixando-os em grande medida por concretizar.

Por defeito profissional, o João Mineiro escreve de acordo com o novo desacordo ortográfico.

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