home Antologia, LITERATURA O Escuro Que Te Ilumina – José Riço Direitinho (Quetzal, 2018) 

O Escuro Que Te Ilumina – José Riço Direitinho (Quetzal, 2018) 

Da literatura portuguesa diz-se há muito que não sabe falar de sexo. As razões são conhecidas e analisadas à saciedade, pelo que a sua mera referência implicaria uma série de considerações que não cabe aqui formular, por razões de economia de espaço e disponibilidade do pobre leitor. O patriarcado condescendente que governa as letras portuguesas com mão soberana, raramente usa a dita para muito mais do que a escrita e os cumprimentos da praxe. Com algumas excepções que confirmam a regra, na literatura como na vida quotidiana, o sexo e seus derivados ainda são tabu e os livros pouco contribuíram para alterar esse estado de coisas. Com este O Escuro Que Te Ilumina, José Riço Direitinho põe de lado a crítica literária, em que se destacou pela excelência, para se atirar à utopia de mudar este paradigma pela sua pena, tentativa que, apesar de louvável, se fica pelas intenções. Mas nem tudo é mau neste diário de um homem num “processo-de-apaziguamento-de-angústias-existenciais-mal-identificadas” (devia haver uma sigla para isto…) por via de banho de sexo anónimo e um sortido de situações trágico-cómicas e cliché em qualquer filme erótico francês das últimas décadas, apesar do esforço inglório para parecerem sexy e eróticas.

O protagonista desta história, simultaneamente seu narrador, é um professor universitário, apresentado como tímido e reclusivo voyeur, com uma paixão platónica por uma vizinha (a que dedica as palavras que deixa no diário que constitui o livro), apenas para, em pouco tempo, se tornar num temerário aventureiro sexual, guiado pelo desejo e a luxúria, qual borboleta saída do seu casulo depois de uma lenta metamorfose (que se supõe tenha passado por batidos proteicos e horas de crossfit). Do nada, a luz. «Aconteceu hoje: Num texto insonso (…) detive-me na expressão “sexo em lugares públicos”.(…) O texto falava de dogging e carparking (…) “Ver foder e deixar-se ser visto a foder”, era esta a ideia que lhes dava tusa. A mim também. Exibicionismo e voyeurismo: estar dentro ou fora de um automóvel. (…) Fiquei com curiosidade e com tusa. » (pg. 27 a 29) Há indícios de que alterou o seu corpo para se fazer notado, depois de uma vida em que era sempre visto pelo sexo oposto como o “gajo simpático”. Perde-se aqui uma oportunidade de ouro para aprofundar a temática da percepção que o homem tem de si e a mulher tem do homem, do modo como a dança da sedução tem os dados viciados à partida e de como somos mais primários do que julgamos nas nossas escolhas sentimentais e sexuais. Toda esta hipocrisia é aflorada, mas falta-lhe o fôlego que daria outra densidade ao protagonista e quiçá à obra no seu todo. «Esta coisa agora muito em moda e moderna de erotizar a inteligência e os bons sentimentos – que está demasiadamente sobrevalorizada, sobretudo entre as mulheres (bem lá no fundo todos nós sabemos que o que dá tesão, ou não, é o corpo do outro), foi uma invenção ficcional (…) O seu aproveitamento não deixa de ser curioso: por um lado (…) vem sublinhar aquela ideia machista de que o desejo físico nas mulheres não é para andar a ser apregoado por aí (…) por outro lado, junta um toque de politicamente correcto: valorizar o espírito em relação ao corpo nas cenas de cama (…) Isto não passa de uma patranha: todos sabemos que mesmo quem defende com unhas e dentes esta ideia (…) não deixa passar um dia sem que, ao referir-se a alguém, o faça apenas pelo aspecto físico, sem referências ao intelecto e à bondade.» (pg. 43) E continua, com ajuda de Knausgård «Knausgård diz que a auto-imagem de alguém não inclui apenas o que a pessoa é, mas também a pessoa que se desejaria ser, a que poderia ser e a que foi outrora. Faltou-lhe juntar também a imagem que os outros nos devolvem, essa sim, pode controlar – com aspectos ditatoriais – a imagem que temos de nós próprios: a que me devolviam nunca foi grande coisa. O desejo que sentiam por mim era sempre demasiado intelectualizado (…) o que não ajudava nada a compor a imagem que eu tinha da minha masculinidade (…) o corpo (…) apenas um acessório do resto de mim, daquilo que eu pensava e dizia, não era erótico por si (…) porque rejeitava a presença do corpo: do meu.» (pg.45)

O novo homem parte à descoberta do alcance sedutor do seu novo Eu e sucedem-se cenas de sexo, entre o épico sexo oral com uma “Lolita”, aluna da sua aula, acompanhado de versos de Bocage, uma agente da Judiciária e uma juíza (que a justiça também merece ter os seus momentos de prazer com o nosso garanhão) e encontros fortuitos em locais da especialidade ou entre carros estacionados em sítios pré-definidos, sempre com o seu novo acessório realmente traquinas: uma sotaina. Mas calma, tudo isto com um motivo sempre válido desde que a literatura existe enquanto tal: a salvação. «Cansado de “não existir” fisicamente, de ser apenas uma “ideia” que elas admiravam (…) mudei: tive de mudar para continuar vivo. E o sexo passou a ser a maneira de me salvar (…) o modo de receber o afecto físico que há muito (…) não conseguia ter.» (pg. 55) Para descrições convincentes de sexo para além do meramente instrumental, colocar sinónimos de pénis e coito e citar Bocage e seus congéneres é manifestamente insuficiente. O sexo sem algo mais do que os actos em si, (mesmo que a passos bem (d)escrito, honra seja feita ao autor), mesmo com este fundo de regeneração quase vingativa de um passado de invisibilidade assexuada, soa a pouco. Não somos defensores da literatura militante ou engajada com causas que não a do próprio autor e da defesa das suas personagens, mas será mesmo necessário para o progresso do enredo e da personagem detalhar uma sessão de sado-masoquismo com uma colega professora tida como recatada? Ou é apenas mais um artifício para apimentar e reforçar a inconsequência do todo?

Depois temos a história sempre latente da relação com a vizinha, cuja materialização chega a suceder, mas é apenas aludida sem qualquer desenvolvimento relevante, para além das polaroids. «Olho devagar em volta: sinais de ti espalhados pela casa: memórias de nós: objectos que usaste, outros que deixaste esquecidso ou que nem por isso (vou fotografá-los todos com uma velha polaroid e juntá-los a este diário).» (pg. 132) Outra oportunidade perdida, dizemos nós. É certo que mantém o tom soturno e desolado, vazio até da narrativa, mas à custa do desenvolvimento da personagem e com o ónus de uma nova inconsistência: se o diário é dedicado à amada, porque não consta nele qualquer momento partilhado?

Por fim, o protagonista. Com todos estes avanços e recuos na sua construção, do leitor não consegue empatia ou desdém. Apenas distanciamento e estranheza pela aparente incoerência que preside ao seu desenho. O professor universitário aborrecido com a sua vida passa de voyeur isolado e solitário, com uma paixão platónica por uma vizinha com quem nunca falou (e com quem, do nada, depois se relaciona brevemente…) e algumas pulsões mais inconfessáveis, a explorador sexual, com um à-vontade libertino próprio de um experiente amante, conhecedor dos segredos do sexo (inclusive do sexo tântrico…) sem qualquer explicação convincente para este facto, que não o perfeito pretexto para uma colagem (o formato de diário íntimo facilita tal expediente) de encontros sexuais da mais diversa índole, associado a um vasto leque de citações e referências a autores dispersos.

No final, a redenção. Afinal é o amor que salva, pelo que o nosso herói se mantém condenado: «só o amor que é eterno em cada momento, e a pessoa amada, nos podem salvar. De resto, somos e seremos sempre assim: sós, irremediavelmente sós.» (pg. 131) O sexo é bom, mas não salva vidas. Bolas. Tanto esforço e paciência (nossa e do desgraçado protagonista, com o seu pénis já a precisar do merecido descanso do guerreiro) para nada. Por fim, uma involuntária réstia de empatia. Ganha o coração e ganha o narrador que deixou realizadas as suas fantasias, embora sem o “happy end“. Perde o leitor, sem saber o que fazer com o que acabou de ler.

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2 thoughts on “O Escuro Que Te Ilumina – José Riço Direitinho (Quetzal, 2018) 

  1. Não entendi porque se fala tanto deste livro cheio de clichés , absolutamente desinteressante até nas descrições sexuais. É francamente medíocre. Leitura fácil da mais desinteressante.

    1. RC:
      Na recensão explicamos com algum detalhe as razões de este livro ser falado e de falarmos dele. Obrigado pelo feedback e boas leituras.

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