home Antologia, LITERATURA O Evangelho das Enguias – Patrik Svensson (Objectiva, 2019)

O Evangelho das Enguias – Patrik Svensson (Objectiva, 2019)

O Evangelho das Enguias de Patrik Svensson, insere-se numa já generosa história literária em que o tema central e ponto de partida para a narrativa/ensaio/investigação são os animais. Em H is for Hawk, Helen MacDonald tenta domesticar, ao mesmo tempo, açores e a dor trazida pela morte repentina do pai. Em The Sexual Politics of Meat, Caroll J. Adams compara o tratamento de animais e o ato de comer carne com a misoginia cultural e a masculinidade. Em Elizabeth Costello, Coetzee apresenta-nos uma académica para quem olhar para os animais é olhar para a experiência humana, e enfrentar a crueldade com que os animais são tratados é também refletir sobre a própria crueldade humana praticada sobre animais e humanos. Em Why Look at Animals, John Berger analisa a relação entre humano e animal, e como esta relação tem vindo a ser alterada de acordo com as nossas necessidades, desde representações de deuses, a alimentação, a criaturas incompreendidas que provocam medo e ansiedade, a um puro estado de materialidade e dependência alimentar e de entretenimento.
Em todos os textos que olham para os animais encontramos uma inquietação presente nas teorias que os estudam, mas também nas teorias do pós-humano ou até da ecologia queer: olhar os animais e a natureza, a sua destruição, acidental ou deliberada, é também olhar para a existência humana, dependente de relações de posse, convivência e uso dos animais e da natureza envolvente, uma existência feita em relação aos animais em superioridade ou em fluxo harmonioso com esses seres. Entender os seus rituais de reprodução, a sua capacidade de afeto, a sua fragilidade, a nossa dependência deles, as hierarquias que lhes impomos, a veneração do cão, o endeusamento da vaca noutros locais longe daqui, a mutilação ritualística em comunidade presente na matança do porco, a medição da inteligência dos animais de circo, apenas pela sua capacidade de reproduzir o que, para nós, é humano.
Para Aristóteles a enguia era uma espécie de milagre, já que teria origem no nada, espontaneamente saíndo da lama e do lodo, fugindo assim ao padrão da reprodução de outros peixes. A vida da enguia começa, no entanto, no Mar dos Sargaços, um mar apenas delimitado por fortes correntes, sem fronteiras terrestres, onde as enguias nascem debaixo da rede de algas para seguirem depois uma longa viagem até às costas da Europa. Os corpos quase transparentes e frágeis transformam-se então em corpos robustos e dourados, facilmente adaptáveis a qualquer corpo de água e até à terra, já que a enguia pode permanecer fora de água, rastejando por períodos de algumas horas até encontrar água de novo, sendo “um peixe que infringe as condições reais dos peixes. Talvez nem saiba sequer que é peixe” (13). A travessia do Atlântico termina quando a enguia percebe que chegou a casa, que encontrou comida, refúgio e esconderijo que respondem às suas necessidades. Quando privada deste espaço, por questões ambientais ou meteorológicas, a enguia regressará a casa assim que lhe for possível, demonstrando uma afinidade facilmente reconhecível para nós humanos, cuja única certeza ao final de um dia, quando não privados de uma casa ou abrigo, é ter o mesmo destino. O seu único objetivo é a reprodução e a enguia espera até que o consiga concretizar (entre quinze e trinta anos), o que traz à enguia um novo estado de mudança, quer de corpo, quer de casa: migra de novo para o Atlântico, de onde veio, e o seu corpo torna-se prateado. Esta “viagem longa e ascética, navegada com uma consciência existencial que não pode ser explicada” (16) é marcada pelas mudanças no corpo da enguia, dedicadas inteiramente a tornar o seu corpo de sobrevivente num corpo fértil: o estômago dá lugar a células reprodutoras, e a enguia move-se, sem comer e sem descanso, com o único objetivo de voltar ao Mar dos Sargaços, de onde partira anos antes, para morrer depois de se certificar que terá descendentes. A comparação a círculos, ciclos e retornos bem familiares aos humanos é obrigatória:
“O riacho representava as suas [do pai] origens, o que lhe era familiar e próximo e aquilo a que ele sempre retornava. Porém, a enguia que se movia no fundo oculto, e que ocasionalmente se revelava a nós, representava outra coisa. Essa era antes uma recordação do quão pouco, apesar de tudo, se podia saber, tanto sobre uma enguia como sobre uma pessoa, sobre de onde se vem e para onde se vai” (39).
O processo reprodutivo singular das enguias confundiu cientistas durante séculos e foi apenas descodificado no século passado, contrariando as crenças de Aristóteles, Plínio e muitos outros homens da ciência (Svensson efetivamente apenas menciona homens), que julgavam que estas surgiam de forma espontânea de material orgânico como lama ou pedras, entre muitas outras crenças sobre o surgimento da enguia, cada uma particular do seu local de origem e que, à altura, serviam como explicação da própria crença de origem do mundo em que tudo teria surgido do nada.
Foram vários os estudos sobre as enguias e os seus sistemas reprodutores e várias as contradições que, apenas no século XVIII, começaram a ser explicadas através da dissecação de enguias – e da observação de órgãos reprodutores e de ovos dentro de enguias, numa relação direta entre “ver” e “existir” ou do falhanço em ver, como aconteceu com Freud, que, com a tarefa de encontrar os órgãos reprodutores masculinos, se encontrou em Trieste, frustrado e sem conseguir dar resposta ao que lhe tinha sido pedido, mesmo depois de abrir quatrocentas enguias e as observar ao microscópio. Não era certo se a enguia dava à luz ou se punha ovos, se tinha dois sexos ou nenhum, porque voltava ao Mar dos Sargaços para se reproduzir ou se morria mesmo depois de se reproduzir. Questões que fazem da enguia, segundo Svensson, uma curiosidade milenar para naturalistas a quem, mesmo através da observação, certos aspetos da sua vivência mantinham-se ocultos, abrindo assim, “uma pequenina fenda aberta ao mistério” (34) numa ciência tão precisa e determinada em explicar como tudo funciona.
À semelhança de H is for Hawk, O Evangelho das Enguias também é marcado por uma espécie de herança familiar na relação entre narrador e animal: se MacDonald se dedica à falcoaria como uma forma de se relacionar com o pai ausente, para Svensson as enguias evocam dias passados a pescar com o pai perto da casa onde este tinha crescido: “não me recordo de alguma vez termos conversado sobre outra coisa que não de enguias” (20).

Os animais estão intimamente relacionados a memórias familiares, quer no seu consumo, quer na relação de afeto que com eles construímos. A cartografia emocional e afetiva de uma família pode desenhar-se pelos cães e gatos que se teve, pelos almoços de domingo onde a carne ou o peixe não podem faltar, pelas atividades como a pesca ou a caça que aproximam pais e filhos como rituais de passagem, pela colaboração com pais ou avós na matança de animais criados ou pescados para comer. Mais ainda, os animais enquanto comida e a forma como nos relacionamos com eles estão intimamente relacionados com questões históricas, culturais, económicas e até políticas, como é analisado por Svensson na tradição de pescar enguia na Baía de Hano, chamada Costa da Enguia da Suécia, onde o festival da enguia tornou o animal “com o tempo, património cultural” (89), na questão política e sócio-económica que envolveu a pesca da enguia durante o domínio britânico na Irlanda até aos troubles, quando a enguia era exportada para alimentar a classe trabalhadora de Londres, dado o preço baixo a que era vendida, ou no País Basco, onde a enguia é uma das iguarias mais caras e apreciadas e a pesca da enguia uma ocupação passada de geração em geração. Com a proibição da pesca da enguia coloca-se em causa o sustento de várias famílias que dependem desta atividade, ao mesmo tempo que se protege a enguia de pesca excessiva e da destruição da espécie. Como Svensson argumenta de forma incisiva:
“Este é o grande paradoxo, que também se tornou parte da questão da enguia como ela se nos coloca hoje: para compreender a enguia, temos de nos interessar por ela e, para nos interessarmos por ela, temos de continuar a persegui-la, matá-la e comê-la. … nunca é permitido a uma enguia ser simplesmente uma enguia. Nunca é permitido a uma enguia existir apenas para si própria. E assim, a enguia também se tornou num símbolo da nossa complexa realidade com toda a vida que nos rodeia e que não é a do próprio ser humano” (97).
Um “enigma na área das ciências naturais” (30), a enguia é para Svensson uma metáfora para origens e fins, assim como o símbolo de tudo o que é estranho e difícil de entender, num texto que, tal como a enguia, é difícil de categorizar, pois oscila entre o autobiográfico e o texto científico, entre o fascínio pelo animal e a sua dissecação textual e física. A presença ou a ausência das enguias é equacionada com momentos determinantes da vida do autor, tornando-se signos e símbolos que, apesar de não contribuírem para a explicação científica da “questão da enguia”, certamente ilustram a relação entre as enguias e Svensson, entre o natural e o pessoal: depois do funeral do pai, Svensson vê uma enguia onde nenhuma outra tinha sido vista, num episódio que nos diz mais da tendência humana de encontrar símbolos do que da trajetória anormal de uma enguia aparentemente perdida.

O Evangelho das Enguias é um cuidado tratado que se lê avidamente e que alia a história natural a uma história pessoal sobre um animal marinho que intrigou cientistas que dedicaram a sua vida a cortar os seus corpos viscosos ou a navegar mares atrás da sua origem e deslumbrou escritores como Boris Vian e Gunther Grass, que lhes dedicaram grande atenção nas suas narrativas. Ao mesmo tempo, é um tratado sobre as mesmas dúvidas e incertezas do que é ser-se humano, de como nos relacionamos quando confrontados com um ser que não corresponde a nada do que conhecemos, e de como, ao olhar para os animais, olhamos para nós mesmos.
Mais do que tudo, a enguia é um reflexo da ansiedade em explicar e provar a existência e o funcionamento de algo, sentimento completamente humano que Svensson projectou neste estranho e mítico ser como justificação para pensar a curiosidade humana pelo mundo animal e pelo seu domínio, de forma literal através da domesticação e do seu consumo em massa, e de forma figurativa, através da ciência e da explicação de como tudo funciona. E se em vez de tentar descobrir o que a enguia é, apenas aceitarmos que, em diferentes momentos da sua longa vida, a enguia é várias coisas, e que o seu corpo se adapta de acordo com o que o seu ambiente lhe exige, poderemos certamente entender como também os nossos corpos se adaptam e mudam, e de como esses mesmos corpos, todos eles animais, se apresentam em múltiplas formas e configurações naturais, fugindo por vezes ao conhecido, ao familiar e ao expectável.
Ao olhar a enguia, podemos entender como destruímos em nome da descoberta, como comemos animais em nome da tradição, como dependemos vastamente de animais que, tal como a enguia, continuariam a nascer e a morrer no Mar dos Sargaços sem que perturbássemos irreversivelmente o seu curso.

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