home Antologia, LITERATURA O fim do fim da terra – Jonathan Franzen (D. Quixote, 2018)

O fim do fim da terra – Jonathan Franzen (D. Quixote, 2018)

O fim do fim da terra (D. Quixote, 2018) é um conjunto de ensaios escritos maioritariamente nos últimos cinco anos por Jonathan Franzen, autor de obras como “The Corrections” (2001), “Freedom” (2010) ou “Purity” (2015). A caleidoscopia de temas pode a priori parecer atabalhoada, já que o autor reuniu ensaios sobre o relacionamento com o tio, episódios da sua juventude, a instrumentalização das redes sociais e o papel que têm no delinear de direcções políticas, o 11 de Setembro e, não de somenos, observação de aves, tema sobre o qual Franzen se mostra particularmente obcecado. Aliás, o tema dos pássaros perpassa de tal forma a obra que excertos destes são possíveis: “Sob a ditadura marxista de Enver Hoxha, que durou quarenta e dois anos, a Albânia foi um estado policial excecionalmente repressivo, com uma paisagem pontuada por milhares de guaritas de betão em forma de cogumelo viradas para as impenetráveis fronteiras do país. O totalitarismo destruiu o tecido da sociedade e tradição albanesas, mas para as aves não foi um período mau.” (p. 99).

O primeiro texto do compêndio de ensaios refere-se precisamente à crise do ensaio, “O ensaio em tempos negros”. É lá que Franzen analisa o papel das redes sociais enquanto forma de reprodução do vazio ao invés do juízo crítico: “O jornalismo tradicionalmente rigoroso, em lugares como The New York Times, amoleceu e passou a permitir que o Eu, com a sua voz, as suas opiniões e impressões, ganhasse a ribalta das primeiras páginas, e os críticos literários sentem-se cada vez menos obrigados a analisar os livros com qualquer espécie de objetividade” (p.13).

Esta ideia é relevante, já que Franzen, norte-americano focado na premência da actualidade política, nos efeitos de Trump no mundo e nos das redes sociais em Trump, ou seja, em diálogo com o presente, discorre sobre as armadilhas das redes sociais, a forma como a democratização da publicação também significa a ausência de um filtro que responda pelo conteúdo, e portanto significa também desresponsabilização. Nesse sentido, considera o Twitter o “meio de comunicação mais irresponsável” e explica o seu papel na eleição do actual presidente dos Estados Unidos. De acordo com o autor norte-americano, foram as redes sociais aquilo que permitiu a Trump “contornar a comunidade dos críticos encartados”. Daí a sua conclusão: “Isto resulta daquilo: sem o Twitter e o Facebook não haveria Trump.”

Após as eleições, Zuckerberg pareceu assumir a responsabilidade da criação de uma platarforma ideal para a proliferação de notícias falsas e até assumir que o Facebook poderia começar a filtrar mais as notícias. Contudo, o Twitter, esse “meio de comunicação mais irresponsável”, nada disse. E Trump continuou a twittar fervorosamente, a eleger essa plataforma como a primordial para a sua comunicação com os cidadãos.

Numa altura em que o assunto das fake news começa a chegar a Portugal e dias após Paulo Pena, jornalista do DN, ter desmascarado o site Direita Política, empenhado em proliferar mentiras sobre quem estivesse em desacordo com o seu mentor João Pedro Rosas Fernandes, o primeiro ensaio de Franzen será, do conjunto publicado, o que mais terá a dizer e o que nos falará mais directamente.

Mais recensões/crítica literária AQUI.

(Texto publicado em esquerda.net)

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