home Antologia, LITERATURA O Físico Prodigioso – Jorge de Sena (Livros do Brasil, 2020)

O Físico Prodigioso – Jorge de Sena (Livros do Brasil, 2020)

Como lhe sucedia com frequência, é o próprio Jorge de Sena quem melhor explica o seu projecto de artista e pensador dos fenómenos literários – aspectos inseparáveis, neste autor. O Físico Prodigioso é, então, nas suas palavras, um «conto, ou, mais exactamente, novela», que consiste no «desenvolvimento muito ampliado e, se quiserem, muito deturpado de dois “exemplos” do Orto do Esposo, o belo livro moralístico-religioso da primeira metade do século XV». É desses modelos tardo-medievais que J. de Sena extrai, funde – e confunde – dois relatos distintos, os quais desaguam numa das narrativas mais admiravelmente inventivas e solidamente urdidas da literatura portuguesa que nos é mais próxima no tempo, sem chegar a ser nossa contemporânea. É dessas ficções quatrocentistas, a que relata a história do «homem com poderes mágicos de cura com o seu sangue e de ressurreição dos mortos» e a do «homem que não pôde ser enforcado, porque o Diabo o protegia levantando-o no ar», que o escritor arrancou a matéria-prima para o seu trabalho. E não custa nada, pese embora a previsibilidade, chamar-lhe prodigioso. Como explica Sena, no mesmo lugar, o seu posfácio – repleto do brilhantismo que sempre o caracterizou –, os dois contos de Quatrocentos «nada têm que ver um com o outro» (p.115), e surgem mesmo em lugares bem distintos daquela antiga recolha que Jorge de Sena aviventou nesta novela, pois disso parece, aqui, tratar-se.
Noutro ponto dos seus paratextos, Jorge de Sena considera a figura central do Físico Prodigioso, a personagem homónima, não só um «símbolo da liberdade e do amor» (p.5), mas o que não deixa de ser extremamente curioso, «meu muito bem amado filho entre outros, e que sempre tive por como que um “alter ego”» (p.6). Só por estas palavras do seu autor se poderia perceber como este livro ocupava um lugar importante no conjunto vasto e multímodo da produção seniana. De tal forma que se autonomizou da obra onde, originalmente, veio a público, Novas Andanças do Demónio (1966). Frequentemente reeditado, enquanto parte do conjunto Antigas e Novas Andanças do Diabo (1978), ou de forma autónoma, O Físico Prodigioso é, felizmente, uma presença habitual nos catálogos nacionais. Mas nunca é de mais relembrar a importância de – e o gozo que permite – reeditar esta obra-prima da ficção portuguesa. Como lembra, ainda, Jorge de Sena, a individualização de O Físico Prodigioso, em relação ao volume original em que se encontrava, primeiramente, libertava-o para que ele pudesse «andar sozinho nas mãos dos leitores, como sucedeu com o ilustre Malhadinhas de Aquilino Ribeiro, saído também das páginas do livro de contos em que primeiro aparecera» (p.6). Uma comparação, ou, melhor, uma aproximação que diz bem da conta em que Sena tinha o mestre de A Casa Grande de Romarigães, e talvez, entre Malhadinhas e O Físico Prodigioso, afinal as semelhanças não se limitem a esse aspecto da história editorial.
Na sua primeira aparição diante dos leitores, o Físico surge descrito num «erecto corpo» (p.15). Uma notação que, na sua justeza descritiva, abre, desde logo, o caminho para a pulsão, clara e vincadamente, erótica que percorre todo o texto – «ele, cujo corpo era todo uma tensão que estourava» (p.39) Não muito mais tarde junta-se-lhe um apontamento paisagístico em que se dá conta da «chapa metálica e estreita de um rio» (p.15). São dois simples trechos, mas, cada um deles, a seu modo, é capaz de servir de eloquente exemplificação dos poderes de Jorge de Sena. Há uma corajosa assunção da temática erótica e sexual em todo O Físico Prodigioso, que nele se torna uma pulsão fundamental e dotada de uma variedade de matizes, dados por uma sexualidade pan-erótica, de que o autor impregna toda a novela, numa bravia afronta às normas e mesmo aos convénios literários seus contenporâneos. Em toda a novela convivem esses dois impulsos: o culto inteligente e artisticamente consumado do real e o tratamento empenhado e magnífico do corpo e do erótico. Não fica, certamente, perdida a ambiguidade contida no título de O Físico Prodigioso; alguém, por exemplo, descreverá, na personagem do Físico, um «corpo maravilhoso» (p.41). A manifestação destas duas dominantes faz-se sentir nos precisos e preciosos quadros naturais em que Jorge de Sena se mostra exímio – «reflexos alaranjados que se esverdinhavam flutuentemente» (p.16) –, não num simples anotar de pintor, ou copista, mas numa suplantação do simplismo que nunca deixa de ter em conta a fidelidade (título de um dos seus livros de poesia) ao real; e para tanto basta ficar menos desatento àquele advérbio que faz, porventura, toda a diferença. Mas também no extremo rigor, e no apetecível desvelo com que o autor se embrenha na terra incógnita da sexualidade – «um precipitado redemoinho que o envolvia, com regougos ciciados» (p.21). Esse território nunca é o lugar do óbvio, nem do precipitado. Nunca o poderia ser, quando a escrita é tradução empolgada do mistério do corpo, das antecâmaras do conhecimento da sensualidade, quando tudo é uma suspeita empolgante, e o texto denuncia esse estado de sítio.
Apesar do enquadramento temático e temporal – a Idade Média e um ambiente dominado pelo poder da magia, o ocultismo –, Jorge de Sena recusa-se a obedecer cegamente aos moldes históricos e de género literário. Um castelo, por exemplo, é descrito, sem quaisquer contemplações, no seu «aspecto de fábrica nova» (p.27). É desse modo que o paralelo elaborado por Jorge de Sena entre as falas de uma personagem e «o que ele [Físico] ouvia dentro de si» (p.55), na disposição da própria página, é, sem dúvida, uma estratégia narrativa, mas também uma formulação gráfica e discursiva capaz de emular o imaginário livresco da Idade Média. Porque, embora ultrapasse os limites de uma reprodução simplista do período medievo, Jorge de Sena, profundo conhecedor da História, cimenta em sólidas bases a sua reformulação daquele tempo. Se relermos um passo como este: «E, na verdade, não havia ali um único homem senão ele. Saíram as portas, passaram a ponte levadiça, e foram avançando a passo para o rio.» (p.47), bem perceberemos a técnica de mimetizar, «deturpando», para pegar na fórmula do próprio Sena, a linguagem medieval, porque não deixa de estar presente a ponte levadiça, nem a construção «passar a ponte» (em vez de «na ponte»), que se entretecem, como elementos invisíveis de uma recriação hábil, mas, felizmente, imperceptível. E a novela é bem um relato que singulariza uma problemática especificamente medieval – «E bruxo é o que tu és. Já foste julgado e condenado por isso mesmo.» (p.51); «eu não tenho medo, porque o nome que me deram não é o meu» (p.44). Como o próprio Sena anuncia, trata-se de um relato de magias e prodígios, de mistérios e maquinações, de poderes ocultos e de outros bem terrenos, como os que pretendem condenar o mago do prodígio. Neste protagonista, o narcísico confina com o diabólico – «E eu também sei que te contemplavas muito, que a única imagem que te sorria era a tua própria» (p.42); «Para os espelhos nunca era invisível e, diante dos espelhos, achava-se belo e triste» (p.38). O Diabo, com quem o Físico tem comércio – entenda-se tal palavra em toda a sua extensão, e intenção –, é um dos nós deste prodigioso achado da narrativa portuguesa. Leia-se e se verá.
O Físico Prodigioso é uma novela de amor e de prodígios. Nesse, como, decerto, noutros pontos, a novela lança pontes para a poesia de Jorge de Sena. Momentos como estes, por exemplo – «E ele e Dona Urraca, lado a lado no leito, nem no amor que os enchia e em que não cessaram de transfundir-se haviam conquistado a paz e o repouso, para dormirem da momentânea saciedade, nos braços um do outro.» (p.61); «a saciedade só se ganha na saciedade do amado» (p.60) –, podem lembrar-nos versos de As Evidências (1955) – «Amo-te muito, meu amor, e tanto/ que, ao ter-te, amo-te mais, e mais ainda/ depois de ter-te, meu amor. Não finda/ com o próprio amor o amor do teu encanto.» (in Poesia 1, org. Jorge Fazenda Lourenço, Guimarães, 2013). Porque O Físico Prodigioso é peça integrante de um todo harmónico e dinâmico – a obra de Jorge de Sena é esse complexo de criações e reinvestimentos, operados por um escritor prodigioso.

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