home Antologia, LITERATURA O Pintor de Almas – Ildefonso Falcones (Suma de Letras, 2020)

O Pintor de Almas – Ildefonso Falcones (Suma de Letras, 2020)

Uma abordagem inadvertida a este O Pintor de Almas, sobretudo se Ildefonso Falcones lhe for desconhecido, pode induzir em erro. Não estamos perante um romance superficial, de leitura rápida ou fácil, mas antes uma ode à histórica luta pelos direitos dos trabalhadores. Embora a escrita não encerre em si particular fascínio, o poder narrativo de Falcones é admirável. Sobre o pano de fundo duma Barcelona do início do século XX, em plena convulsão social, Falcones transporta-nos para uma história onde o determinismo é combatido com veemência, e o poder do indivíduo ante as suas condicionantes (o contexto socioeconómico ou a conjuntura política, neste caso concreto) assume uma clara preponderância.
A história começa com o incitamento a uma greve geral por parte das mulheres dos operários, descrevendo com minúcia o seu papel absolutamente fundamental. Uma das personagens principais da narrativa, Emma, é símbolo da luta feminista num tempo onde tal ainda não existia (onde as mulheres nem sequer tinham ainda o direito ao sufrágio!) e uma das personagens mais fascinantes da narrativa. Ostracizada pela comunidade em diferentes momentos, sempre por motivos de cariz sexual, evolui para se tornar um dos rostos absolutamente determinantes no movimento revolucionário, demonstrando assim um papel histórico das mulheres que nem sempre tem o relevo que merece.
É aqui que conhecemos outra personagem principal deste livro, Dalmau Sala, o pintor que lhe dá o título. Filho e irmão de anarquistas assumidos (cujas acções penosas consequências trarão ao fluxo da narrativa) e noivo de Emma, a melhor amiga e companheira de armas da sua irmã Montserrat. Também ele com forte pendor simbólico, é o rosto para as diferentes formas que a resistência (ao conformismo perante o que julgamos poderes inconfrontáveis, ao fluxo tenaz das adversidades, à mais elementar injustiça) pode assumir ao longo da existência de um só indivíduo. É em Dalmau que reside a força do livre arbítrio perante o jugo do destino, numa narrativa plena reviravoltas surpreendentes.
Com a prisão da sua irmã Montserrat começa a desvelar-se o fio do enredo. Cedo estes amantes – Dalmau e Ema – são afastados, e a partir daí Falcones opta por fazer decorrer a acção sempre em paralelo, justapondo as existências de Dalmau e Emma até se voltarem a cruzar. Impossível não ser indelevelmente atraído pela descrição do poder da Igreja na subjugação da massa proletária, ou a profunda desigualdade que separa esta da burguesia barcelonesa. A injustiça é mote transversal, à medida que assistimos à forma como a vida maltrata personagens que se torna impossível não acarinhar.
De destacar o brilhante trabalho do autor ao nível do tratamento das personagens, que, como já afloramos, converte em símbolos. Além das duas personagens principais, destacamos Josefa, mãe de Dalmau, costureira remediada e rosto do estoicismo com que Falcones caracteriza a massa proletária: jornas de trabalho intermináveis a troco de um salário longe de garantir a básica subsistência, uma vida pautada pela incerteza do amanhã e pelas perdas dos que lhe são queridos, demonstrando como a indigência está sempre (ainda hoje) aqui tão perto, escondida nas esquinas dos infortúnios do caminho.

No extremo oposto temos Don Manuel Bello, patrono do nosso pintor e a cara da facção mais religiosa e conservadora da elite barcelonesa, permeável aos vícios que decorrem da ostentação da riqueza (disfarçada por uma caridade que se revela como simples exercício de poder sobre os menos afortunados). Uma personagem que pontua a narrativa de forma discreta, mas absolutamente essencial, é Marvillas, uma criança de rua que nada tem de menina, e que assume um papel decisivo no decorrer da acção. É nela que está guardado o gatilho para todos os acontecimentos inesperados e só no final logramos compreender melhor o que move alguém votado à absoluta marginalidade.
Neste livro encontramos um trabalho de historiador, que relata e explica os contornos daquilo que hoje sabemos ser o começo das lutas anarquistas e comunistas, numa Barcelona que mais tarde se revelou ao Mundo como epicentro da luta proletária. Mas também um trabalho de sociólogo, ao explorar temas fracturantes na sociedade e ainda hoje pertinentes, como a igualdade de género e as consequências da violência sexual, a toxicodependência e a sua recuperação, a falácia do emprego como trabalho, entre tantos outros. Falcones consegue-o oferecendo ainda um ensaio belíssimo acerca do Modernismo enquanto movimento estético, com descrições arquitectónicas duma beleza extraordinária.
Este livro transporta consigo, por tudo isto, um trabalho verdadeiramente notável: uma investigação histórica aprofundada e factualmente impoluta, um poder narrativo incrivelmente surpreendente e um desenvolvimento das personagens reservado a muito poucos. Uma leitura imperdível, para aqueles que não receiam enfrentar a História como forma actuante de ver o presente.

Mais livros AQUI

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *