home Antologia, LITERATURA O Poço e a Estrada – Isabel Rio Novo (Contraponto, 2019)

O Poço e a Estrada – Isabel Rio Novo (Contraponto, 2019)

Não deixarei muitos rastos pessoais.
Apenas e sobretudo a grande coerência de uma vida romanesca,
repleta de situações insólitas, onde coexiste a grande inocente e
a grande sedutora que de facto sou.

Agustina Bessa-Luís, JL 29-09-1986

Detesto biografias. Não deve haver género que produza mais lixo por ano. As biografias são redutoras, esquemáticas, ilustrativas, apressadas. Não se mete uma vida real em 500 páginas. E as exceções são tão poucas que só fechando muito bem os olhos me lembro de alguma. Aliás, mais, com exceção dos tormentos de um bom exame de Direito Fiscal, o que experimento, sempre que pouso as mãos em alguma, não tem paralelo. E suspeito que a Agustina, que escreveu duas ou três, também não goste muito delas. Nunca concluiu a sua. Disse ter começado, ter escrito uma página e ter imediatamente desistido. E ainda aproveitou para deixar escrito que não gostava nada de História “arrumada em arquivosi.

Por isso, só podia ter sido em susto que recebi a comunicação de um ambicioso projeto de uma coleção de biografias da Contraponto que, além desta, incluirá, entre outros, José Cardoso Pires, Natália Correia e Herberto Helder – embora esta última, prometida pelo João Pedro George, por presciência de falta de mimos, tenha desde já todo o meu incondicional interesse.

Sobre este O Poço e a Estrada, de Isabel Rio Novo, é essencial começar por dizer que a autora não conseguiu conversar com a filha, netos ou bisnetos da biografada e que lhe foi negado o acesso às cartas escritas por Agustina à mãe Laura, nas quais, segundo o testemunho de Mónica Baldaque, Agustina se “expõe e desdobra em confidênciasii. A sorte grande caberá a um Rui Ramos “equipado” pela Relógio D´Água (logo veremos se, também, por garrafas de água “beatificadoras”). Mas pelo confronto entre as declarações de Rio Novo, Rui Couceiro (editor) e Mónica Baldaque, este livro não foi feito à revelia da família, ainda que se ressinta da interdição a documentação privada, e um portfolio fotográfico original. Não são, porém, completamente más notícias se tiverem a paciência de continuar a seguir, sem tropeçar.

O trabalho de Isabel Rio Novo teve que partir da leitura da obra, entrevistas, ensaios e correspondência publicada, tendo o mérito de, a partir desse material, exarar factos com grande desenvoltura narrativa e clara exposição, estabelecer genealogias, tensões familiares, posições políticas e outras curiosidades, como o ódio de estimação por Natália Correia ou as amizades eletivas com Sophia de Mello Breyner Andresen e Maria Helena Vieira da Silva. E é só por isso que esta biografia não podia nem ser a definitiva nem a mais esperada.

Nas cartas (negadas) de Agustina à mãe, pode estar a chave de algum cofre ainda não aberto, mas este constrangimento levou Rio Novo a trabalhar sobre aquilo que Agustina descreveu no seu Caderno de Significados, “os episódios mais significativos da nossa vida não são quase nunca confessáveis”iii e escolher progredir no conhecimento da vida da biografada por quase todos os seus livros. Sabe-se, mas Rio Novo faz essa identificação com muito interesse e labor, que os livros da autora d´ A Sibila ficcionalizam matéria factual e introduzem conteúdos autobiográficos que ou incorporam nas personagens determinados traços da autora ou de pessoas que lhe são próximas. Aqui evidencia-se isso mesmo muito bem.

Isabel Rio Novo encontra o grande patriarca do ramo paterno, o avô José Teixeira, “no romance A Sibila (…) na figura do pai de Quina, o sedutor e fraco Francisco Teixeira” (p.25), cuja personagem principal lhe parece ter inspiração na mãe, Amélia – sempre perspetivada por Agustina sob uma certa “dureza”. E encontra o pai, Artur, em Albano, no romance Os Quatro Rios, individuo com uma vida agitada e “com duelos de bandos e paixões de mulatas de candomblé” (p. 27). No lado materno, aproveitando-se da sua veia de historiadora, devolve “simpatias” a Mónica Baldaque escrevendo que sobre o avô de Agustina, Lourenço Guedes Ferreira, não encontrou indícios que fosse formado em engenharia “como Mónica Baldaque, por várias vezes, refere” (p. 30). Encontra ainda inspiração para a personagem Alberto Cales, n´Os Incuráveis e a avó Lourença, na “serena e reservada” Petronila” (p. 30).

A infância de Agustina parece-lhe estar bem descrita em Memórias Laurentinas, sentindo muito da Agustina em Maria que “vivia como um prisioneiro num forte: sonhando evadir-se” (p. 55), mas também no romance As Pessoas Felizes, pois tal como Nel, “parecia estar condenada a viver na sombra (…) mas pelo seu temperamento ou pela sua inteligência [não seria] uma criança capaz de se remeter a um papel secundário. E isso parecia irritar ainda mais a mãe“ (p.55); e como Maria, de Memórias Laurentinas, uma vez adolescente, Agustina devorava “os livros que encontrava, a todo o vapor” o que necessariamente evoluiu para a criação na escrita. Na narrativa muito autobiográfica, Vento, Areia e Amoras Bravas, também lhe parece que Lourença descobre essa necessidade: “percebeu de repente que era uma escritora. Ficou um bocado surpreendida e por um tempo escondeu-se para escrever. Não queria que se rissem dela. Era a única coisa que ela não perdoava, se se rissem disso. Mas ninguém achou graça; até olharam para ela como se finalmente a entendessem e estivesse tudo explicado. Então, era isso que Lourença queria: escrever.”

Da impossibilidade de consultar correspondência privada, Isabel Rio Novo entrevistou muita gente e traz algumas novidades. Por exemplo, que o romance entre Francisco Sá Carneiro e Snu esteve na génese da sua inimizade com Natália Correia. É Fernando Dacosta que confidencia à biógrafa uma conversa que teve com Agustina, onde esta lhe terá contado que teve um papel importante no divórcio e que Isabel Sá Carneiro ia aceitá-lo dois dias antes do acidente fatídico depois de “conversarmos muito” (p. 226). Sá Carneiro, a acreditar ainda em Dacosta e na sua conversa com Agustina, não era tido em grande conta por Agustina que o achava fraco homem e fraco líder. “A única coisa que ficou de tudo isto foi a pensão que a Isabel passou a receber como viúva de primeiro-ministro” (p. 226). Aguente quem poder as obstinadas antipatias e ressentimentos sempre seguros da escritora.

Muitos outros aspetos e momentos da vida de Agustina são analisados, mas um episódio ressoa de uma forma completamente diferente do que é habitual ouvir: o duelo com o crítico d´O Primeiro de Janeiro, Jaime Brasil, um episódio que tem aqui ecos extremamente dolorosos. Jaime Brasil criticou implacavelmente o segundo romance de Agustina, Os Super-Homens (1950), em particular pela “imoralidade e a indecência do romance”. O crítico chegou ao ponto de afirmar que uma senhora nunca escreveria aquilo e até a comparou, em modos muitos violentos, a uma cabra com cio. A linguagem sexista, hoje completamente inaceitável, motivou forte troca de opúsculos, folhetos e correspondência “feinha”, quase provocando em Agustina, segundo Rio Novo, vontade de desistir: “sinto-me só e sem exemplo que me ajude a acreditar em mim” (p. 177)

O volume inclui um índice onomástico bastante útil para seguir diretamente para outras histórias e personagens e oitenta páginas de preciosas notas remissivas, mas não teria sido despiciendo a inclusão de uma cronologia (até porque a estrutura do livro obedece a um arco narrativo que é globalmente cronológico) e de uma bibliografia (para evitar a wikipedia). Os processos de identificação da biografada e da biógrafa – que foram uma opção consciente de Rio Novo – é que parecem fracamente excessivos de considerações subjetivas e presunções que não interessarão tanto ao leitor da vida e obra de Agustina Bessa-Luís. Julgue-se, entre outros: “Respirei Agustina; digo-o sem medo e sem rebuços” (p. 20), “digamos que não me foi difícil compreender Agustina. Também eu, na minha pequena infância, cresci longe de outras crianças, recolhida por longos períodos numa aldeia minhota” (p. 50), «[tive] a impressão de seguir Agustina e de conhecer a paisagem com que conviveu» (p. 109), “nesse dia, vencendo a timidez, pude acercar-me de Agustina e estender-lhe um exemplar da minha novela de estreia. Agustina agradeceu o livrinho. Não sei se chegou a folheá-lo” (p.368). O que seria de evitar, e de todo, são as desnecessárias “citações involuntárias” nas páginas 20 e 388 de partes muito idênticas a passagens que se encontram em Alexandre O’Neill: Uma Biografia Literária (2007).1 Porém, o trabalho extenso, dedicado, exaustivo e os constrangimentos da “investigação” obrigam-nos à seriedade de reconhecer mérito a um livro que já era urgente, muito urgente.

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1 Foi Mário Santos, na entrevista de Rio Novo, ao Público, em 31.03.2019 quem as identificou em entrevista à autora. Link: https://www.publico.pt/2019/03/31/culturaipsilon/entrevista/isabel-rio-novouma-biografia-nao-termina-1866696

i “Não sei porque se dá mais crédito à História arrumada em arquivos (…) a inspiração anda mais perto da verdade do que o conceito problemático da biografia, que é sempre cautelosa porque julga tratar de factos que a todos unem e interessam; e que acabam por ser, por isso, mais políticos do relações de tempo entre homens.” (Adivinhas de Pedro e Inês, Lisboa Guimarães Editores, 1983, p. 132).

ii JL, 15 a 28-03-2017, p.12, Mónica Baldaque em entrevista a Maria João Nunes, “Uma Jóia de família”.

iii Caderno de Significados, Lisboa, Guimarães Editores, 2013, p. 87

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Por defeito profissional, o Paulo Alves escreve de acordo com o novo desacordo ortográfico.

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