home Antologia, LITERATURA O Sol na Cabeça – Recensão e entrevista a Geovani Martins

O Sol na Cabeça – Recensão e entrevista a Geovani Martins

Paulista de nascimento, cidadão do Mundo graças à paixão da sua vida – a literatura – Geovani Martins conseguiu em O Sol na Cabeça (Companhia das Letras, 2019) a proeza de chegar ao público mais literato mas também ao que nunca pegou num livro, usando a gíria brasileira sem preocupação alguma de tradução. O resultado é uma escrita urgente, breve e solta, adaptada aos cenários urbanos onde decorre a acção e aos personagens que nela se movem e protagonizam a maioria dos seus contos: jovens, complexos e frágeis em toda a sua imaturidade, em construção e conscientes de si.
Em cada conto encontramos muitas conversas, mas sempre personagens marcantes, uma ideia que identifica a história e evolui, uma estrutura compacta, um desejo, uma acção ou a sua consequência. Entre trechos narrativos, frases esparsas e inesperadas convidam a parar e reler, para saborear como uma cerveja gelada no Verão. Os exemplos abundam. “- Nessa época do ano todo o mundo fica exagerado. Uns no estresse, no amor, na ansiedade, na culpa, na busca pela liberdade. Ficamos mais vulneráveis a nós mesmos, essa é a verdade. O Juan está se entregando, dropando as ondas desse fim de ano. Porque essa época sempre nos ataca como o fim. E o fim do mundo ou os dá vontade de viver a vida até que tudo exploda e depois venha a calma do vazio ou nos deixa decepcionados por saber que terminaremos incompletos. É por isso que em dezembro devemos ser fortes.”(68) ou “Sorri da precisão que tive prevendo aquelas palavras. Essas conversas repetidas às vezes me enchiam o saco, por fazerem parecer que estávamos sempre repetindo os dias. Mas algumas vezes eu me envolvia, e conseguia sentir todo o prazer contido nas conversas decoradas.” (90) e por fim, porque caso contrário ficamos nisto o texto todo: “Até cairmos no silêncio absoluto. /Eu nunca entendi esse momento. (…) É sempre como se alguma coisa estivesse rompendo. De um momento para o outro tudo se desfaz, tudo desaba, e ficamos sozinhos frente ao abismo que é a outra pessoa. Daí vem uma vontade de falar não sei o quê, só pra tentar reunir uns pedaços da gente, meia dúzia de restos espalhados pelo mistério que é a convivência.” (91, 92)
É deste misto de coloquialidade e escrita detalhada e plena de trabalho criativo que vive este livro de estreia, anunciando uma voz literária em português que ainda nos vai trazer muita felicidade. Ainda um pouco preso ao aspecto formal da escrita, limpa e clara demais para as pessoas e situações que a povoam, vislumbra-se uma capacidade incomum para densificar a ficção aparentemente mais inócua, criando situações marcantes e variando estilos, para um todo que supera o estereótipo da literatura de mero retrato sociológico distanciado ou meramente panfletária e ideológica.

Entrevistamos Geovani Martins na sua mais recente passagem por Portugal e aqui transcrevemos essa conversa, editada para melhor leitura.

Revista Intro: De onde nasce a sua necessidade de escrever?
Geovani: Na verdade, eu sempre escrevi desde criança, com 7 ou 8 anos. Gostava de ler e comecei a copiar as coisas que escrevia mas tive uma mudança muito grande aos 11 anos. Mudei-me do bairro onde nasci, em Bangu [zona oeste do Rio de Janeiro] para o Vidigal, na zona sul do Rio, um universo completamente diferente. A dificuldade de socialização foi enorme, demorei a fazer novas amizades, e foi um período em que comecei a ler e escrever ainda mais, porque ficava mais tempo em casa. Depois com os amigos, comecei a fazer letras de músicas para eles e mais tarde descobri as crónicas, que publicava num blogue. A escrita acompanha-me a vida inteira, mas esta mudança foi o meu primeiro de necessidade dela, para me ajudar a lidar com este processo e depois surgiu a necessidade financeira. Deixei a escola muito cedo, na 8ª série [9º ano], não tinha profissão e aproximava-se a vida adulta e não tinha o que fazer. Fiz o que sempre fiz, escrever. Decidi que era o que queria fazer o resto da vida e precisava de me dedicar se que fazer isto profissionalmente. À primeira necessidade face à solidão e necessidade de ressocialização, juntou-se a necessidade de um trabalho. A única coisa que tinha feito a vida inteira e sabia que fazia bem era escrever.

Revista Intro: A distância social e física entre o bairro e o resto da cidade do Rio paira sobre todo o livro. Houve algum momento “eureka” em que sentiu ter descoberto o seu lugar no Mundo? Como se reflectiu isso na sua escrita?
Geovani: Essa mudança que referi para o Vidigal. São lugares que vivem numa fricção social muito forte, em que havia uma diferença entre ricos e pobres. Isso saltou logo aos meus olhos e acredito que tenha tido uma sensibilidade maior para isso do que muitos amigos que ali fiz, porque, ao contrário deles, não cresci naquele contexto. Para eles, isso torna-se natural. Mas como eu já tinha 11 anos quando cheguei, o choque foi mais forte porque tinha algo para comparar. Era uma vida mais protegida. Todos eram muito pobres mas todos eram iguais. Eu era protegido de certas opressões e situações de constrangimento causadas por essa fricção. Descobrir tanta coisa nessa passagem da infância para a adolescência foi um grande choque. O meu olhar enquanto escritor e ser humano, cidadão da cidade do Rio de Janeiro passa muito por esse choque. Essas duas experiências acabam por influenciar todo o meu trabalho e o meu pensamento.

Revista Intro: Há uma frase que fecha o conto “Estação Padre Miguel” (o nosso favorito junto com Espiral) que nos leva para o processo e o desejo de escrever. “Vi meus amigos ganhando cada vez mais distância de mim, que perdia velocidade pensando: um dia ainda escrevo essa história”. Para ser escritor é preciso um afastamento dos outros? Ou tudo se manteve igual para si?
Geovani: Ser escritor é viver em constante afastamento dos outros, mas também viver mergulhado nos outros. Eu encaro o processo de escrita dessa forma. Se tu não consegues mergulhar nas necessidades e dramas alheios, no Outro de uma forma plena, para dar complexidade às personagens, não consegues escrever. Mas se não te distancias, também não consegues. São dois +processos muito distintos, mas o primeiro, o de mergulho no outro vem um pouco antes da produção do livro, quando se constrói a história e nos cercamos se sentimentos comuns ali em volta. O afastamento dá-se na prática, quando se vai fazer literatura com aquelas experiências. O escritor vive esses dois momentos muito distintos mas precisa de passar por eles, de mergulho absoluto nas outras pessoas e de retiro absoluto também. Eu nunca acho que estou a escrever sozinho. Tenho tanta gente na cabeça e uso frases de tantas pessoas que seria mentira se dissesse que acredito que escrevo sozinho. Mas, de alguma forma, escrevo completamente sozinho. Ninguém opina sobre o que estou a fazer, sobre aquela estrutura. Mas para chegar a esse ponto de estruturar todas essas sensações sentimentos e experiências, eu tive que estar com outras pessoas, de quem me sinto cercado. O meu processo passa por esses dois momentos: viver bastante e escrever depois.

Revista Intro: Quando escreve fá-lo com a intenção de poder mudar algo, mesmo politicamente, ou é só um retrato e depois o Mundo que gire?
Geovani: Quando escrevo penso em mudanças em várias esferas, mas não sou utópico de pensar que um livro pode mudar o Mundo, uma sociedade ou um sistema político. Mas muda muito em mim, e já é um primeiro passo. Se consigo mudar uma coisa no meu irmão ou no meu vizinho, já é algo grande para mim. Mas tento também o retrato de um tempo, de uma cidade. A literatura é algo completamente útil e inútil, dependendo do ponto de vista que é olhada. E isso é óptimo. Não precisamos de colocar esse peso todo numa arte. Eu gosto de escrever porque aprendi a olhar o Mundo através das histórias. Quando me conta uma história, começo a pensar em subtextos para ela. A forma como entendo o Mundo passa muito pela forma como me contam uma história, como leio livros, e de alguma forma, escrever é tentar explicar esse Mundo e escrevemos primeiro para tentarmos perceber e depois se alguém conseguir entender algo a partir disso, melhor. Mas o primeiro passo é tentar dar conta e processar toda essa informação, em grande quantidade e intensidade. Escrever passa por filtrar o que é recebido.

Revista Intro: O uso da gíria é uma questão de fidelidade à linguagem e lealdade para com as suas raízes, ou uma mera escolha estilística, para dar vivacidade e realismo ao texto?
Geovani: No fim de contas, as duas opções. A linguagem urbana interessa-me muito. Escrevi este livro [O Sol na Cabeça (Companhia das Letras, 2019)] a pensar no conceito de que a periferia está sempre em movimento. Não há possibilidade de definir o que é periferia ou centro porque, de novo, depende de onde se está a olhar. Hoje aqui em Lisboa sou periferia, porque não conheço este lugar, estou completamente perdido nessas ruas. Então não estou no centro desse universo, estou à margem. Mas se for ao Rio, a periferia vai ser você. Com isso em mente e principalmente porque as favelas do Rio, as favelas do sul estão muito juntas do centro cultural e económico da cidade e não faz sentido chamá-las periferia. Comecei a pensar muito em cada lugar e o seu próprio centro, depois fui para cada pessoa é o seu próprio centro, e cada modo de falar é o centro de linguagem de cada pessoa. Acabei por tentar misturar estas linguagens, porque temos uma forma de falar em casa, na rua, no trabalho, que vamos adaptando. Essa mistura, esses centros todos interessavam-me. Por exemplo, a Rocinha [maior favela do Brasil, situada na zona sul do Rio de Janeiro] recebe pessoas de todo o Brasil, obrigadas a conviver todo o tempo e elas influenciam-se linguisticamente e cria-se uma língua nova. Eu quis trazer a linguagem desses centros. O mesmo texto tem uma capacidade de identificação muito grande com quem fala essa linguagem e um poder de estranheza equiparável para as pessoas que não a falam. Essa ideia de alcançar dois públicos tão diferentes com mesmo texto agrada-me.

Revista Intro: As pessoas que falam essa linguagem chegam aos seus livros?
Geovani: Tem sido um livro muito lido nas favelas de todo o Rio, muito trabalhado nas escolas públicas, prisões e centros de detenção de menores. É um livro que conversa com essas personagens possíveis. Era uma preocupação que eu tinha e daí não explicar qualquer gíria. Quando se explica uma gíria está a dizer-se que [o livro] tem um público específico que não a entende e eu não queria ser essa pessoa que pagava em algo e levava para outro lugar para mostrar. Queria ser lido por qualquer um e a verdade é que quando nos deparamos com uma palavra estranha num livro vamos procurar e se não há interesse, deixa-se o livro, sem problema. Fico feliz de ser um livro que alcança um público que em geral é considerado não-leitor e, ao mesmo tempo, outro público que interage com a cena literária do Brasil e se interessa por questões de estética da linguagem. A maior parte das vezes trabalho dentro do realismo e pensar numa linguagem realista é pensar na linguagem que eu ouço no dia-a-dia, mas ao mesmo tempo, é literatura. Não escrevo da mesma forma como falo, mas dou-me a liberdade de misturar linguagens e essa mistura é o elemento mais poderoso do livro. Vai para os extremos, mas na maior parte do tempo, isso está completamente disseminado.•

Revista Intro: Os seus protagonistas são muito conscientes de si, sempre com o narrador a descrever os seus actos e pensamentos ao detalhe. Entre pensamento e acção, qual é a literatura que o atrai mais e porquê?
Geovani: Gosto muito da literatura de acção, não sei bem porquê. Talvez pelo movimento. Mas na literatura que acontece dentro do pensamento encontram-se obras incríveis. A verdade é que tento misturá-las. Por exemplo, na experiência de quase-morte, são activadas sinapses que geram sentimentos únicos daquela experiência. E eu gosto de brincar com isso. Quase morte implica sempre uma acção, seja um autocarro que te vai atropelar ou alguém que vai disparar, mas há ali uma acção física e dentro dela há uma série de pensamentos próprios daquele momento. Gosto dos dois tipos de literatura mas tendo a preferir os que têm movimento físico e espacial.

Revista Intro: Um desafio: qual o livro que tem inveja de não ter escrito e porquê?
Geovani: “O Amor nos Tempos de Cólera”. Não me atrevo a dizer “Cem Anos de Solidão” porque não tenho tantas pretensões na vida, mas O Amor… gostaria muito de ter escrito, Gostava de ter escrito as Memórias de Brás Cubas CONFORMAR na sociedade brasileira de hoje (risos).

Revista Intro: Alguma data prevista para o lançamento do filme? Quando temos novo livro?
Geovani: Para o lançamento não. Há uma data para inicio trabalho produção – entre Março e Abril de 2020 – e o filme deve sair no inicio de 2021. Mas isso pode ser alterado a qualquer momento. Tenho um romance muito bem encaminhado quanto à estrutura e acontecimentos principais e o que quero dizer com ele, mas escrevi muito pouco porque O Sol na Cabeça teve uma vida muito longa no Brasil. Já foi lançado há mais de um ano e meio e continuam a convidar-me para eventos. Além disso, começa a ter uma vida na Europa. Já viajei por vários países e fui aos EUA, e este ano não consegui dedicar muito tempo ao livro. Estas viagens para a Europa são as últimas e depois começo a trabalhar no livro novo em 2020. Foi algo que foi necessário fazer com este livro que fala tanto com os jovens do Brasil e por isso sou tão chamado para as escolas. Fecho este ciclo muito feliz com a resposta de público e crítica que o livro teve e agora começa o trabalho no livro que pretendo entregar no final de 2020.

Recensão e perguntas de Paulo Ribeiro da Silva e entrevista realizada por Joana Aroso,

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