home Antologia, LITERATURA O teu rosto amanhã II – Javier Marías (Alfaguara, 2018)

O teu rosto amanhã II – Javier Marías (Alfaguara, 2018)

Javier Marías leva-nos ao limite, à fronteira do impossível. Ao momento em que cessa a história, porque já não é a história que se conta, e começa outra, as outras, todas as histórias, todas as reminiscências, remissões, leituras, pensamentos, vergonhas, segredos, banalidades, em suma, a massa de que todos somos feitos. Põe-nos a nu com uma crueza ímpar e não sem uma dose, imaginamos, de alguma sobranceria. A elevação própria de quem sabe o que está por detrás de cada gesto, de cada mente, de cada esqueleto. Só assim se concebe esta obra, em que ao cabo de tantas páginas devoradas, nos perguntamos o que se passou. Que avanço houve nesta narrativa? Qual a importância de um sapato manchado de vermelho e não de sangue? Que força reside na palavra sangue ou em toda e qualquer palavra? A escolha intencional de cada termo, porque o relato tudo torna real, muito diz, afinal, sobre nós e cada personagem aqui construído. «(…) o que menos importa é que as coisas sejam ou não sejam de facto, porque sempre se poderão contar (…)»

Pouco ou nada sabemos das personagens, porque só Deza se vai revelando. Nele vamos percebendo, ou ao menos reconhecendo, traços de humanidade, da dita normalidade: o casamento desfeito, as memórias do pai, as divagações sobre Luísa, as suspeitas, as inquirições. Toda a narrativa de Marías é feita de camadas, subcamadas, finas lâminas. Entre a busca pelo pateta do Garza no lavabo das senhoras, à violência no impecavelmente asseado lavabo dos deficientes, discorre-se sobre a necessidade da existência de Deus ou de uma consciência, um omnipresente espectador, uma ilusão narcisista, alguém perante quem actuamos ou relatamos os nossos actos.

É impossível criticar Javier Marías, porque nele não existem intervalos ou espaço onde caibam palavras de mais ninguém. Não há mais detalhes do que os que ficam ditos e do que diz a propósito dos que conta. E se o leitor se vai sobressaltando entre parágrafos à procura de um enredo, desengane-se, porque provavelmente desistirá deste autor. É único no seu estilo, tão acessível quanto intangível, tão cru e frio quanto terno e arraigado aos valores morais, neste caso, a nobreza no seu mais elevado estatuto: a da vítima que nunca delatou a injustiça de que foi alvo, para não entregar de mão beijada quaisquer justificações ao seu verdugo.

Prosseguimos à descoberta deste autor, e convidamos-vos a acompanharem-nos, passando ao volume III desta magnífica obra, sem pressas, nem promessas. Não conseguiríamos ficar por aqui, sem saber quem é Tupra, para que organização secreta trabalha Dezas ou qual o papel de Peter Wheeler. Sabemos de antemão que as nossas curiosidades só a espaços serão satisfeitas, porque no permeio da aventura está a verdadeira façanha: honrar Javier Marías saboreando cada escrutínio seu sobre cada um de nós.

Saiamos juntos dos lavabos da discoteca por onde nos arrastamos neste volume II, rumo à descoberta desta seita de gente secreta e estranha, que ousa fingir saber quem é quem, o que faz ou é capaz de fazer. Quem é, afinal, capaz de matar?   

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