home Antologia, LITERATURA O Teu Rosto Amanhã III – Javier Marías (Alfaguara, 2018)

O Teu Rosto Amanhã III – Javier Marías (Alfaguara, 2018)

O terceiro e último volume de O Teu Rosto Amanhã é a recompensa do leitor. Os fios soltos entrelaçam-se e a história finalmente desenha-se completa e consistente. Nenhuma das palavras, reflexões e até citações feitas nos anteriores volumes, percebemos, foi feita ao acaso. Todas conduzem à solidez da narrativa e encontram o merecido descanso justificativo no desfecho desta obra. Javier Marías é, portanto, um arquitecto de palavras, utilizando-as com refinada contenção e presciência, conhecendo, desde o primeiro momento, onde pretende que elas conduzam o leitor. Não há acasos, passagens desgarradas ou impulsos literários. Antes, cada palavra, frase ou acontecimento é um tijolo assente com rigor e precisão, cuja razão apreendemos, não sem estupefacção, quando chegamos ao final de Veneno e sombra e adeus.

O dom de Jack Deza, a leitura dos outros, a antevisão dos seus comportamentos, transformam-se em visionárias sentenças que o grupo ultra-secreto ao qual pertence faz a pedido de interesses nacionais ou de outros misteriosos clientes. Este dom pode ser afinal uma maldição, à qual o autor desde logo alude nas primeiras páginas do primeiro volume.

O complexo de Kennedy-Mainsfiled, «o temor de ficar marcado para sempre pela maneira de terminar», a necessidade de alguns de encontrarem um termo para a sua vida que seja cénico, motivada pelo medo do esquecimento e ou da opacidade que as suas obras possam ganhar com o passar dos tempos, e o seu reconhecimento nos outros, é um meio eficaz de manipulação, de condução à morte ou ao suicídio em circunstâncias premeditadas. Esta faculdade e poder determinante, as leituras ao íntimo de cada um, das suas forças mas sobretudo das suas fraquezas, e o modo como o carácter de quem o detém com ele lida e gere à distância as suas marionetes é, diríamos, o cerne de toda a narrativa e da tensa relação entre Deza e o seu chefe Tupra, a quem admite o charme mas não sem um je ne sais quoi de repulsivo.

«Cada qual assiste ao seu relato»

«Quando nos temos por espectadores é quando mais representamos, e falseamos e nos compomos»

Javier Marías vai fundo na leitura dos lugares mais esconsos e sombrios da alma, dos contornos do ser humano, do que nele afinal está sempre latente, ainda que sem a guerra como pano de fundo, as perversões, as torturas, as máculas de cada um, as memórias e as consequências, as vergonhas e as responsabilidades familiares e afectivas. Do que somos todos capazes? De que cepa somos feitos? Em qual de nós nos metamorfoseamos quando impomos a dor, infligimos castigos, quando nos comprazemos com o exercício de infligir o medo?

Jack Deza confronta-se com o veneno, com o vírus que é inoculado em quem toma conhecimento, «Presume not that I am the thing I was. Não presumas que sou o que fui.». Cada um se transforma ou se revela, quando o veneno já lhe corre nas veias, quando a febre traz da sombra o que de si próprio mal se conhece, «E assim eu sou a minha própria dor e a minha febre.»

Entre as personagens mais notáveis temos Sir Peter Wheeler, retrato da sobriedade e da elegância, responsável pela ligação entre Deza e Tupra cuja idade avançada nos vai preparando para a sua despedida. A amizade entre Jack Deza e Peter Wheeler é, em nosso entender, mais profunda que a própria relação com Luísa, ex-mulher de Jack, que ainda ocupa todo o espaço romântico no seu coração. Sir Peter Wheeler é também, tal como o autor Javier Marías, um arquitecto, não de palavras, mas de encontros e desfechos, de palcos nos quais reúne quem se deve conhecer ou se há-de encontrar.

O dom de quem ainda tem tempo mas a quem o tempo já se esgota, faz de Sir Peter Wheeler e do pai de Deza personagens vivas, humanas, únicos camaradas do leitor, que neles encontra o conforto e a esperança na rectidão do próximo. De algum modo, são baluartes de uma gente que talvez o próprio Marías considere em vias de extinção.

Esta trilogia de Javier Marías torna-o, a nosso ver, natural candidato ao Nobel da literatura, pela espessura da obra, pela análise dramática com que permeia qualquer gesto, a todo o momento, de cada uma das personagens e, uma vez mais, pela notável elaboração de uma extensa narrativa a par e passo (auto) justificativa do que foi dito, do que ficou escrito do que, desde o mais tenro início, fica expresso ou foi subtilmente aludido. Esta é a última telha de um edifício minuciosamente projectado que urge explorar.

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