home Didascálias, TEATRO Ocupação Dias Hábiles: Nacional-Material, Paisagem com Argonautas/Dias Hábiles – Mosteiro S. Bento da Vitória, 23 e 29/09/2017

Ocupação Dias Hábiles: Nacional-Material, Paisagem com Argonautas/Dias Hábiles – Mosteiro S. Bento da Vitória, 23 e 29/09/2017

This is the way the world ends
This is the way the world ends
This is the way the world ends
Not with a bang but a whimper.

—T. S. Elliot “Hollow Man”

Todo o espectáculo é tentativa, de veicular uma mensagem, exprimir uma visão, demonstrar um argumento. Nesta Ocupação Días Hábiles, constituída por três actos (de que testemunhámos dois), o destaque vai inteiro para Días Hábiles, anunciado como um anti-espectáculo, quase praticado, mas que, perante a inerente e voluntária impossibilidade de ser mais um serão em que se cumprem os códigos de cada nova representação teatral, abraça esse senão e transfigura-o em verdadeiro tour de force, com a honestidade intelectual e artística que só o despojamento e a entrega à arte conseguem tornar genuína.
Días Hábiles converte a performance artística na sua expressão primordial , eliminando a distância com o público, tornado testemunha e personagem, num palco que se dissolve e interage com o espaço circundante e emula um mundo dirigido, retratando um outro cada dia mais desprezado, no limite do tolerável. A ironia e o triunfo deste todo dramático: ali, como na vida, assistimos à nossa auto-destruição.

É o próprio Alfredo Martins, criador e solitário protagonista, quem nos diz “aquilo para que gostaria de vos convidar não tem nome.” Assumindo todas as contradições inerentes a uma construção em curso, sem a condescendência de pedir que imaginemos cenários e ou nos deixemos guiar por uma mão invisível, em comunidade formada in loco é-nos proposto “nomear a ruína e ficar com ela”.
A génese desta ideia surgiu de uma viagem encetada por Alfredo e Rui Santos pela América do Sul, em busca de projectos de autogestão que estimulassem a sua criatividade e imaginação, seguindo o exemplo de um célebre grupo de escritores que, na década de 40 do século passado, iniciou uma viagem por Buenos Aires, depois de queimarem todos os seus livros num fogueira comum, para um novo começo utópico, livre de preconceitos. É dessa viagem que nasce a ocupação deste espaço público para uma experiência que se quer comunitária, porém consciente dos limites da imprevisibilidade dos seus agentes e das suas reacções.
O monólogo segue uma reflexão sobre o Outro e o desconhecido, série de evocações e imagens convocando sensações e empatia com a nossa ignorância (mal) disfarçada de globalização universal e fraterna, em que todo o Mundo cabe no cartão de memória de um telemóvel ou nos servidores de uma qualquer comunidade virtual. “Vivemos num estado de não-reconhecimento uns dos outros.Tiramos fotografias para nos desobrigarmos.”

Simula-se adiante a Morte, murmurada ao ouvido como anunciada pelo profético “Hollow Man” de T.S. Elliot, para depois, ressuscitados, dançarmos e juntos içarmos o chão ao céu, numa simbólica ascensão final, oferenda ao incógnito vazio que tantos, para seu conforto, apelidam de céu ou paraíso.
Do Mosteiro de S. Bento da Vitória, saímos com a ilusão da esperança na acção colectiva redentora, (se/quando) guiada para o bem comum. Transposta a porta para o Mundo, estamos de novo sós. A responsabilidade de uma resposta à medida de cada um é um ónus tão imperioso como esquecido no despertar seguinte. Ao contrário do habitual, em Días Hábiles (dias úteis), deparámo-nos com algo vivo, no limbo que apenas os actos no seu decurso podem induzir, quando não lhes conhecemos objectivo ou conclusão. O caminho é o fim. Uma raridade, entre os planos, objectivos, fracassos e recompensas que regem cada minuto das nossas existências.

Nacional-Material, Paisagem com Argonautas é outra face desta Ocupação, em que o mesmo espaço físico foi cenário de um espectáculo-debate. A temática é transversal, mas a abordagem é radicalmente diferente. Aqui, uma assembleia de argonautas (os espectadores), habitantes de Corinto, é convidada a participar na decisão de manter ou não Medeia, uma estrangeira, na cidade. Com três actores entre o público, o que começa por ser constrangedor, pela natural timidez de intervir em público sem preparação, transforma-se em verdadeiro debate de ideias, com o assunto em questão a ser mero ponto de partida para construir pontes com temáticas bem actuais e ainda (e sempre) por solucionar: a imigração, a integração do estrangeiro, a aceitação do outro tal qual ele é e os efeitos dessa assimilação.
Da universalidade dos grandes espaços e utopias, passamos aqui às questões mais práticas, decisões que nos tocam sempre, nem que seja apenas numa tomada de posição em conversa informal de café. Em ambos os eventos, somos chamados a reconhecer-nos nas nossas fragilidades e forças, confrontados com a eferverscência de princípios e regras que nem sempre estão tão seguros e inatacáveis como possamos pensar, do alto da nossa circunstância privilegiada. As conclusões são da nossa responsabilidade, como também é nossa a opção de mergulhar a cabeça na espuma dos dias e deixar que nos invada a abnegada e entediante inacção perante inoperância de um sistema obsoleto e necessariamente incapaz de verdadeira justiça, perante tamanha e imprevisível diversidade de juízos e mundividências. É esse todo que aqui se procura aflorar e são estas tentativas que fazem de arte um bem essencial a nossa sanidade mental.

Para mais crítica de Teatro, leiam AQUI.

Fotos © Alípio Padilha e Susana Neves 

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