home Antologia, LITERATURA Olga – Bernhard Schlink (Asa, 2019)

Olga – Bernhard Schlink (Asa, 2019)

Em Olga, Bernhard Schlink desenha o retrato de uma mulher sobre a cartografia da Alemanha desde a sua expansão para África, passando pelas duas guerras mundiais até aos anos 70, quando Olga encontra o seu fim num evento cujos contornos nebulosos ganham foco no desenlace do livro, em intersecção com a História. O romance desenrola-se de forma lenta, tal como Olga em criança, que preferia olhar em redor, ao contrário de Herbert, amigo de infância e seu futuro namorado, que corre sem parar, metáfora para a inquietude fervorosa que o levará para África e depois para a vastidão do gelo do Ártico, onde desaparecerá consumido pelo delírio expansionista e pelo que Olga descreve como o vazio dos sonhos coloniais dos homens alemães:
“O encanto da lonjura, a vastidão do deserto e do Ártico, a tua ansia por um sítio qualquer e por sítio nenhum, as tuas fantasias coloniais… que teorias tão inúteis! Sei bem que não és o único que lhes dá voz. Não há uma semana em que não leia acerca do futuro da Alemanha nos mares e em África e na Ásia, do valor das nossas colónias, da força da nossa frota e do nosso exército, da grandeza da Alemanha, como se tivéssemos crescido a ponto de já não cabermos na nossa terra, como se deixa de caber numa peça de roupa, e precisássemos de uma maior” (228)
As mulheres contemplam desde o interior da casa e esperam pelos homens que, de forma obstinada e irrefletida se aventuram pelo gelo adentro ou que oferecem o corpo à guerra numa eterna odisseia. Para além das questões nacionalistas e coloniais, Olga é ainda uma reflexão sobre a condição feminina no século XIX e XX, onde a figura da protagonista serve como sinédoque para as mulheres deixadas para trás durante a guerra, atingidas pelas ondas de choque desta, mesmo longe da linha da frente.
Ao olhar para Olga através da estrutura tripartida do romance, o seu retrato torna-se também múltiplo e complexo. Numa primeira parte, o retrato de Olga é desenhado desde a infância até à expulsão da Silésia, como mais uma vítima da guerra. Numa segunda parte, é o olhar de Ferdinand que descreve Olga, desde a chegada a sua casa como costureira até à sua morte, vítima do que parece ser um atentado a uma estátua de Bismarck, o engenheiro da corrida colonial. Numa terceira parte, o romance torna-se epistolar e Olga ganha finalmente voz, mesmo que apenas post mortem, preenchendo os espaços deixados em branco pelos relatos incompletos das páginas anteriores com as vinte e cinco cartas que escreveu a Herbert e que nunca encontraram o seu destinatário, da mesma forma que a própria Olga nunca o conseguiu.
Apesar de breve, o romance entre os dois torna-se na força impulsionadora de Olga, e o seu fantasma alimenta a sua vida como a “dor-fantasma que sentem os soldados … não estás cá, mas provocas dor, como se ainda existisses” (258). Mesmo em vida, Herbert surge sempre como uma figura espectral, nos encontros fugazes com Olga, e o seu desaparecimento físico é apenas uma projeção da sua ausência e do seu desejo pela aventura, em detrimento de uma vida doméstica ao lado de Olga, como marido e pai. Em prol da pátria, Olga e a Alemanha ficam viúvas de uma geração de jovens alimentados pelo orgulho nacional e que morrem em massa. Schlink descreve ainda de forma incisiva a forma como, se para a cidade a guerra pedia festejos, para a Alemanha rural perder um homem de família significava a ausência de mão de obra necessária para manter a família viva. A vida de Olga é marcada pela morte e perda, trazidas pela doença, como aconteceu de forma prematura com os seus pais, ou pela “guerra [que] está a extinguir os homens da minha geração” (253). Olga surge como “viúva de uma geração inteira” e o luto por Herbert é também pelos homens que, oriundos de famílias ricas, como Herbert ou de meios rurais e pobres, como Olga, encontram na morte um fim estranhamente igualitário. Num dos muitos passeios que fazem por cemitérios, Olga diz a Ferdinand que “todos deviam repousar juntos, os soldados, os judeus, os camponeses … deviam repousar juntos e recordar-nos que somos todos iguais, tanto na vida como na morte. A morte perde capacidade de infundir medo se não for o cruel nivelador após uma vida de diferenças, favorecimentos e desvantagens, mas apenas o seguimento de uma vida em que todos somos iguais” (130).
Olga arde devagar mas ganha força à medida que a narrativa se expande para incluir novos olhares e vozes. Traduzido por Paulo Rêgo, o romance oferece uma narrativa que revela gradualmente os pequenos detalhes da vida de Olga, e a transformam de uma banal professora assombrada por fantasmas numa mulher que encontra no espírito intrépido do namorado morto a força para um último ato radical. Órfã, deixada surda por uma doença, viúva e forçada a deixar a própria casa e a abandonar a escola e o ensino, Olga nunca cede aos obstáculos inerentes à sua condição de mulher em tempos de conflito. Como Penélope, Olga espera por um homem que parece ter perdido o rumo e vai tecendo a sua história nas roupas que remenda para Ferdinand e nas cartas sem destino que escreve a Herbert.
Olga é um olhar sobre a experiência universal da guerra, de quem espera e de quem morre, assim como o retrato de uma mulher como espelho da condição feminina, das expectativas com que a sociedade a sobrecarrega, assim como as suas pequenas transgressões e atos de resistência.

Por defeito profissional, a Ana Carvalho escreve de acordo com o novo desacordo ortográfico.

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