home LP, MÚSICA Omega – Immanuel Wilkins (Blue Note, 2020)

Omega – Immanuel Wilkins (Blue Note, 2020)

Quando Don Was, chefe da prestigiada Blue Note Records, diz a Immanuel Wilkins que considera Omega um clássico, não se trata apenas de um gesto simpático e encorajador na estreia em disco do jovem saxofonista (de 22 anos apenas) em início de carreira, mas vem de alguém com a noção clara de que, dos dois dias em que aquelas 10 faixas foram gravadas, saíu um milestone para a história do jazz. Apadrinhado e produzido pelo pianista Jason Moran (que Immanuel conheceu na Juilliard, em Nova Iorque, e com quem veio a tocar), Omega condensa sete anos de composições de Wilkins, num trajecto de estudo e de busca da sua voz musical, iniciado em Filadélfia, a sua pátria musical e espiritual. Wilkins cresce no fértil terreno deixado ali mesmo por John Coltrane – ídolo místico do saxofone que exerce em Wilkins uma profunda influência; e também na Igreja, no louvor comunitário da fé pentecostal, onde dá os primeiros passos como instrumentista. São tradições que chegam, não só ao som do seu saxofone alto, mas também do altruístico desejo de colocar a música ao serviço dos outros, sobretudo como veículo espiritual (parecenças inevitáveis com as “liner notes” de Coltrane em A Love Supreme). Fruto de uma «honesta busca da verdade», explica, «Omega apresenta-se como um conjunto de narrativas sonoras prodigiosas que tocam as dimensões da fé, do amor, da doação, da amizade, tendo como pano de fundo o retrato da identidade e da estética da negritude nos E.U.A.». Wilkins e o seu quarteto de longa data (os igualmente jovens e geniais Mikah Thomas no piano, Daryl Johns no contrabaixo e Kweku Sumbry na bateria) conseguem magistralmente dar uma forma tangível ao “horrífico e ao sublime” (nas suas palavras) que coabitam na vida dos negros do seu país.

O ponto de partida para a composição é, em Wilkins, a vida: a sua e a do seus Irmãos. A forma vem depois e é colocada ao seu serviço. Por isso vê a necessidade de, em tom de manifesto, dedicar dois temas à evocação de acontecimentos trágicos de perseguição e assassinato impune – uma violência de tal forma recorrente que Wilkins não hesita em considerar já «uma tradição Americana». A memória feita em “Ferguson – An American Tradition” leva-nos a 2014, quando Mike Brown é morto à bala pelo polícia branco Darren Wilson, em Ferguson, sem que este viesse sequer a ser julgado. Wilkins explica que quis fazer um retrato cronologicamente inverso, do fim para o começo daqueles acontecimentos, do tumulto da multidão revoltada, ao momento em que são disparados os tiros (representados pelo som isolado dos címbalos de Sumbry no final). É uma viagem sonora que nos conduz ao lugar do jovem indefeso atingido (e nos atinge também com a pergunta: até quando?!).

Noutro tema, “Mary Turner – An American Tradition”, Wilkins reforça a sua inequívoca vontade de trazer à memória o terror que acompanha esta comunidade desde o começo, ao escolher evocar a morte de Mary Turner (grávida de 8 meses, pendurada de cabeça para baixo numa árvore, queimada e esventrada por uma multidão de brancos, por se ter insurgido contra o assassinato do seu esposo, vítima também ele de uma série de linchamentos que ocorreram na Georgia, em 1918). É uma mensagem eloquente, que ganha mais força no ano em que o assassinato de George Floyd (estrangulado pelo joelho do polícia branco Derek Chauvin) lamentavelmente a confirma.

Mas em Omega há também o inegável sublime, que surge representado indelevelmente, entre aqueles dois trágicos temas, no balsâmico intermezzo “The Dreamer”. Tema de uma rara beleza, em jeito de prece, onde a simplicidade da forma ganha o seu distinto lugar (inspirado pelo poema “A Mid-Day Dreamer” do antigo activista negro James Weldon Johnson, a quem faz a nostálgica homenagem). No centro do disco surge uma suite de quatro partes (“Part 1. The Key”, “Part 2. Saudade”, “Part 3. Eulogy” e “Part 4. Guarded Heart”). E aqui assistimos ao que o resto do álbum confirma: um quarteto sólido, que atravessa, imperturbável, os ritmos mais complexos, vertiginosas mudanças de velocidade, a liberdade exploratória das vozes espontâneas de cada elemento, os solos mais intensos, mas também os sussurros mais delicados, onde o silêncio não é uma nota proibida. Não será difícil reconhecer a sonoridade, intencionalmente procurada, do segundo quinteto de Miles Davis no tema de abertura “Warriors”. Nem laivos de Ornette Coleman ou Eric Dolphy, nas tiradas mais livres de Wilkins. Mas cada frase tem a sua explicação (uma narrativa subjacente), o que o distancia de qualquer rebeldia puramente experimental.

É um conjunto notável de peças que denotam já uma tremenda maturidade musical. A diversidade das formas entre cada tema (e mesmo dentro de cada um) é imensa, mas equilibrada, sem cair na tentação do exibicionismo. É um corpo harmonioso que resulta de um paciente trabalho de depuração ao longo de vários anos. Será, talvez, não tanto a dimensão da denúncia/memória e da exaltação do sublime, mas mais a componente estética, que tornará “Omega” seguramente um clássico do jazz – mas quanto de inovador e genial neste disco não é precisamente o transparecer de uma busca espiritual e identitária genuína, empenhada em dar voz a essas narrativas que a História tende a calar?

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