home Antologia, LITERATURA, Ponto, TEATRO Os Animais e o Dinheiro (GMT e Os Espacialistas) – BoCA, 30/3/2019

Os Animais e o Dinheiro (GMT e Os Espacialistas) – BoCA, 30/3/2019

Sobre Gonçalo M. Tavares (GMT), quase tudo já foi dito e a sua obra diversa e cada vez mais ampla e aparentemente interminável são ilustrativas da sua criatividade e talento. Para quem não ouviu, basta ler o que escreve para perceber que a sua arte incorpora uma mundividência de tal forma concreta e directa, que se torna alienígena no predominantemente obsoleto, condescendente e tribunício panorama literário luso. Esta performance sob o tema Os Animais e o Dinheiro, apresentada com Os Espacialistas (retomando uma frutífera colaboração iniciada com O Atlas do Corpo e da Imaginação), apresentada no âmbito da desafiante e bem vinda BoCA 2019 (Biennial of Contemporary Art) prometia três espectáculos inéditos “de consciencialização e revelação prática das potencialidades artísticas do quotidiano humano; de diálogo como obra de arte; de divulgação e aprendizagem de estratégias de criatividade individual e colectiva.”, através da Arte Directa, conceito definido como algo que “aparece num pensamento, na alteração de um estado de consciência, numa visão repentina, no silêncio de um som, numa mudança de direção, no meio de uma palavra, na alteração de posição de um objecto, numa posição de corpo, no toque de uma superfície, numa ligação física, numa alteração de movimento, num trejeito de rosto, num tropeção distraído, num cruzamento escondido, num desejo secreto, numa interpelação/pedido atrevido, no meio de um acidente, numa variação luminosa, debaixo de temperatura intensa, na actualização imaginária de uma memória, num pré-sentimento ou num erro.” Do cruzamento destes dois caminhos, nasceria “uma acção de improviso e de antecipação da vida”, criando um Laboratório de Formas de Sentir Acima da Média, subtítulo da performance.

Na prática, o espectáculo consistiu em ter GMT em palco a debitar passagens da sua obra sem especial relevo, só a espaços em linha com o tema proposto, em tom monocórdico e arritmado, por vezes de forma aleatoriamente repetitiva, como se derivadas de um erro e nem sempre comcomitantes com as fotos d´Os Espacialistas, projectadas no ecrã em fundo. Ao mesmo tempo, quatro homens vestidos de branco executavam tarefas: correr em círculos (sem parar até ao final…), construir um muro em tijolo, amarrotar papéis e caminhar enquanto largavam pequenos pedaços de madeira. Todas as acções eram absolutamente paralelas e desconexas, sem qualquer vestígio de sentido ou lógica latente na longa e por vezes penosa hora que se viveu no bem preenchido Grande Auditório do Teatro Rivoli. Se o objectivo era testar os limites da tolerância e paciência do público, foi largamente cumprido. Se o “improviso e a antecipação da vida” eram os desideratos pretendidos, fica por perceber a escolha dos processos utilizados e os seus resultados díspares. Pedia-se um espectáculo em que o público fosse pelo menos tido em conta, porque afinal é essa a sua expectativa natural e objecto primacial da Arte. A “forma de sentir” desencadeada foi abaixo da média, bem próxima da inércia, tão contrária ao espírito de toda a obra do Gonçalo M. Tavares.

Foto © Bruno Simão

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