home Antologia, LITERATURA Os Dez Espelhos de Benjamin Zarco – Richard Zimler (P. Editora, 2018)

Os Dez Espelhos de Benjamin Zarco – Richard Zimler (P. Editora, 2018)

“Tudo o que acontece está interligado por finos filamentos de causa e efeito, que normalmente não conseguimos ver” não é a primeira frase de Os Dez Espelhos de Benjamin Zarco, mas será porventura um bom resumo do que este representa e do seu esqueleto. Richard Zimler é aqui tecelão duma intrincada tapeçaria, onde se entrelaçam as histórias de vida de dois primos, judeus sefarditas e sobreviventes ao horror do Holocausto na Polónia. A forma como cada um deles edifica a sua existência posterior é bem diferente: se um encontra refúgio numa hipersexualidade que não aceita amarras, o outro carrega uma culpa insuperável. Mas é no decorrer da narrativa que percebemos até que ponto se interseccionam e se revelam como um jogo de espelhos permanente.
Primeiro, a estrutura: uma linha temporal que atravessa a fase final Holocausto, a recuperação que se lhe seguiu e a actualidade, e que se espraia pela Polónia, Canadá, EUA e até Portugal. Em forma de mosaico, o autor desenha a narrativa em seis relatos diferentes, estilhaços que o autor reorganiza com notável mestria, compondo o puzzle que nos revela toda a história sem que isso obedeça aos ditames da cronologia.
A voz de Ethan, filho de 45 anos duma das personagens centrais desta história, em 2007, começa por nos contextualizar: esta é a história da vida de Benjamin Zarco, ou Benny, sobrevivente do terror no gueto de Varsóvia, cujas marcas não o impedem de se tornar um homem notável (e uma personagem de quem é impossível não gostar), mas que em diversos momentos se revelam jaulas difíceis de escapar. A seguir recuamos para a voz de Jules em 1977, mulher do primo Shelly só a muito custo reencontrado, e é aqui que percebemos que as histórias destes dois personagens, indelevelmente unidas, são a base sobre o qual Zimler nos atinge com as grandes questões que atravessam todos os grandes horrores da Humanidade.
À medida que avança a narrativa – de seguida pela voz de Ewa Armbruster, a professora de piano que salva a vida de Benny em 1944, e de Teresa, sua mulher, que em 1965 lhe oferece a derradeira redenção – as questões são identificadas. O enquadramento do ódio dos polacos pelos seus compatriotas judeus, como lente para olhar a guerra do Vietname e até o genocídio perpetrado contra os nativo-americanos; a significância da preservação da cultura e tradição judaica, como reacção à ameaça declarada de extinção; e finalmente, a mensagem inspiradora de que não importam as fronteiras, tanto físicas como linguísticas. No essencial, une-nos a emoção humana, tanto no mais atroz sofrimento, como nas pequenas idiossincrasias que compõem uma vida.
Com o avanço neste trajecto – depois pela voz de George em 1947, o navajo e meio-judeu que foi amante de Shelly para depois se tornar parte da família, e por fim regressando a Ethan, já na súmula de todas estas vidas em 2018 – vamos desvendando adornos narrativos subtis, mas que pontuam este livro com uma rara beleza lírica. Desde a espiritualidade pungente – as descrições da mitologia hebraica e tradições iídiches são belíssimas, e o momento da possessão de Shelly pelo espírito da sua irmã Esther (um dybbuk errante) é particularmente impactante -, ao poder transformador da Arte – seja na simbologia do hino Variações sobre uma Melodia Antiga, peça composta por Ewa depois duma visita em sonhos do propulsor de toda a narrativa (Berequias Zarco, o judeu sefardita na origem de toda esta belíssima história familiar) e convertida em totem, seja nas descrições do universo emocional vertido na pintura tanto de George como de Ethan, ambos ensombrados pelo que não conseguem explicar doutra forma, esta história logra provar que a resiliência humana pode bem pegar no trauma e dele reerguer uma vida.
Forma, conteúdo e lírica, elementos fulcrais combinados na exacta proporção para conferir a este livro o tom de relato vívido, muitas vezes perturbador, mas sem dúvida inspirador. Talvez seja essa a mensagem mais impactante deste livro e em simultâneo a razão porque deixa para trás, incrustado bem fundo no leitor, uma esperança reconfortante na Humanidade: mesmo que os traumas possam talhar uma vida, é nos outros e no poder transformador de cada um que podemos encontrar a redenção.

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