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Passagem para o Ocidente – Mohsin Hamid (Saída de Emergência, 2018)

Passagem Para o Ocidente (Saída de Emergência, 2018), de Mohsin Hamid, é um reflexo cuidadosamente construído do seu tempo. A narrativa segue a atribulada passagem de um casal (cuja origem não especificada poderá ser a tão mediatizada Síria, ou outro dos muitos países dizimados por guerras) – Saeed e Nadia – para o Ocidente, que surge como promessa de paz, rumo a uma cidade engolida por refugiados mas ainda em paz, cenário que se altera rapidamente. No início, Saeed é assaltado pela timidez e insegurança, assim como uma incapacidade de abordar Nádia, mas estes rapidamente se relacionam, ultrapassando as barreiras religiosas e culturais que os separam. No entanto, o livro torna-se mais do que uma história de rapaz-conhece-rapariga. Qualquer um dos pequenos impedimentos que surgem no início de qualquer relação amorosa, tornam-se irrelevantes quando confrontados com a morte, a perda e a necessidade de abandonar o seu país.
Se por um lado Passagem Para o Ocidente se prende com a realidade da guerra que nos envolve, com o fotojornalismo e o realismo social, há também muitas características emprestadas da ficção especulativa.
Para fugirem à guerra, Saeed e Nadia vão atravessando oceanos e continentes, através de portais que, em troca de dinheiro, os levam para um outro local longe do conflito. Dada a mediatização pornográfica dos corpos de refugiados afogados no Mediterrâneo, Hamid quis poupar o leitor à repetição destas imagens, deixando-lhe espaço para recriar os perigos e dureza destas passagens.
Assim que atravessam o portal (num processo que lembra um truque de magia), Saeed e Nadia chegam a um campo de refugiados em Mykonos, e mais tarde a uma casa ocupada por outros migrantes em Londres. Por fim, alcançam São Francisco, onde encontram a estabilidade, mas se desencontram.

As personagens são “recortadas” de um sítio e colocadas noutro, forçadas a uma nova realidade, sem que sejam revelados quaisquer detalhes das suas viagens atribuladas, opção coerente com o tom trágico mas revigorante do livro, em que o passado não determina presente ou futuro.
A estrutura interna do livro assemelha-se a um conjunto de vinhetas, pequenas impressões de pessoas e lugares que se vão sucedendo, às quais a imagem dupla de Saeed e Nadia se sobrepõe. Paralelamente, a sua relação amorosa acaba por deteriorar-se com o movimento das através do mapa.
À semelhança do que acontece com os refugiados fora do livro, o tal Ocidente que surge no horizonte como possível refúgio revela-se estranho e muito vezes hostil. À chegada, cabe ao viajante construir outra casa, outra comunidade. A páginas tantas, lê-se: “somos todos migrantes através do tempo”.
Este é o livro mais terno e complexo de Hamid, parente bem distante do seu bem sucedido O Fundamentalista Relutante, também ele traduzido para português e já adaptado ao cinema (protagonizado por um excelente Riz Ahmed), marcado por um tom irónico que, em Passagem Para o Ocidente, dá lugar a uma escrita mais lírica, aparentemente simples e contida, mas muito envolvente. A cadência da narrativa impede o leitor de a abandonar até ao final, muito mais esperançosa do que as narrativas quase diárias sobre refugiados, aberta como as portas que levaram Saeed e Nadia rumo à segurança (mas não necessariamente à felicidade).
O processo de ler o livro é bastante semelhante ao de atravessar o tal portal. Através deste objeto igualmente retangular, de quase 200 páginas, o leitor acompanha Saeed e Nadia nessa viagem para outro espaço.
Passagem Para o Ocidente evita qualquer tipo de discurso político ou posição em relação à retórica xenófoba contra migrantes, usado numa campanha anti-multiculturalismo por parte de muitos países europeus. Em vez disso, destaca-se o espaço deixado para a vida comum e a história de Saeed e de Nádia (assim como as de muitos outros, brevemente apresentados, apontamentos de outras vidas tocadas pela guerra, quer diretamente ou de forma mediada), sem o véu do fundamentalismo e do estereótipo, suspensas pela guerra, mas nem por isso menos valiosas do que aquelas de quem os observa à distância, no onírico Ocidente.

Saeed e Nadia conhecem-se numa aula, aproximam-se, têm encontros em restaurantes, consomem cogumelos mágicos, comunicam largamente pelo telefone, como qualquer outro casal.
Passagem para o Ocidente reflete sobre a (im)possibilidade da vida doméstica num cenário de guerra, num olhar sobre a universalidade dos conflitos e das migrações.
Num balanço final, o ponto forte desta ficção de Mohsin Hamid é a sua (re) leitura do exílio forçado como uma inevitável força de mudança, em que cada passo no mapa é pretexto para reenquadrar as bases da nossa humanidade partilhada: a casa, a pertença e a relação com o Outro.
Um livro (e um autor) injustamente arredado dos radares da crítica portuguesa, mas presente em quase todos os tops e listas de candidatos aos prémios literários internacionais de referência, que urge descobrir nesta edição oportuna da Saída de Emergência.

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