home Antologia, LITERATURA Philip Roth (1933-2018)

Philip Roth (1933-2018)

O momento já estava a ser preparado por Roth há anos, para que se eliminasse a incógnita inevitável. O trabalho estava feito. Os livros, premiados com as mais altas honras da história da literatura americana. A biblioteca pessoal doada à Newark natal. A biografia atribuída a uma pessoa de confiança, os papéis organizados e arquivados. Chegou sem surpresa, mas com pesar para quem, como eu, o leu e releu, e acredita que a lei da vida é cruel, mas excepcionada por quem a faz valer pela partilha do seu dom com o Mundo, pelo Bem (pessoal e comum) e pela compreensão do Ser e do Outro.

Quando lemos Philip Roth, percebemos as razões da fama e do proveito: a análise fria e inclemente de uma sociedade embrenhada num sonho que é incapaz de perceber e concretizar, por se tratar de uma ideia, uma aspiração; o peso da herança cultural judaica, que o seu ateísmo e assertividade (e algumas contas a ajustar) permitiam avaliar e dissecar com a precisão dos hábeis; o desejo masculino num país de puritanos mal disfarçados e as suas consequências; a inteligente mistura entre a ficção e a sua biografia, o físico e o metafísico, sem avisos ou entroitos, sempre inesperada, no mesmo parágrafo; a eterna transformação e evolução de identidades, clássica da literatura americana, por vezes calculista, ingénua outras tantas, mas sempre em busca da redenção que nunca chega, abarcando personagens e protagonistas (Zuckerman e Kepesch à cabeça) e estendendo-se à sua América; a escrita inatacável, plena de técnica e pungência, vogando entre o detalhe mais dolorosamente pessoal e a visão global e empática, mesmo para quem, por muito que seja diariamente convencido do contrário, não faz a mais pálida ideia do que é ser americano e judeu no séc.XX e XXI.

Um gigante sempre lúcido e consciente da sua estatura, dos riscos e do desgaste constante que lhe eram inerentes. Corajoso, encarou de frente todos os Golias e escolheu sempre tocar na ferida, abri-la, escalpelizá-la, e oferecê-la aberta ao leitor, para que lhe desse o destino que se lhe aprouvesse. Indiferença ou ausência são elementos arredados das suas obras (invariavelmente boas, quando não excepcionais) e este carácter de premência e ironia sobranceira perante a Vida garante, a cada nova leitura, o deleite dos amantes das letras impressas e a conversão incondicional, mesmo que por vezes renitente, dos iniciados em fiéis nesta religião politeísta da Escrita. 

A última grande entrevista, dada em Janeiro ao NYT, pode ser lida AQUI.

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Foto: Philip Montgomery para o The New York Times

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