home Didascálias, TEATRO Pinocchio – TeCA, 17/03/2017

Pinocchio – TeCA, 17/03/2017

Com base na obra literária “As Aventuras de Pinóquio” (ou “Le avventure di Pinocchio. Storia di un burattino“) de Carlo Collodi, o encenador Bruno Bravo serve-se do texto original para o subverter das mais diversas formas.

Começa por colocar o jovem Pinocchio (excelente Carolina Salles, encarnação da primeira juventude, olhos brilhantes, pele alva, cabelos loiros, sorriso vivo, total entrega ao texto e à personagem) no centro da cena, subalternizando o velho e espectral Gepetto (António Mortágua) e o sinistro menino Palito (Ivo Marçal).

Em palco, encontramos também uma raposa, um arlequim, um burro, quatro coelhos, uma coruja, um gato e um grilo, que nunca percebemos completamente se são meros bonecos ou habitados por um corpo e cujas vozes pairam sobre as nossas cabeças e por toda a sala do Teatro Carlos Alberto, transformando a peça em descrição do que o encenador chama “terrores nocturnos”.

Ironicamente, o boneco acaba por ser a personagem mais humana do elenco. Apesar de começar como total manipulação do seu criador, dependente desde a sua voz ao seu mínimo movimento, Pinocchio acaba por libertar-se desse pesado vínculo por força das necessidades mais básicas.

A fome e o frio, a busca do seu lugar num Mundo de meninos, que almeja personificar, levam-no a divagar, tentando agradar o “pai” Gepetto ao trazer-lhe uma côdea de pão e vinho.

Fugindo do rigoroso condicionamento “paternal”, encontra o Grande Teatro de Fantoches. Aqui é enganado, manipulado, desta feita não como boneco nas mãos de Geppetto, mas como qualquer outro miúdo verdadeiro o seria na mesma situação. O sonho e a ingenuidade são assim bruscamente quebrados, pois a liberdade tem necessariamente um preço.

A linguagem é outro forte elemento de subversão, com o uso do italiano original, em confronto com o português, para efeitos ora dramáticos ora cómicos, relembrando-nos que o contexto é tudo, também no que concerne ao jogo da palavra, à dialéctica tríplice de signo, significado e significante.

Perdido entre as expectativas da sociedade e os valores que lhe são inculcados pelos adágios de Gepetto, Pinocchio acaba por atingir o seu desiderato no final, tornando-se menino, apenas para ser mais “boneco” do que alguma vez o tinha sido.

Com um aparato cénico minimalista e um texto construído como puzzle, Pinocchio é um espectáculo negro, curto e hábil, em que o boneco é quem emana luz e vida entre humanos autómatos e previsíveis.

Foto © Sérgio Lemos

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