home Antologia, LITERATURA Problemas de Género – Judith Butler (Orfeu Negro, 2017)

Problemas de Género – Judith Butler (Orfeu Negro, 2017)

Numa das muitas feiras de livros usados desta vida, a versão brasileira do Problemas de Género estava numa banca a um euro. Apenas um euro pelo livro mais influente e citado nos estudos queer e de género. Nessa altura, ao contrário do que acontece com o mercado editorial brasileiro e a sua velocidade fugaz no que toca à publicação de traduções, o livro de Judith Butler ainda não tinha sido publicado em Portugal, uma falha grave talvez explicada pela densidade teórica e linguística do texto, que transformaria qualquer tradução numa tarefa hercúlea. Meses mais tarde, a Orfeu Negro publicava o livro em Portugal, traduzido por Nuno Quintas e com introdução de João Manuel de Oliveira, quase trinta anos depois da primeira edição em inglês. No entanto, o livro demonstra ser ainda muito pertinente e necessário em 2018.

O livro está dividido em três partes principais: a primeira dedica-se à diferença conceptual entre sexo e género e a forma como a linguagem define tais categorias. Numa segunda parte, Butler debruça-se sobre a matriz da heterossexualidade e da heteronormatividade, citando nomes obrigatórios dos estudos de género (Kristeva, Riviere, de Beauvoir), questionando-os e contrapondo-os para que, numa terceira parte, seja possível apresentar várias releituras e transgressões das categorias de género, ao analisar as práticas de drag  e travestismo e ao discutir o famoso caso de Herculine Barbin, um hermafrodita cujo diário foi publicado por Michel Foucault, sendo este uma influência clara no trabalho de Butler com o seu seminal Uma História da Sexualidade.

Problemas de Género é um tratado filosófico sobre o género e o sexo e a forma como os dois se articulam e dialogam, assente no conceito da performatividade. O livro parte de teorias feministas e materialistas para dar corpo a uma forma de feminismo pós-estruturalista com influências de Lacan, Foucault ou Wittig, onde o género é entendido como uma performance, distanciando assim o livro de algumas correntes feministas e definindo-se como uma pedra basilar nos chamados estudos queer, ao problematizar o binarismo masculino/feminino e multiplicando as formas de ser para mulheres, homens e demais, ao criar categorias de género alternativas. O género é assim entendido como uma simulação, que, ao ser encenada todos os dias em espaços domésticos e públicos por homens e mulheres, torna-se numa norma hegemónica que domina todos os aspetos da vida diária, exceto para os gender benders que questionam essas mesmas normas ao assumirem comportamentos ou atitudes disruptivas, numa tentativa de criar novas formas identitárias e posições não binárias face à normatividade exclusiva proposta pelos modelos sociais e políticos, desde a identificação à orientação sexual.

Se é possível a uma drag queen ou drag king encenar em palco gestos, ações e comportamentos exclusivamente feminismos ou masculinos através da imitação, torna-se então paradoxal que esses mesmos gestos, ações e comportamentos possam ser exclusivos de cada uma das categorias sexuais. Abre-se assim a possibilidade de, no mesmo corpo, se inscreverem discursos dissonantes que, segundo a ciência e a história, se excluíam mutuamente, denunciando a artificialidade do género como uma construção social imposta pela linguagem e por práticas culturais sobre o corpo sexual. Uma mulher pode então ser femme, butch, heterossexual, lésbica, bissexual, cisgénera, transexual, intersexual, assexual – ou várias categorias ao mesmo tempo, sem nunca deixar de ser mulher.

Mais tarde, Butler iria escrever mais extensivamente sobre estas temáticas, questionando os seus próprios trabalhos (com livros como Undoing Gender) e assumindo uma atitude ainda mais política e envolvida em questões sociais e antropológicas, numa análise interseccional onde articula género, etnia e nação, ao olhar, por exemplo, para a Palestina e outras zonas de guerra e para a precariedade de certas vidas e corpos deixados desprotegidos por conflitos bélicos ou movimentos migratórios.

Em 2017, Butler foi vaiada e atacada ao chegar a São Paulo, cidade onde iria dar um seminário sobre “Os Fins da Democracia” (título auguratório), onde esta iria abordar as questões do sionismo e do conflito entre Israel e Palestina; no entanto, as 350 mil pessoas que assinaram a petição para que o seminário fosse cancelado defendiam que era a ideologia de género de Butler, uma “ideologia falsa” e a mesma defendida em Problemas de Género, que fomentava a manifestação de desagrado pela sua presença no país. Na altura, a autora redigiu uma resposta esclarecedora, em que detalha a sua teorização, que poderá ser lida AQUI.

Com a ascensão de personagens políticas que cospem discursos homofóbicos, machistas, transfóbicos e racistas, a tradução e disseminação de Problemas de Género torna-se ainda mais premente e urgente, levando-nos a questionar se será verdadeiramente possível romper categorias de género para além da página e da teoria. Em último recurso, e tal como Butler faz, quer na vida privada, quer como académica, vale sempre a pena continuar a problematizar.

Mais recensões/crítica literária AQUI. 

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