home Didascálias, TEATRO A Promessa – TNSJ, 25/11/2017

A Promessa – TNSJ, 25/11/2017

Embora lhe chamem frequentemente o maior dramaturgo do século XX português, a escassa representação no país de obras de Bernardo Santareno atesta a dificuldade de encaixe da sua produção dramatológica nos programas anuais dos diversos palcos portugueses ao longo das últimas décadas. No imediato pós-25 de abril houve um interesse geral pela sua obra, à época mais recente, enquadrada numa vontade insaciável de encenar teatro até aí proibido, sobretudo aquele de índole mais evidentemente brechtiana. É incontornável, a partir daí, a peça “O Judeu”, de 1966, uma crítica mordaz ao salazarismo por via da parábola histórica sobre o também dramaturgo António José da Silva, “o judeu” do século XVIII, sobre o qual Camilo também escrevera, condenado pela Inquisição portuguesa. É à volta desta peça e do seu caráter revolucionário que a figura de Santareno gira em Portugal, ofuscando todo um percurso anterior, entre 1957 e 1962, de menor experimentação técnica, mas, como se pôde ver no TNSJ por estes dias, não menos pertinente.
A encenação de “A Promessa” acontece, supomos, pelo 60º aniversário da sua estreia, precisamente no Porto, envolta em várias polémicas, sobretudo com origem na (à altura) poderosa Igreja Católica, que não apreciou os laivos sexuais de uma mulher casada, acabando por pedir o desaparecimento da peça do espaço público portuense. É incrível que, até 2017, Santareno nunca mais tenha tido lugar na cidade do Porto, mas louvemos desde já esta efeméride pela possibilidade de o podermos ver então na sua faceta talvez menos conhecida. A temática, aparentemente datada, explicará esta ausência imperdoável nos palcos nacionais: uma aldeia de pescadores, a dependência económica da pesca, a névoa marítima omnipresente, um casamento casto por promessa a Deus em troca do regresso do mar a são e salvo do pai do marido, a chegada de um “estrangeiro” à terra, a consternação geral do mulherio, os ciúmes do marido, a culpabilização da mulher – pelo desejo sexual, pela ausência deste no marido – o assassinato do estrangeiro pelo marido desonrado, o sexo à força só depois da vingança que Deus não aprovaria, mas que a adoração a este dera origem. Parece, à primeira vista, uma tragédia simples ocorrida num Portugal profundo, católico e machista, num bairro costeiro dos anos 50. A própria disposição cénica do ambiente dá conta disso: uma casa a fazer lembrar as riscas das típicas construções que vemos na Praia da Barra, junto a Aveiro, colocada sobre a areia que domina todo o chão. José Oliveira Barata, especialista na obra de Santareno, chama-lhe “trágico pathos lusitano”, pelo que nela há de drama – no sentido mais popular –, de sangue, de morte, de uma religiosidade que é premente no meio rural, mas que em palco ressalta como fantasmagórica: Avé-Marias em catadupa, xailes negros, purgas populares, exorcismos – tudo isto é a obra de Bernardo Santareno, e tudo isto iniciara aqui, em 1957.

Menos óbvia é a modernidade do questionamento dos papéis de género, orientações sexuais, desejo sexual em múltiplas direções, raivas, invejas e experiências traumáticas. No centro d’“A Promessa” encontramos a figura de Maria do Mar. O destino carrega-o no nome, pertence ao mar, ao país em que nasceu, enevoado, moribundo, místico, misógino. Escrevia Ruy Belo que “o meu país é o que o mar não quer”, aludindo ao corpo de um pescador atirado à costa, e é por aqui que vamos com Santareno, pela forte componente simbólica dos elementos naturais: o mar é a violência sociológica do Estado Novo, ao redor do qual tudo opera inexoravelmente. Na brilhante encenação de João Cardoso, que prima pela simplicidade que o texto também pede, a escuridão inicial é incómoda. Não há luz na casa singela de Maria do Mar, nem em lado nenhum do país ou do interior das personagens. O sogro, encostado numa cadeira, pernas estropiadas pelo trabalho no mar; o cunhado adolescente, Jesus, cego mas visionário, que anunciará a tragédia depois da chegada de Labareda, o cigano, o contrabandista, o “da outra terra”, que é seca, onde não há peixe, mas serpentes, víboras venenosas. É na chegada de Labareda (na troca de tiros com a polícia é ferido, ficando em casa de Maria do Mar a ser cuidado como “manda a Igreja”) que o palco se alumia, o mar se tranquiliza, o sol brilha, e Maria do Mar se anima. A mãe – um país inteiro – culpa-a pela inação do marido na cama, quando nos parece óbvio – e que subtil era e é isto no texto dramático – que o marido não a deseja por ter desejos outros não condizentes com o que se lhe pede socialmente. O mesmo sobressai da personagem de Jesus, que é aparentemente dominado também pelo Labareda – afetivamente? sexualmente? – e que, solta toda a ferocidade contra a cunhada quando sente a ligação entre esta e o cigano. Labareda, jovem atraente e de olhar rebelde, cuja forma de encantamento é um assobiar pausado de “Verdes anos” de Carlos Paredes, simboliza aqui toda uma visão do que é o Outro, do que é a diferença (política, étnica, sexual, cultural), e do impacto que isso tem num todo sociológico amarrado por uma lei inflexível, trágica e abusiva de quem a ela está submetido – a lei da Igreja, a lei salazarista.

Mais para o final, quando tudo se volta a escurecer, enquanto assistimos à indecisão de Maria do Mar entre respeitar um casamento casto mas desonesto, e ceder a um desejo proibido mas verdadeiro, já sabemos que é sobre ela que cairão as culpas. Mesmo apesar do pedido de “flexibilidade” do padre durante a Páscoa, perante uma outra lei – a de gerar descendência –, ou da necessidade que esta tem, perante as insinuações da bisbilhoteiras da aldeia, de defender a honra pública do marido, apesar de tudo isto, é na cena final que está a chave: em frente ao palco, sob o signo das tétricas rezas católicas, o povo julga Maria do Mar, completamente sozinha em cima do palco, cabisbaixa, como uma condenada num pelourinho, exausta perante uma luta que, bem o sabe, estará sempre perdida: a da mulher perante os seus desejos, num ambiente sociológico em que estes são enquadrados moralmente por leis que favorecem os homens – em minúsculas, pois claro.

Assistimos a “A Promessa” no dia 25 de novembro, dia internacional para a eliminação da violência contra as mulheres, poucas semanas após um acórdão de um juiz da própria cidade do Porto – a que, em 1957, a censurara – sobre uma “mulher adúltera”, com referências à Bíblia e a outros lugares do mundo onde desejos sexuais femininos são punidos severamente, e com memória da recente condenação de um ex-ministro da Cultura por violência de género e difamação contra a própria mulher. Esta não é uma tragédia do mundo rural, de aldeias de pescadores, como aqui vimos encenado, ou da Beira Interior (como em “O Crime de Aldeia Velha”, de 1959, tornado filme nos anos 1960). Este 1957 é um aqui e um agora, e, portanto, poderíamos mencionar aqui a nossa relutância em qualificar de convincente Joana Carvalho enquanto Maria do Mar, um papel que, a nosso ver, pelo drama psicológico que implica, mereceria alguém com uma pujança (entenda-se “experiência”) maior, ou do posicionamento dos atores algo caótico e pouco eficiente em algumas cenas, mas parece-nos mais decente apelar ao público que vá ver “A Promessa”, onde quer que ela vá. Porque as mulheres merecem, porque Santareno merece.
Esperamos que este seja só o início e lançamos o repto: “A Promessa” é a primeira parte de um tríptico composto por “O Bailarino” e “A Excomungada”, onde os comportamentos neuróticos só se vão exacerbando, respetivamente por parte de um bailarino homossexual e de uma candidata a freira que sexualiza a ideia de Deus. Porque não manter o ritmo e dar a conhecer ao grande público estas jóias inutilizadas por essas bibliotecas fora?

Foto © João Tuna

Por defeito profissional, Luis Pimenta Lopes escreve de acordo com o novo desacordo ortográfico.

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