home LP, MÚSICA Rato54 e Keso – Musicbox, 16/11/2019

Rato54 e Keso – Musicbox, 16/11/2019

Um Musicbox tímido, receoso e com bastante espaço livre. As pessoas entreolhavam-se, hesitantes. Estava na hora do concerto e todos devíamos estar a sentir que seria uma pena se Rato54 e Keso tivessem vindo do Porto para um concerto vacilante. O beat entrou e tudo se virou para o palco, que viu entrar Rato54 com vontade de mudar aquele feeling. Abriu sem medo as hostilidades e a sala ainda a meio gás em nada influenciou o seu compromisso dedicado, comunicando uma energia que conquistou empaticamente aproximou o público do palco e começou a agitar os corpos e a levantar os braços. Poucos ou muitos, estávamos todos com Rato54.
O seu estilo ácido e visceral foi a banda sonora perfeita para uma sala que foi crescendo, não só em energia, mas também em número de pessoas que entravam e eram impressionadas por uma performance aguerrida de um rapper grato e decidido a conquistar a sua sala. Trazia na bagagem o seu álbum À Solta e foi mesmo à solta que desceu o palco, de microfone em punho, envolvendo um público que não o deixou a cantar sozinho temas como “Gangster” ou “Eles dizem”. O público mais que conquistado, uma sala quente e envolvida. Missão cumprida, com distinção. Rato54 deu tudo e o público rendeu-se. Chegava a hora de Keso.
Keso não gosta de tocar de dia, de calção e chinela em palco aberto. Não está na Florida, diz ele. E de alguma forma, a sua música exige uma certa dose de fumo e escuridão.Assim entrou ele em cena: sombrio, seguramente, mas sem deixar de transparecer um certo orgulho e felicidade pela celebração dos 10 anos do seu O revólver entre as flores, agora editado em vinil. Foi um disco de parto complexo, mas que haveria de o consagrar como um dos mais interessantes e prodigiosos rappers portugueses.Noite de celebração, portanto, com uma sala cúmplice sempre ao seu lado. Keso percorre O Revólver entre as flores e toda aquela gente canta como uma família reunidanuma cerimónia especial. Temas como “Oiçam”, “Na Rua tenho Acústica” ou o “Fumo que eu fumava” eram entoadas de início ao fim por quem assistia. Levanta o vinil ao público, agradece a jornada e prepara-se para a segunda parte do concerto, que agora se centrará em KSX2016 (2016).
KSX2016 foi considerado pelas vozes mais avisadas como um disco clássico mal saiu. É um Keso com profundidade poética, mas mantendo a consciência crítica. Introspetivo, mas sem perder diálogo. Soturno, mas sem abdicar da malícia. Militante, mas sem ceder no lado humano e íntimo que trespassa a sua música. “Gente e Pedra” confirma ao vivo um instrumental que não deixaria indiferente nenhum dos melhores produtores mundiais. “Defeito sério” ou “Broocegroove” conectam-se emocionalmente e de imediato com todos aqueles para quem a crise foi um abalo profundo, para si e para os seus. “Underground” mantém-se um culto espiritual de identificação coletiva. Estas foram apenas três das músicas que uniram uma sala que cantava consigo com uma certa dose de romantismo.
O Musicbox ouviu um Keso entregue e que flutuou seguro nas suas sonoridades sem receios nem fronteiras, onde há cinema e filosofia, estados de alma e diversão, samples cuidados e atenção ao detalhe. Nota-se, aliás, que no diálogo entre os instrumentais que fez e as letras que esbouçou, tudo foi pensado com rigor e pormenor. Três meses de isolamento, na companhia de uma MPC que lhe aparecia em sonhos e que também a nós nos deixou a sonhar. Sentado ou em pé, com ou sem cigarro na boca, sorrindo ou olhando pontos fixos, numa performance ajustada ao que as músicas relatam, Keso está em palco como se estivesse com os seus mais próximos. E público está lá com ele, acompanhando-o fielmente e confiante que o melhor é mesmo o que está para vir.

Por defeito profissional, o João Mineiro escreve de acordo com o novo desacordo ortográfico.

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