home Antologia, LITERATURA Relato de um Certo Oriente – Milton Hatoum (Companhia das Letras, 2018)

Relato de um Certo Oriente – Milton Hatoum (Companhia das Letras, 2018)

Neste Relato de um Certo Oriente, Milton Hatoum mergulha-nos directamente no enredo. Não fomos apresentados às personagens nem às paisagens. Somos arrastados para o íntimo seio de uma família como um convidado contrariado que, sem poder fazer perguntas, vai interpretando os silêncios e as meias palavras. Aos poucos, pegando nas frases desenoveladas, vamos preenchendo os vazios da trama.

A acção acontece em Manaus, plena Amazónia, no meio de nenhures, mais precisamente no interior da casa de família de emigrantes libaneses. A narradora regressa depois de muitos anos – e quem já regressou a casa sabe como os lugares nos identificam, como nos tornamos num ponto centrípeto de uma vida que se concentra em nós.

É essa confluência de memórias que nos é trazida ao longo das páginas. Os corredores que vamos percorrendo são locais de tensões familiares, que nunca são pequenas, nem lineares, muito menos lógicas e frequentemente imperceptíveis a estrangeiros.

O autor vai-nos servindo subtilmente as tensões polarizadoras, entre descrições onde abundam elementos trópico-exóticos que nos ancoram à realidade da selva envolvente:

“Uns diziam que a doença era tratada com um extracto alcoólico de paricá-rana e sapupira do campo. Mas Emilie jurava que, além desse extracto, a terapêutica consistia numa infusão preparada com folhas e casaca da raiz e do caule da jacareúba, da graviola e do araticum-manso”.

Emilie é a matriarca, elemento central da história, católica devota, plena de idiossincrasias, oscilando no seu oposto o marido, um silencioso, austero devoto muçulmano. Há dois gémeos que surgem inseparavelmente como almas danadas, Soraya Ângela, a pária, o tio Hakim, a pequena Samara Délia, companheira de brincadeiras, Hindié, amiga da casa, Emir, um fantasma, Anastácia e o seu tio curandeiro Lobato. Personagens que se cruzam e algumas apenas se adivinham.

Trípoli e Manaus, Alcorão e Bíblia, suratas e orações, o mar e o rio, são os extremos em que Milton Hatoum vai expondo este romance de 1989, um arquitecto brasileiro nativo da cidade palco. O autor premiado é agora (re)editado em Portugal pela Companhia das Letras, num livro cujas 191 páginas não se prestam a uma leitura rápida. É preciso dar tempo para que as paisagens exóticas se entranhem, as personagens vivam e as acções ocorram. É um livro que, pelo seu circuito narrativo, merece ser lido vez e meia – retornar à primeira página e ler outra vez a primeira metade. Há coisas que farão então muito mais sentido.

Texto de Ricardo Sá Pinto

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