home Antologia, LITERATURA Sabrina – Nick Drnaso (Porto Editora, 2019)

Sabrina – Nick Drnaso (Porto Editora, 2019)

Abordar Sabrina com esta tentativa de enquadramento e (esperamos) revelação, é mais difícil do que fazê-lo com um grande clássico russo ou um daqueles livros demasiado maus para qualquer opinião construtiva. Aparte a sua dureza e negritude nunca serem directas – mostrando actos ou imagens violentas – mas antes sugestões destas e das suas consequências, de um Mal maior, invisível e contagioso, é uma obra que, pela sua actualidade e realismo, deixa o leitor angustiado e em alerta. E pior do que isso, mesmo sabendo que um final terrível poderá estar à espreita, colado à página até ao final, como num bom thriller, com o prazer “culpado” de que não nos arrependermos do voyeurismo na privacidade da nossa leitura.
Construído como um conjunto de storyboards cinematográficas, elaboradas em grelha, com um traço de detalhe mínimo, focado na acção/inacção dos personagens (de feições similares, como se tudo o que as individualiza tivesse sido apagado) e nas suas rotinas diárias, deixa à palavra e aos silêncios a primazia. Aliás, o método de trabalho de Nick Drnaso começa sempre pelo texto e estruturação da história, para apenas depois passar ao desenho, como o próprio diz em diversas entrevistas, para tornar o trabalho mais aliciante e fixar o enredo desde o início, evitando dispersões.
A história é bastante simples: dois amigos de adolescência – Calvin e Teddy – reencontram-se nas piores circunstâncias. A namorada de Teddy – Sabrina – desapareceu sem deixar rasto. Teddy, deprimido e limitado às suas funções básicas, foge de Chicago para se refugiar no Colorado, na casa de Calvin, militar da Força Aérea especializado em ciber-segurança, que se debate com alguns problemas familiares. Mais tarde, sabe-se que Sabrina foi assassinada e o homicida se suicidou, porque o próprio envia uma cassette vhs aos orgãos de comunicação com o vídeo do sucedido, tornado viral em tempo recorde. Interessante e revelador é o facto de a irmã de Sabrina – Sandra – ser mantida em segundo plano, como se o autor quisesse protegê-la da exposição desmedida da sua vulnerabilidade, embora seja esta que protagoniza uma das cenas paradigmáticas do livro, em que, numa noite de “microfone aberto” num bar, revela as suas emoções face ao sucedido perante o desconforto de um conjunto de desconhecidos.
Todo o livro se apoia num imperfeito jogo de equilíbrios emocionais, entre momentos de dor e depressão, com as faces inexpressivas e vazias em grande plano ou as longas e agressivas tiradas do locutor de rádio, seguidas da serenidade de uma refeição em casa ou uma caminhada pelo corredor, cenas de Calvin no trabalho ou tentando animar Teddy. O apelo da manipulação sentimental do leitor é evitado com a ausência total de derivas existencialistas ou monólogos interiores, mantendo intacta a eficácia de cada cena através da hábil movimentação de uma “câmara imaginária” nas vinhetas, que captam os planos essenciais à compreensão das personagens e das suas emoções.
As notas autobiográficas são confessadas pelo próprio Nick Drnasso em diversas entrevistas. À época em que criava Sabrina, sofria de ansiedade e pesadelos paranóicos, e procurou servir-se deles para densificar a obra e tentar os tão famosos efeitos terapêuticos da arte. O efeito foi o inverso, conduzindo-o a uma depressão, agravada pela profunda pesquisa preparatória dos meandros das teorias da conspiração e do conspiracionismo, assim como das consequências do crime violento nos sobreviventes. Acaba por ser esta premissa da obra: como reagem os familiares e pessoas próximas das vítimas desta criminalidade, com a brutal cobertura mediática, o frenesim insano das omnipresentes redes sociais e a impossibilidade de verdadeiro isolamento e paz. Calvin é baseado num dos seus melhores amigos, militar e com problemas pessoais similares, que também o recebeu no período mais negro da sua vida. Fotografou a base militar onde trabalhava o amigo para utilizar como modelo para os cenários, assim como as casas antigas de Chicago para as cenas domésticas de Sabrina e da sua irmã.

Publicado originalmente em 2018, o processo criativo de Drnaso iniciou-se em 2014 e revelou-se presciente da realidade que viria a invadir e prevalecer no espectro político e social norte-americano. Depois de terminar  Sabrina em 2017, Drnaso pensou em não o publicar, por ser demasiado negativo e alguns desenhos o deixarem desconfortável. As fake news, a paranoia, o medo infundado do desconhecido, embora bem anteriores, ganharam dimensões decisivas, influindo no presente do seu país. Em casa de Calvin, sem tv e apenas um rádio disponível, é no locutor Albert Douglas (hoje replicado por tantos outros, com destaque interno e internacional) que Teddy encontra companhia e até intimidade, mas também uma explicação para o sucedido, com as teorias de conspiração global que acabam por incluir o homicídio da sua namorada como simulado. Arrepiantes são também as pesquisas de Calvin nas redes sociais e os emails perturbadores que começa a receber (e que Drnaso retrata na perfeição), envolvendo-o na suposta simulação do desaparecimento de Sabrina, entre avisos e ameaças com dados pessoais. A desconfiança de Calvin face a desconhecidos e até colegas de trabalho, assim como a própria animosidade crescente de Teddy face a Calvin, adensam o clima pesado de raiva e banalização dos instintos mais primários e irracionais, que leva o leitor temer constantemente o pior.
Sabrina consegue o feito de nos enredar neste ambiente misto de receio infundado e angústia, mantendo a distância certa dos factos que vai ilustrando e tornando o leitor involuntário participante da história, que conduz delicadamente entre cenas empáticas com personagens tão díspares e imperfeitas como Teddy e Calvin, com as quais partilhamos momentos de verdadeira intimidade e, mais do que isso, vulnerabilidade. Parece uma explicação gasta, porque demasiadas vezes (mal) utilizada, mas não deixa ser precisa. Assistir ao decurso destas vidas enquanto folheamos páginas desenhadas é desconcertante e animador, porque estende o alcance da ficção bem para além dos seus rígidos moldes tradicionais, para nos relatar uma série de momentos comuns, em todo o seu esplendor banal e intransmissível, emprestando rostos a eventos que temos como distantes e concretizando os efeitos reais das abstracções teóricas aberrantes que tantos tomam por verdades absolutas. Nestes tempos de incerteza e obscuridade, que tentamos por todos os meios ao dispor superar e fazer nossos, encontrar arte desta dimensão é reconfortante, mesmo que a própria leitura e partilha de ideias possam parecer exercícios fúteis, infrutíferos e até dolorosos.

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