home Antologia, LITERATURA Sem Nunca Chegar ao Cimo – Paolo Cognetti (D. Quixote, 2020)

Sem Nunca Chegar ao Cimo – Paolo Cognetti (D. Quixote, 2020)

Sem Nunca Chegar ao Cimo – Viagem aos Himalaias marca o nosso regresso a Paolo Cognetti, um dos escritores italianos mais aclamados da actualidade, que conhecemos aquando da publicação do seu segundo livro O Rapaz Selvagem – Caderno da Montanha.
No final de 2017, Cognetti decidiu fazer uma viagem à região de Dolpa, um planalto situado no noroeste do Nepal, onde teria de “superar passagens acima dos cinco mil metros viajando a pé durante cerca de um mês ao longo da fronteira tibetana.” Dessa viagem nasceu este “Sem nunca chegar ao cimo”, o seu terceiro livro. Com o subtítulo de “Viagem aos Himalaias” e desenhos do próprio autor, o livro é um relato em forma de diário de viagem daquela excursão. Acompanhado por dois amigos, Nicola e Remigio, Cognetti parte nesta viagem de despedida do que considera ser a sua juventude (os primeiros quarenta anos de vida), a um remoto Tibete que permaneceu a salvo do tempo: “O Tibete era uma meta inatingível, e não era por questões fronteiriças: invadido pelo exército chinês em 1950, devastado entre os anos sessenta e setenta pela fúria da Revolução Cultural e, por fim, inexoravelmente colonizado pela nova China capitalista, aquele antigo reino de monges, mercadores e pastores nómadas simplesmente já não existia. Contudo existia, ou assim me haviam dito, um pequeno Tibete em terra nepalesa, que sobrevivera devido a um qualquer esquecimento da História. Também nos mapas, Dolpa configura-se como uma anomalia: além, onde o Nepal político, que normalmente se mantém a sul da cordilheira himalaica, supera esta e penetra na imensa zona geográfica do planalto tibetano, há uma região inteiramente acima dos quatro mil metros de altitude, onde nem monções nem estradas chegam, a mais árida e remota e menos populosa região do país.”
O tempo é, de facto, um dos conceitos-chave deste livro a merecer, em vários momentos, uma reflexão por parte do autor. A dado momento, Cognetti conclui que, por aquelas paragens, “a sensação de estarmos a perder tempo transforma-se na necessidade de nos habituarmos a um ritmo diferente da passagem do tempo. Somente quando nos rendemos a isso é que entramos no espírito certo da viagem”.
A viagem de Paolo Cognetti durou cerca de um mês mas podemos ler o seu registo num único dia. Escrito no estilo singular, limpo e elegante do autor, o livro convida-nos a reflectir sobre a beleza das coisas simples, o poder da amizade, o esplendor da Natureza, a viagem interna do autor em busca do seu equilíbrio e o confronto com as suas limitações físicas: “Caminhar era a nossa única missão quotidiana, a nossa medida do tempo e do espaço. Era o nosso modo de pensar, de estar juntos, de atravessar o dia, era o trabalho que os nossos corpos já desempenhavam sozinho. […] Caminha reduzia a vida ao essencial: comida, sono, encontros, pensamentos. Nenhuma invenção da época tinha para nós utilidade enquanto caminhávamos, senão um bom calçado e, no meu caso, um livro na mochila.”.
De forma recorrente, o autor analisa ainda os conceitos de ganhar e perder e as diferenças culturais entre Ocidente e Oriente, que condicionam a valoração que cada um de nós faz daqueles conceitos. Conclui o autor que a cultura ocidental não se coaduna com o modo de vida não só nepalesa ou tibetana mas de todas as montanhas que o Homem se propõe desafiar: “Tal como Sete, era de opinião que os Himalaias se rebelavam contra qualquer mensuração nossa. Apercebi-me de que dizer ganhar e perder pressupõe por si só um sentido económico todo ele ocidental no que diz respeito a ir para a montanha, e em que altitude e distância são os capitais que acumulamos com o nosso esforço, sendo que não nos agrada nada desperdiçar esse investimento.”
Como as suas duas obras anteriores, este livro de Paolo Cognetti fala-nos do “maldito apelo da montanha”, de uma espécie de chamamento mágico que contraria até o mais básico dos instintos: a sobrevivência. “Mas o que faço eu aqui? Porque é que estou aqui a tremer a cinco mil metros de altitude, nada mais em redor senão gelo e escuridão, com o estômago a contorcer-se? Porque é que ao invés não estou em minha casa com a mulher que amo, o jantar em cima da mesa, um pouco de música, uma cama quente? Que significa este maldito apelo da montanha?”.
Mais importante do que as respostas, são as interrogações que o autor coloca. A desconstrução que faz de certezas antigas. Cognetti mostra-nos que, no final de todas as contas, na ficção e na vida, mais importante do que chegar ao cume é a viagem.
Natural de Milão, epicentro europeu da actual pandemia, Cognetti fará bem em continuar a procurar abrigo, inspiração e consolo nas suas amadas montanhas. Resta-nos seguir as palavras de Peter Matthiessen (autor do livro O Leopardo das Neves, único objecto que, a par do cantil, Paolo Cognetti leva consigo na sua mochila e que teria, em parte, inspirado a viagem), e, neste momento de novos e desconhecidos desafios, procurar sentido em cada um dos passos que damos, dentro deste nosso recente e forçado recolhimento:“Parecia-me ouvir a voz de Peter: muda de palavras, dizia-me ele. Muda o modo de pensar. Quem alguma vez viu o monte Kailash do cimo inviolado da Montanha de Cristal? Procura a resposta neste subir e descer: dado que irás perder tudo aquilo que acreditaste que irias ganhar, aprende que muito mais precioso do que o cume é o caminho até ele. Encontra um sentido em cada passo. Dentro deste recolhimento.”

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