home Antologia, LITERATURA Sete Rosas Mais Tarde – Paul Celan (Cotovia, 2017)

Sete Rosas Mais Tarde – Paul Celan (Cotovia, 2017)

A poesia de Paul Celan, escrita na consequência dos campos de morte Nazis, levanta a questão de quão longe a poesia pode ir, se depois dos crimes históricos do século XX, a poesia pode ou deve ser uma atividade central no nosso tempo. O filósofo alemão Theodor Adorno sugeriu que, depois da Segunda Guerra Mundial e do Holocausto, a poesia não só não conseguia ser escrita, como nem devia sê-lo. Para Adorno, escrever poesia depois de Auschwitz seria um acto bárbaro, e o papel do poeta deveria ser de se retirar do seu papel activo para passar a estar discretamente presente, ou mesmo permanecer em silêncio. Paul Celan, poeta judeu de língua alemã, testemunha directa dos campos Nazis, foi sem dúvida o poeta que mais incorporou literalmente o papel que Adorno sugeriu. Celan é o mestre da omissão, da poesia condensada e relutante, o poeta que levou a linguagem poética ao extremo, entre o peso do testemunho e a sombra do desaparecimento. A editora Cotovia reedita três obras há muitas esgotadas de Celan em Portugal: Sete Rosas Mais Tarde, Arte Poética e A Morte é uma Flor, traduzidas por João Barrento e Yvette K Centeno. A primeira destas colecções de poemas, Sete Rosas Mais Tarde constitui uma antologia poética que acompanha toda a vida e a evolução poética de Celan, sendo os poemas traduzidos alternadamente por Barrento e Centeno.

Paul Celan nasceu em 1920 como Paul Antschel, filho de pais judeus falantes de alemão em Czernowitz, Bucovina, região que foi cedida pelo Império Austro-húngaro à Roménia após a Primeira Guerra Mundial. O mundo da sua infância reflecte a influência das tradições e culturas judaicas, mas também da língua e literatura alemã. O seu pai era um construtor, um sionista acérrimo por quem Celan não tinha muita simpatia; a sua mãe, com quem tinha uma relação muito mais próxima, lia-lhe os clássicos da literatura alemã desde novo. Na sua infância, ele amava a poesia de língua alemã, primeiro Goethe e Schiller, depois Hölderlin, Heine, Trakl, e particularmente Rainer Maria Rilke. Crescendo num meio multicultural da Europa de Leste, ele falava fluentemente alemão, hebraico, romeno e iídiche, e traduziu desde cedo poesia a partir do russo, inglês, francês e italiano. Em 1938, mudou-se para França para estudar medicina em Tours, mas voltou à Roménia no ano seguinte para estudar Literatura e Filologia.

Na Segunda Guerra Mundial, Czernowitz foi ocupada primeiro pelas tropas russas e depois pelos alemães e pelos seus aliados romenos em 1941. A família Antschel foi colocada pelos alemães num gueto, de onde saíram passados uns meses. No entanto, no Verão de 1942, quando Celan estava ausente, os seus pais voltaram a ser levados para um campo de trabalho. Após poucos meses, o seu pai morreu no campo de febre tifoide, e a sua mãe foi assassinada pelos alemães, por ser incapaz de cumprir os trabalhos forçados que lhe exigiam. O próprio Celan sobreviveu dois anos noutro campo de trabalhos forçados, regressando a Czernowitz em 1944, quando os Soviéticos tomaram Bucovina. A sua experiência no campo de trabalho e o assassínio dos seus pais tornou-se na experiência mais definidora da sua vida. Nessa altura, Paul Antschel inverteu as sílabas do seu último nome para se tornar o Paul Celan, um novo nome para um poeta sozinho no mundo.

Em 1947, mudou-se temporariamente Viena e no ano seguinte fixou-se definitivamente em Paris, onde ensinou alemão na École Normale Supérieure até ao final da sua vida. Em Paris conheceu e mais tarde casou com a artista gráfica Gisèle de Lestrange, uma figura decisiva na sua vida e na sua evolução poética. Ao longo dos anos visitou a Alemanha regularmente, para estar presente em leituras dos seus poemas e para receber prémios literários, e visitou uma vez Israel, uma experiência curta mais intensa. Num dia incerto de abril de 1970, quando tinha 49 anos, afogou-se no Rio Sena em Paris.

O destino da família de Celan é o destino de muitas famílias Judaicas na Europa do século XX: o destino final do espírito judeu na Europa. Celan dedicou o seu volume A Rosa de Ninguém ao poeta judeu Russo Ossip Mandelstam, cujos poemas ele já tinha traduzido e publicado. Numa nota introdutória para uma coleção do seu adorado Mandelstam, Celan sugere que o poeta Russo não morreu em 1938 como prisioneiro politico na Sibéria, mas morreu 1941, partilhando o destino de tantos outros judeus na Europa ocupada pelos exércitos de Hitler. Celan escreveu a sua poesia na sua língua materna alemã, que era literalmente tudo o que ele tinha conservado após o Holocausto, apesar de esta se ter tornado também a “língua dos assassinos”. Celan tinha um sentido de afinidade natural com o também judeu Franz Kafka, que tinha comentado as três impossibilidades: “a impossibilidade de não escrever, a impossibilidade de não escrever em alemão e impossibilidade de escrever de forma diferente”. Celan incorporou estas ambiguidades na sua poesia, tornando-as motivos para uma experimentação profunda da sua linguagem poética e da própria língua alemã.

A tentativa de Celan de intersectar activamente a estética e a ética, define a sua poesia como um meio de reflexão para os problemas da linguagem e da história do século XX. Para Celan, os poemas nunca podem ser reduzidos a conceitos de poesia pura, nem a poesia deve privilegiar apenas a parte formal do poema, como se não tivesse sido tocada pelos crimes e tragédias do século XX. No poema A Fuga da Morte, é mencionada, num estilo austero, a perseguição aos judeus durante o Holocausto, da morte que veio da Alemanha:

… Leite negro da madrugada bebemos-te de noite

bebemos-te ao meio-dia a morte é um mestre que veio da Alemanha

bebemos-te ao entardecer e pela manhã bebemos e bebemos

a morte é um mestre que veio da Alemanha azuis são os teus olhos

atinge-te com bala de chumbo acerta-te em cheio

na casa vive um homem os teus cabelos de oiro Margarete

atiça contra nós os seus cães oferece-nos um túmulo nos ares

brinca com as serpentes e sonha a morte é um mestre que veio da Alemanha

os teus cabelos de oiro Margarete

os teus cabelos de cinza Sulamith” (página 17)

Esta linguagem contrastante captura o sentido irrecuperável de perda durante o Holocausto. A partir da década de 1960, Celan é afectado por um retornar de sentimentos antissemitas que emergem na Alemanha e noutros países da Europa, não apenas na direita política, mas também na esquerda. Como resposta, termos de origem judaica passam a ser comuns na sua poesia, onde também se encontra uma canção de gueto em iídiche (língua dos judeus da Europa Central e de Leste), e a descrição de nomes de aldeias judaicas desaparecidas do Leste da Europa. Celan disse a uma audiência alemã em 1958, quando recebeu o prémio literário de Bremen, que “a sua terra natal Bucovina era uma região onde os seres humanos e os livros costumavam viver”; o destino da sua cultura judaica desparecida domina-o, e é uma marca distintiva da sua escrita.

Celan não era um grande especialista em assuntos judaicos religiosos, mas a frequência da escola Hebraica durante a sua infância, e a leitura de escritores de que tratam o misticismo judaico, como Gershom Scholem, permitem-no encontrar formas de adaptar imagens da tradição religiosa e do misticismo judaico na sua poesia. Este misticismo e simbolismo judaicos são particularmente abordados na vertente da destruição humana, linguística e cultural que teve lugar no Holocausto. Esta perda irrecuperável é demonstrada na escolha de diferentes motivos associados à cultura e à religião judaica, nomeadamente a palavra amêndoa, associada aos olhos dos judeus, e ultimamente ao próprio povo judeu:

Na amêndoa- o que está na amêndoa?

O nada.

Está o nada na amêndoa.

Aí está e está.

No nada-quem está aí? O Rei.

Aí está o Rei, o Rei.

Aí está e está.

Madeixa de judeu, és imortal.

E os teus olhos – para onde estão voltados os teus olhos?

Os teus olhos estão voltados para a amêndoa.

Os teus olhos, para o nada estão voltados.

Para o Rei.

Assim estão e estão.

Madeixa de homem, és imortal.

Amêndoa vazia, azul real.” (página 111)

Celan combinou ao longo da sua evolução poética história e experiência pessoal, e tornou a sua escrita uma declaração poética universal, adoptando mesmo uma epigrafe da poeta russa (não judia) Marina Tsvetaeva: “Todos os Poetas são Judeus”.

Na sua poesia mais tardia, a tendência de Celan de usar uma linguagem poética cada vez mais vanguardista torna-se aparente, influenciada pela linguagem poética surrealista. O poderoso condensado vocabulário de Celan, a marca do seu estilo inicial, já é evidente nos seus primeiros dois volumes de poemas Papoila e Memória e De Limiar em Limiar. Assim que os seus poemas evoluem, a incidência de imagens fortemente contrastantes como “leite negro” e “ balas de chumbo” de Fuga da Morte torna-se menos comum, ao mesmo tempo que há uma depuração e uma condensação ainda maior da sua linguagem poética. A sua rejeição de uma sintaxe convencional, é também resultado de um sentido duplo de pertença e de conflito com a sua língua materna alemã, língua que Celan transforma e recria continuamente. Uma das suas colecções de poesia chama-se precisamente Die Niemandrose (A Rosa de Ninguém), um dos seus muitos neologismos em alemão que não consegue ser traduzido literalmente para português. Celan parece tornar-se um poeta que não tem existência excepto nas palavras que ele cria.

No seu terceiro volume de poemas: Grelha de Linguagem, Celan utilizou termos técnicos de muitas disciplinas cientificas, incluindo da geologia, mineralogia, geografia, química, física nuclear, anatomia, fisiologia e medicina, ao mesmo tempo que criou os seus próprios neologismos. Os seus neologismos e vocabulário não convencional são uma forma de originalidade criativa, e constitui a busca de um poeta pós-apocalíptico no caos da linguagem. Isto é uma das razões porque Celan é simultaneamente um dos autores favoritos para críticos, e um desafio para os tradutores.

Embora a sua poesia fosse alvo de acusações de hermetismo, Celan estava muito preocupado que a sua poesia fosse compreendida e respondida activamente pelo leitor. O poema é para Celan a forma de um diálogo que procura a ligação entre o sujeito poético e o leitor, entre o “eu” e o “tu”. A leitura da poesia de Celan é necessariamente um processo activo, em que o leitor é interpelado a ser um descodificador da sua linguagem altamente simbólica, e revelar a ambiguidade das acções humanas e da sua natureza contraditória:

Fala também tu,

fala em último lugar,

diz a tua sentença.

Fala-

Mas não separes o Não do Sim.

Dá a tua sentença igualmente o sentido:

dá-lhe a sombra.

Dá-lhe sombra bastante,

dá-lhe tanta

quanta exista à tua volta repartida entre

a meia-noite e o meio-dia e a meia-noite.

Olha rem redor:

como tudo revive à tua volta!-

Pela morte! Revive!

Fala verdade quem diz sombra.

Mas agora reduz o lugar onde te encontras:

Para onde agora, oh despida de sombra, para onde?

Sobe. Tacteia no ar.

Tornas-te cada vez mais delgado, irreconhecível, subtil!

Mais subtil: um fio,

por onde a estrela quer descer:

para em baixo nadar, em baixo,

onde pode-se ver a cintilar: na ondulação

das palavras errantes.” (página 67)

Neste conjunto das “palavras errantes” e fragmentadas, pode constatar-se que poucos poetas como Celan permitiram que a sua linguagem fosse sujeita a uma tal desintegração abrupta. Ao longo dos anos, a sua poesia parece caminhar magnificamente para o nada, para o silêncio, uma forma de espiritualidade invertida que comemora a perda e a ausência. Isto é revelado no poema O Salmo, entre tantos outros dos seus últimos poemas:

Ninguém nos moldará de novo em terra e barro,

Ninguém animará pela palavra o nosso pó.

Ninguém.

Louvado sejas, Ninguém.

Por amor de ti queremos

florir.

Em direção

a ti.

Um nada

fomos, somos, continuaremos,

a ser florescendo:

a rosa do Nada, a

de Ninguém.

Com

o estilete claro-de-alma,

o estame ermo-de-céu,

a corola vermelha

da purpúrea palavra que cantámos

sobre, oh sobre

o espinho.” (página 103)

Os poemas de Celan são testemunhas de pessoas que foram brutalmente eliminadas, de lugares que já mais ninguém conhece, de tradições que já nada significam. As suas palavras moram na fronteira do indizível, no limite extremo da linguagem: uma tentativa de criação após a destruição. Num mundo que continua cheio de pessoas à mercê de forças devastadoras libertadas pela história, Celan ainda tem hoje muito para nos dizer. É neste sentido que os poemas de Celan continuam a ser perturbadoramente modernos e necessários.

Por defeito profissional, Jorge Ferreirinha escreve de acordo com o novo desacordo ortográfico.

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