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Sobras Completas – José Manuel Simões

“A poesia pode sobreviver. O corpo é que não. De qualquer forma a juventude não se tem. A juventude conquista-se. Enquanto se tem corpo.” – Helder Macedo ao Observador

Como quase tudo e todos que gravitam em torno da Poesia em Portugal (excepto os seus verdadeiros cultores, os poetas e dizedores, os desconhecidos que o fazem por carolice e amor à sua Arte), o chamado “grupo do Café Gelo” foi-o sem o querer ser, assim como quase toda a quase hagiografia que lhe surge associada, esquecendo-se tantas vezes a espuma daqueles dias, em que a palavra e a expressão artística se encontravam esmagadas pelo idoso que pisava todo um País e tardava em caír da cadeira. Sobra a Arte que produziam e trocavam entre si incessantemente, quando tudo conspirava para que se rendessem à modorra da submissão.
A ironia é que os próprios sempre renegaram essa glorificação, como atestam os sobreviventes dessa geração, especialmente Helder Macedo. Foi a ele que José Manuel Simões entregou em mão um envelope de papel com as palavras “Sobras Completas”, onde constavam os textos que compõem este opusculo da Abysmo, um aperitivo para a edição já anunciada de um “amplo volume sobre o “Grupo do Café Gelo” (…) em preparação para ser publicado em breve. As sobras de todos nós ficarão mais completas.”, revela-nos o intelectual no Prefácio.
Quanto ao autor, José Manuel Simões (JMS) foi o único que deixou o breu de Portugal pela luz de Paris, para não mais regressar, ao contrário de todos os seus contemporâneos, exilados no seu próprio País durante o resto das suas existências. Cesariny só agora, dez anos depois da sua morte, teve o féretro que desejava e que tanto fez por merecer. “Mais vale tarde do que nunca”, dirão alguns. A resposta: Eusébio no Panteão Nacional, meses depois da sua morte. Caso encerrado.
JMS deixa-nos uma obra diversa, enquadrada em capítulos distintos, desde a produção poética (“O Mar Ausente”), à tradução (“Artigos de Importação”) e à prosa (“Coisas Prosaicas”).
Em todas as suas facetas, mostra-se um hábil artesão da palavra e o lamento é apenas que a obra que agora nos chega não seja mais extensa, porque haveria com certeza em si muito mais que deixar para a posteridade. “Testemunho de um grande poeta que deu aos outros poetas a sua poesia, em vez de ser ele próprio a escrevê-la.”, como revela António Barahona, o outro sobrevivente dos infames do Gelo. Mas aconteceu a Vida, onde as escolhas se impõem à Arte, nem sempre suficiente para sobreviver ou sequer apaziguar a inquietude, que ardia nos cigarros sucessivamente acesos que consumia e acabaram por o consumir.
“Há poetas que escrevem uma obra. Outros são a obra que poderiam ter escrito. Quando estes morrem, as suas obras ficam completas. O que deixarem escrito são as sobras.”, prefacia Helder Macedo.
Esta é uma das “Sobras” de José Manuel Simões.
Como seria a sua obra prima?

Pleno Vácuo
Repleto no oco do que ao longo
dos braços que o não contêm
se escoa, perde e anula,
o estar presente é não já acto
mas dádiva, porque ao não ter
dou de mim o espaço, emblema
de nos ouvidos e no sangue
poder conter amor, sexo, distância
a pôr entre os que para sempre
e desde sempre sabem
qual o longe de ter ao pé
a solidão que os move e excede
e não dá ao corpo e sossego
de abandonado se jazer e imóvel
dizer não à eternidade.

(Texto publicado em deusmelivro.com)

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