home Didascálias, TEATRO Sócrates Tem de Morrer/A Vida de John Smith – Teatro S. Luiz, 6/12/2018

Sócrates Tem de Morrer/A Vida de John Smith – Teatro S. Luiz, 6/12/2018

O Teatro Municipal São Luiz abre as portas para os dois episódios de autoria e encenação de Mickaël Oliveira, com produção do Colectivo 84Sócrates Tem de morrer e A Vida de John Smith, que podem ser vistos juntos ou separadamente. Vimo-los de seguida, porque assim fez sentido, também por receio que qualquer hiato de tempo pudesse ferir a análise do discurso de Sócrates, levada ao absurdo, às últimas consequências.
Em Sócrates Tem de Morrer, debatemo-nos entre o desconforto do conhecimento prévio da vida e obra do filósofo e a contemporaneidade do cenário, linguagem, adereços e personagens, mas o triunfo da peça advém deste equilíbrio entre a fidelidade à essência dos ensinamentos socráticos (questionando o mestre sobre as verdadeiras razões da sua opção pela morte) e a sua actualização. Pensamos fazer tábua rasa desse conhecimento – porque estava lá tudo como agora: as mesmas estupefacções, a dúvida perante a vida e seus desígnios, a ânsia pelo conhecimento e a ignorância sobre os mistérios do corpo e da alma. A incómoda disrupção é brilhante! O desconforto é o motor necessário à aceitação de que, no essencial, nada mudou.
A filosofia de Sócrates (por via de Fédon, escrito pelo discípulo Platão) o desapego do corpo, por este se constituir como empecilho à evolução da alma, o acesso à verdade e ao conhecimento, conclui-se, pode ser chamado de ideário terrorista – «E um fundamentalista sem medo da morte é um terrorista. É por isso que foste condenado e que vais morrer.» – diz Ana.

Dos fundamentos socráticos surge, com uma naturalidade e lógica quase obscenas, um plano para salvar a Humanidade do obscurantismo: morte após morte, vida após vida, a fé na possibilidade da memória, na reminiscência da alma, que transporta consigo o conhecimento, a individualidade, o selo.
«- Sócrates, a reminiscência não é infalível, tens razão.
Mas também acho que não nos esquecemos do mais importante de um corpo para o outro. A nossa alma não é o que nós somos independentemente das nossas circunstâncias físicas?».

Se os caboucos de uma Academia Socrática ficam firmados em Sócrates Tem de Morrer, A Vida de John Smith surge como o culminar dos seus planos e obra. Os reencarnados, condenados à morte eterna pelo aprisionamento da alma a um só corpo, despertam num futuro ficcionado, consequente do desenvolvimento de uma teoria fundamentalista, numa realidade que se espera perfeita (ou, pelo menos, mais perfeita). Sócrates é John Smith, um simplório, agarrado à vida, ou à memória dela, e a Grace.
A análise à suposta evolução da Humanidade, os óbices ao Conhecimento, à Verdade, a linguagem e a distância entre o que pensamos, nomeamos e dizemos, a interpretação e as metáforas (matem os poetas!), a distância m (onde mora a poesia), surgem representados pela dicotomia entre o atraso dos “adormecidos” e omnisciência dos “evoluídos”. Não é necessário medir, representar, descrever, apenas ser e vivenciar o que é. As ciências atrasam o “Homem”, são deploráveis e infantis tentativas que obstaculizam ao progresso.
A figura de John Smith, porque mais humana e próxima, é comovente. Albano Jerónimo, transfigura-se entre episódios do arrogante e cínico Sócrates, num homem mediano, um anti-herói, certo da sua simplicidade e da vontade de ser quem julga ser, renegando aquela realidade que não reconhece ou aceita porque se afastou incomensuravelmente da essência do Homem, das suas características, da sua “alma”.
O Homem não foi criado para trabalhar mas para pensar, conceber ideias e arquétipos. Mas o arquétipo do futuro é, afinal, doloroso e lamentável. As semelhanças subsistem no mais condenável: a existência de elites e a necessidade do extermínio para a sobrevivência dos escolhidos.

No planeta John Smith não há líderes nem liderados, mas persistem os oponentes; não há fome nem doença, mas morreu a esperança. Sobretudo, há falhas: os mal reencarnados, os mortos-vivos, que quando morrem já não reencarnam, moral de uma certeza incontrolável – a sobrevivência adaptativa da Natureza, o Mistério que escapa ao Homem na Grécia Socrática, escapar-lhe-á, percebe-se, eternamente.
A proposta de infinito, a elite de uma espécie de deuses em carne débil e fraca, esbate-se perante um apelo maior: o amor de uma mãe pelo seu filho, o amor de um homem por uma mulher, a família, a vontade incontornável de o Homem ser emoção e linguagem, perigoso construtor de utopias que, a realizarem-se, serão comprovadamente o seu maior infortúnio.
Numa nota pessoal, uma referência, por demais merecida, aos momentos de música em ambos os capítulos. Diogo Ribeiro e o Coro Lopes-Graça da Academia dos Amadores da Música, dirigido pelo maestro José Robert, que recordo com saudade dos tempos do coro da Universidade de Lisboa.

Foto © Bruno Simão

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