home LP, MÚSICA The Divine Comedy – Aula Magna, 7/11/2019

The Divine Comedy – Aula Magna, 7/11/2019

À hora marcada, entre um público eclético numa Aula Magna esgotada, sentámo-nos expectantes para o primeiro dos três concertos em Portugal dos The Divine Comedy, há quase 30 anos o veículo da música pop peculiar, muitas vezes conceptual, de Neil Hannon. Office Politics é o título do seu último trabalho e a razão para a digressão europeia que acaba em Portugal. O leitmotiv deste álbum, que o título deixa antever, é o da labuta diária e da falta de sentido do trabalho, da verdadeira rat race enquanto corrida infinita para lado nenhum. A inspiração terá chegado com um sintetizador que Neil Hannon recebeu como presente no último Natal. O “brinquedo” tornou-se, entretanto, uma obsessão para o músico norte-irlandês e o resultado foi este disco. No entanto, isso não significa que os The Divine Comedy, se tenham tornado uns novos Kraftwerk, muito pelo contrário. Com exceção do devaneio eletrónico da faixa “The Synthesiser Service Centre Super Summer Sale”, Office Politics tem tudo aquilo que se pode esperar de um disco dos The Divine Comedy: um conjunto de temas pop perfeitos (e, por isso, intemporais) e letras tão profundas quanto bem-humoradas.
Imagem viva do título do álbum, o palco montado para a actuação da banda britânica transporta o público para um qualquer escritório londrino, destacando-seduas portas com painéis de vidro, com os dizeres “In” e “Out”, uma secretária com um PC (saído directamente dos anos 90) e um enorme relógio parado nas 21h (que vai avançando à medida do concerto).
Após alguma confusão com as portas,a banda entra no palco e Hannon atrasa o relógio para o ano de 1993, dando início ao espetáculo com “Europop”, do albúm Liberation. No entanto, e como nem sempre acontece em bandas já consagradas, foi Office Politics o trabalho dominante da noite. “Queuejumper”, o seu single de apresentação (divertida canção sobre um condutor que só vê “luzes vermelhas”, mas passa à frente de toda a gente por se sentir melhor e mais esperto do que os mortais à sua volta, envolvida num instrumental que dá vontade de saltar da cadeira e começar logo a dançar), seguiu Europop perfeitamente.
É difícil acreditar que Fin de Siècle e o seu single de apresentação “Generation Sex”, tenham agora vinte anos, desde logo porque não lhe encontramos qualquer marca da passagem do tempo. Seguiu-se “Commuter Love”, onde as cordas assombrosas e a bateria tornaram a letra «She doesn’t know I exist» ainda mais melancólica. Este belo momento de baladas termina com “Norman and Norma”, um clássico instantâneo do novo álbum.

Definitivamente os trinta anos de experiência assentam-lhes bem. As novas canções de Office Politics, provaram ser mais do que um salto de inovação na música electrónica de dança. São liricamente inspiradoras e despertam-nos os sentidos. Por exemplo, “When the working day is done”, ilustra bem os desafios dos padrões modernos de trabalho, e pode considerar-se tão poderosa quanto a “Workin Class Hero” de John Lennon.
Ao longo da noite, Neil Hannon vai cativando o público com uma piada aqui e ali, mas com a sua forte presença em palco não precisa de muito para captar a nossa atenção. Aos quarenta e oito anos, Hannon aperfeiçoou o equilíbrio entre ser um excelente cantor, compositor e intérprete, sem se levar muito a sério. Também nos mostrou que ainda tinha algo a dizer e algo novo para tocar.
“The Synthesiser Service Centre Super Summer Sale”, um catálogo estridente de máquinas antigas com apelo nostálgico óbvio e próxima das peças do compositor alemão Stockhausen, ganha outra vida em palco. Um pouco de ironia em “Infernal Machines”, seguido por “You’ll Never Work in This Town Again”, antecedem a officeparty, que naquela noite foi ainda mais especial, já que era o dia de aniversário de Hannon (com direito a um Happy Birthday entoado em uníssono pela Aula Magna).
A secção de festas do escritório, com os músicos devidamente equipados com chapéus e balões, começou com “At the Indie Disco”, rapidamente seguida por “I Like” e a inevitável “National Express”, música pop clássica, que garante um público sorridente e a dançar de forma entusiástica.
“When The Working Day Is Done”, fechou o set e Hannon usa isso como oportunidade para encerrar a peça que encenou. Vários roadies, com casacos e chapéus castanhos, entram no palco após a saída da banda e desmontam parte do cenário, desculpa perfeita para que, depois de encerrado o dia no escritório, o encore seja acústico. Aqui a banda deixa para trás o Office Politics e apresenta três dos hinos favoritos dos fãs: “Your Daddy’s Car”, “Songs of Love” e “Tonight We Fly”.
Hannon está realmente no seu melhor, cercado por músicos exímios (lembrando as agradáveis harmonias um verdadeiro barbershop quartet), que servem de plataforma perfeita para a sua maravilhosa faixa lírica e vocal e que nos conduzem para um final digno de uma noite de maravilhosa música pop.

Alinhamento:
Europop
Queuejumper
To Die a Virgin
Generation Sex
Commuter Love
Office Politics
Norman and Norma
Becoming More Like Alfie
To the Rescue
The Synthesiser Service Centre Super Summer Sale
Infernal Machines
You’ll Never Work in This Town Again
At the Indie Disco
I Like
National Express
Absolutely Obsolete
After the Lord Mayor’s Show
A Lady of a Certain Age
Absent Friends
When the Working Day Is Done
Encore:
Your Daddy’s Car (acoustic)
Songs of Love (acoustic)
Tonight We Fly (acoustic)

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