home Antologia, LITERATURA Três em Linha: O Senhor Walser e a Floresta/O Senhor Brecht e o Sucesso/Breves Notas sobre Literatura – Bloom – Gonçalo M. Tavares (Relógio D´Água, 2018)

Três em Linha: O Senhor Walser e a Floresta/O Senhor Brecht e o Sucesso/Breves Notas sobre Literatura – Bloom – Gonçalo M. Tavares (Relógio D´Água, 2018)

Com estas recensões, inauguramos a rubrica Três em Linha na INTRO, onde cruzaremos três itens que, por razões que fundamentaremos, juntos são vitória segura no jogo das escolhas culturais. Começamos com os três livros mais recentes (2018) do prolífico e aclamado escritor Gonçalo M Tavares, recentemente anunciado pela Relógio D´Água como autor da casa, passando a concentrar toda a sua obra neste prestigiado selo editorial português. As publicações correspondem a dois caminhos da sua escrita multidimensional, desligada de rótulos e interpretações (que ironicamente, por ossos do ofício, aqui tentaremos atribuir). O Senhor Walser e a Floresta, juntamente com O Senhor Brecht e o Sucesso, enquadram-se na série “O Bairro“, em constante crescimento com os seus alter-egos imaginados de escritores famosos, de onde partiram já diversas peças teatrais, curtas cinematográficas e até especiais de rádio. Na forma de inocentes opúsculos, que quase parecem literatura infantil, sempre acompanhados pelos belos desenhos de Rachel Caiano, Gonçalo M. Tavares constrói, com precisão, personagens masculinas imediatamente identificáveis pelos seus tiques especiais, pensamentos peculiares e pela sua solidão (quase sempre voluntária, ou decorrência da sua personalidade), integrada já como habitual, indício de um mal maior, grande vírus (sim, é contagioso) das sociedades contemporâneas: o isolamento nos grandes conglomerados populacionais e urbanos, como os bairros ou os prédios de habitação, em que a verticalidade física anula a realidade circundante e desintegra a individualidade. Os olhos e a mente dispersos divagam entre os diversos ecrãs, o corpo preso entre as actividades mundanas, os movimentos repetidos incessantemente e os bloqueios auto-impostos, sem espaço para a intimidade com o Outro. Tavares resgata esse Eu perdido da voragem imparável do progresso, eternizando aqueles de que nunca rezerá a história, porque insignificantes perante o abstracto sentido da Vida, entendido como reinante.

Já em Breves Notas Sobre Literatura – Bloom – Dicionário Literário, com o jocoso subtítulo “Uma das muitas maneiras (definitivas) de fazer literatura“, Tavares serve-se do formato fechado e rigoroso do dicionário para dele fazer repositório de tudo o que a (boa) escrita pode e deve conter, inventando significados e significantes para os signos-palavras, que todos os dias temos como unívocas, numa demonstração cabal de como toda a linguagem é necessariamente um meio e nunca um fim cristalizado e previsível. Com a definição de “Abstracto”, o livro abre com uma verdadeira declaração de intenções, condensando num parágrafo o primeiro mandamento da Literatura, segundo Gonçalo M. Tavares/Bloom: «Toda a literatura é abstracta, concretas são as pedras. Não aceitar isto é aceitar a literatura como copiadora do concreto, como uma segunda mesa, ou uma segunda casa. (…) A literatura tem objectos próprios, completamente distintos dos que existem na vida dos vivos. Não confundas um escritor com um arrumador de mobílias.» Por todo o livro encontramos estes adágios, construídos entre a ironia e o humor, o jogo de palavras e a construção constante de um todo sempre inacabado, que se renova e reinventa a cada frase. No entanto, com alguma atenção, vai sendo possível encontrar coordenadas transversais às 61 definições. O movimento constante, a exploração dos extremos e das margens, o culto organizado da indefinição e do acaso, mas também da lógica e da racionalidade, desprovidas de sentimentalidade, “gorduras” adjectivas, personalização ou falsa densidade. A urgência em escrever a palavra última e ser lido, não de forma imediata, mas apenas após o primeiro impacto com as palavras. «Diz rapidamente o que tens a dizer» e «Escreve cada frase como se fosse a última que o leitor lê.» (pg. 56 e 57) e, simultaneamente, o efeito que deverá ter a “literatura-Bloom”: «Percebo todas as palavras, mas não totalmente o texto.». Cada palavra deverá ser o que é o seu contrário, criar tensão e mudança, pois só daí se realiza a verdadeira literatura, na incerteza e na busca de sentido(s).

Nos “Senhores”, vemos este regulamento literário levado à prática de forma rigorosa. Em O Senhor Brecht e o Sucesso, o protagonista conta histórias, que dirige a uma sala que vai enchendo. Como na obra do seu homónimo teatral, o absurdo e o humor que dele transpira são a nota dominante, com textos curtos estruturados como anedotas, em que há uma premissa e depois o final desconcertante (a punch line), raramente uma conclusão definitiva, que essa é do interlocutor. Descortinam-se padrões familiares de comportamento, a natureza humana na sua previsível normalidade, sem qualquer introdução e, como tal, ainda mais eficazes e tensos. A burocracia, o (nem sempre) livre arbítrio, a estranha atracção pelo irracional primeiro impulso, a incapacidade de escapar ao vórtice, a espaços desesperante, de existir hoje, aqui e agora, e a ridícula pequenez de tudo isto, que insistimos em glorificar e aceitar sem questionar. «Era uma livraria que vendia um único livro. Havia 100 mil exemplares do mesmo livro. Como em qualquer outra livraria, os compradores demoravam-se, hesitavam no número a escolher.» (pg.35)

O Senhor Walser e a Floresta encontra um homem e um projecto, e as tropelias para o ver realizado. Tal como o verdadeiro Walser, também este anseia pela distância do Mundo, embora estranhamente esperando, com a recém concluída casa na floresta, vencer a solidão e a banalidade. «Quando fechava a porta atrás de si, Walser sentia virar as costas à inumana bestialidade (…) uma casa no meio da floresta, eis uma conquista da racionalidade absoluta.» (pg. 17) «(…) a casa simples, sem nada de luxuoso ou ostensivo, uma mera casa para viver a de Walser, homem que se encontra, por enquanto, sozinho no mundo, mas que vê naquela construção finalmente terminada (…) uma oportunidade para no fundo, sejamos sinceros, encontrar companhia.» (pg. 13). No entanto, quando tudo está finalmente preparado para que possa usufruir do espaço, sucedem-se os impedimentos a esse desiderato. Mas a esperança não esmorece. Walser «Tinha grandes expectativas.» (pg.41). Com ele, como connosco, quase nunca a realidade corresponde à ideia e ao sonho.

Em jeito de conclusão, ocorre-nos uma frase do Dicionário Literário «…não deves fazer uma pessoa perder tempo.» O trabalho de Gonçalo M. Tavares fala a muitos porque, bem para além do timbre literário imediatamente identificável, escreve a contemporaneidade como nenhum outro. Mascarado de simplicidade e estilo directo, por vezes agreste de tão despido de todo e qualquer ornamento, encontramos um trabalho hercúleo de criatividade, edição e desbaste, destacando a singularidade de cada vocábulo e a importância do papel do leitor como derradeiro reduto da obra literária, deixando-lhe apenas as peças essenciais para que reorganize e absorva o texto a gosto . Gonçalo M. Tavares é o protótipo do não-autor, não no sentido do datado “assassino” Barthes, mas como entidade meramente simbólica e referencial. As entrevistas raras reforçam esta ideia de que a sua presença se limita conscientemente ao acto criativo, para depois se dissipar, como um espantalho num campo recém cultivado, que, na sua imobilidade, consegue guardar as sementes que germinam no húmus que é a mundividência e sensibilidade do leitor ideal da sua obra.

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