home Antologia, LITERATURA Tu não és como as outras mães – Angelika Schrobsdorff (Alfaguara, 2018)

Tu não és como as outras mães – Angelika Schrobsdorff (Alfaguara, 2018)

Perante o evidente chorrilho de publicações sobre o Holocausto, esse chamariz garante de resultados abastados no mercado livreiro, urge separar o trigo do joio. Este Tu não és como as outras mães, escrito por Angelika Schrobsdorff, é um dos recomendáveis, tanto para um leitor interessado na historiografia do nazismo como para corações mais bovarianos. Dando seguimento à hibridez do registo biográfico e pós-memorial comum à literatura de sobreviventes do Holocausto e seus descendentes, chamar-lhe-emos, ao largo das minúcias da genologia literária (que a própria literatura de sobreviventes veio desafiar), romance de formação. No caso, o de uma alemã judia, femme fatale de entre guerras, determinada a viver uma vida “completamente diferente” da versão espartilhada que a família burguesa berlinense lhe tem destinada: “Desde sempre sentira-se seduzida pelo que era ‘completamente diferente’. O ‘completamente diferente’ era o mundo grande, livre, cristão e as pessoas que a ele pertenciam.” Esta mulher é Else, a mãe da autora, cujas peripécias se estendem ao longo de quase seiscentas páginas pela mão da filha, que a partir do momento do próprio nascimento oscila entre a 1ª e a 3ª pessoa, em alguns momentos assumindo a autobiografia, noutros a qualidade de personagem para-fictícia da história da mãe. Pelo caminho figuram registos diarísticos e fotográficos de Else, e correspondência entre si e outras figuras do romance que os avós lhe deixaram num livro sobre a “Vida da nossa filha Else”, e que a amiga da mãe Enie lhe entregou um dia: “Leva e faz qualquer coisa com isto”. O resultado é híbrido, já o dissemos. Inclui até guiões de textos dramáticos imaginados por Else, potenciais peças de teatro desenhadas ao sabor dos acontecimentos da própria vida, e que Angelika utiliza como fonte. Quando é que o sinaliza diretamente e quando é que simplesmente o recria pela sua mão? O que é ficção e o que é real?

O título alimenta uma outra ambiguidade. Uma mãe como as outras seria uma alemã ariana, intocada pelos acontecimentos políticos do seu tempo? Else é diferente por ser judia? Ou uma mãe como as outras seria a filha que os pais Daniel e Minna teriam desejado, uma mulher dentro da moral burguesa alemã fin de siècle? O romance valida apenas a segunda opção. Else teve três filhos de três homens diferentes, questionou desde cedo a ortodoxia (embora superficial) judaica da família, e, já no após 1ª Guerra Mundial, não passa ao lado dos loucos anos 20 berlinenses, desde as festas em casa transformadas em orgias, até à itinerância dos maridos para amigos e dos amigos para amantes. Ora se afastava, ora se aproximava das ex-amantes dos maridos, agora amigas, depois inimigas. Personagem central é aqui o primeiro marido, Fritz Schweifert, que lhe “abriu as portas para o mundo grande, magnífico do amor, da arte e da cultura cristãs”. Erich Schrobsdorff, igualmente cristão e o terceiro na cronologia, pai de Angelika, entra na vida de Else quase no final da década de 20, e dá de caras com a peculiaridade desta mãe: “uma judia que vivia com o marido, a amante deste, um amante e dois filhos, de dois pais diferentes, sob o mesmo tecto”.

Se o estilo de vida tão pouco tradicional fará de Else uma mãe diferente das outras, já a inércia perante o avanço da história na Alemanha será comum a todos os judeus do círculo em que se movia. Praticamente intocados pelas crises económicas sucessivas num país em convulsão social, ignoram que já não vivem sob um manto de proteção etéreo como no tempo do Kaiser, mas sim numa República de Weimar que dava gritos de alarme. Neste sentido, este livro é uma bela lição de história. Angelika contextualiza o desenrolar da vida de Else que dá conta da sua separação absurda do avanço da Alemanha para o abismo. Tudo porque Else se sente peixe dentro de água nessa Berlim extasiada da década de 20, de uma liberdade inédita para as mulheres: “Fumavam e bebiam, cantavam canções frívolas no estrado dos cabarés, dançavam com pouca roupa nos teatros de variedades, saltavam para a água em fatos de banho colados à pele, apareciam nos estabelecimentos de fama duvidosa, passavam a noite em flirts, entusiasmavam-se com a bailarina negra, de peito ao léu, Josephine Baker e com o pugilista de pesos pesados Max Schmeling; e, quando um homem lhes agradava, não diziam que não.”

Do pós-1933, em que já ela própria faz parte da história, Angelika transcreve as infames leis raciais de Nuremberga, os regulamentos que determinam progressivamente o fim do acesso ao espaço público para cidadãos judeus, os progroms da noite dos cristais. Os anos 30 e a letargia dos judeus alemães perante o seu próprio bem-estar, continuam a impressionar-nos, tanto como à narradora: “Compreendo hoje mais do que nunca e, mesmo assim, não me entra na cabeça. É a passividade de Erich, o deixar andar de Else, o desvario total destas duas pessoas nada limitadas, incultas ou destituídas de recursos que continua a ser incompreensível para mim.” Else, estando casada com Erich Schrobsdorff, cristão, estava até certo ponto em segurança, mas e a família dela? A narrativa oscila entre a admiração pelo percurso sui generis da mãe e a inquietação de não conseguir compreender como se acaba por deixar a mãe (avó de Angelika) indefesa, morrendo, já durante a guerra, em Theresienstadt.

O momento em que Else parte para a Bulgária, após divórcio de Erich e casamento com um búlgaro, ambos calculados, inicia provavelmente o capítulo mais impactante deste livro. País primeiramente colaborante com os nazis, depois bombardeado pelos Aliados, no fim “libertado” pelos russos, a Bulgária passa a ser, por um lado, terreno de decadência de Else, onde, pela primeira vez, tem de enfrentar três filhos com idade para pensar, “Else estava a ser triturada entre os três filhos: Peter, que queria ser judeu a cem por cento, Bettina, que passara para o lado dos nazis, Angelika, que não era capaz de formar uma ideia quer de uns quer de outros”. Por outro lado, é também na Bulgária que se dá o florescimento de Angelika, que, após a primeira menstruação, se separa animicamente da mãe, âncora de sofrimento: “Não era um processo gradual de separação, mas um corte brutal, com que separei de mim a pessoa que amava mais incondicionalmente e com quem tinha vivido durante dezasseis anos na mais completa dependência. Não havia hostilidade, como em relação à minha irmã, nem sequer ressentimento, só o ímpeto inconsciente de me libertar dela, e, assim, não ter de sofrer mais com ela. Porque amá-la queria dizer sofrer.” Destacam-se, a propósito da tensa relação entre mãe e filhos, a troca de correspondência entre Else e o filho Peter (aqui se encontram as passagens mais belas de todo o livro, a nosso ver), assim como o processo constante, forçado pelos factos históricos, de ressignificação identitária de uma família alemã.

Como a maioria dos destinos tocados pelo nazismo, também aqui não há final feliz para Else. Angelika, que terá o seu próprio percurso marcado pela guerra (casar-se-á em 1971 com Claude Lanzmann, autor do incontornável Shoah), distancia-se e deixa que seja a mãe a voz exclusiva da própria história. O último capítulo contém somente a edição da correspondência familiar do último ano e meio de vida de Else, desde o regresso a Berlim até à sua morte em 1949. Cartas que “documentam um país destruído, um povo destruído e uma pessoa destruída.” Imprescindível.

Por defeito profissional, Luis Pimenta Lopes escreve de acordo com o novo desacordo ortográfico.

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