home Antologia, LITERATURA Última Hora – Rui Cardoso Martins (Tinta-da-China, 2020)

Última Hora – Rui Cardoso Martins (Tinta-da-China, 2020)

Peça em três actos em cena no Teatro Nacional D. Maria II (reportagem aqui), esta oportuna edição de Última Hora pela Tinta-da-China complementa a satisfação de ver um elenco em palco a criar, noite após noite (até 15 de Novembro), um espectáculo renovado com o material que lhe serve de base: um texto carregado de observações, diálogos e personagens bem construídas e multidimensionais, e por isso verosímeis e empáticas, de uma área em franca crise e decadência – os media tradicionais, neste caso a imprensa jornalística portuguesa escrita e diária. Entre a comédia, a sátira e o drama, os protagonistas – a redacção do jornal que titula a peça, com especial destaque para a direcção bicéfala (o ébrio e cínico Santos Ferreira e a dinâmica inteligente [Anabela] Sousa Neves) – debatem-se com a sua incapacidade de submissão aos novos tempos, pressionados pelas circunstâncias e pelo accionista/administrador/“tubarão” (Ramires Sá Saraiva, compósito caricatural de alguns magnatas, dos seus tiques, vícios privados e públicas virtudes, cultores de uma auto-narrativa cuja verdade é, digamos, fluida) a abraçarem a transição tecnológica e os inevitáveis despedimentos que esse “upgrade” traz consigo.
O choque de gerações, valores e prioridades projecta-se na diversidade das personagens, onde encontramos a jovem e anónima estagiária influencer, que finge ignorância e se insinua a ambos os sexos, desde que esteja poder na equação, sendo ao mesmo tempo assediada; o repórter de guerra Furtado Gomes, respeitado pelos pares e desligado da realidade, preso numa heroicidade e superioridade moral ocas e risíveis; o editor de cultura Coelho Martins, com pouco mais a acrescentar do que citações deslocadas para todos os gostos e situações ou a estagiária RCT, cuja escrita e dedicação é louvada por todos mas nunca tem o destaque merecido.
A trama tem alguns desenlaces narrativos dignos de série de TV, com a costela guionista de Rui Cardoso Martins a vir ao de cima, e uma ênfase interessante na muito contemporânea manipulação da verdade e os seus efeitos imprevisíveis a dar um toque inteligente de actualidade e acuidade à peça. No entanto, apesar da saudável ausência de verdadeiros heróis ou vilões, o subjacente e previsível maniqueísmo de Bem (dos jornalistas que pugnam contra todos pelo dever de informar e o direito de ser informado, em papel) vs. Mal (do administrador que procura cegamente o lucro e a promoção pessoal e a revolução digital sem freio), embora corresponda ao estilo e objecto da sátira, impede o todo de descolar para o território das obras que põem o “dedo na ferida” de forma a não podermos desviar o olhar. Talvez essa assertividade não seja o desiderato pretendido, mas seria um imprevisto bem-vindo neste cenário incerto em que vivemos imersos.
Quando as caricaturas e as sátiras se tornam demasiado verosímeis, algo vai muito errado na sociedade. Última Hora é mais um excelente lembrete de que ainda não está tudo perdido, enquanto houver autores como Rui Cardoso Martins, capazes de sintetizar uma área essencial do zeitgeist numa obra literária e público (que tem esgotado todas as récitas, o que, mesmo em tempos pandémicos, é assinalável) para a ler (e ver) e idealmente reflectir e fazer a sua parte na mudança, sendo consequente nas suas escolhas. Talvez seja isso a democracia e o mais digno e elevado desígnio da arte.


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