home Didascálias, TEATRO Um Dom João Português – CCVF, 19 e 20/01/2018

Um Dom João Português – CCVF, 19 e 20/01/2018

Depois do fecho abrupto do Teatro da Cornucópia no ano passado, Luís Miguel Cintra, seu diretor desde o princípio, juntou alguns dos atores que com ele trabalhavam e propôs-se fazer um trabalho original: escolher um texto-base, percorrer várias cidades do país, sorver em cada uma delas influências a partir da colaboração com agentes locais, e ir apresentando o resultado dessas residências artísticas, culminando numa apresentação do resultado integral nas cidades envolvidas. Ao longo de 2017, o conjunto ensaiou, de forma aberta ao público, as diferentes partes do texto dramático em Viseu, Setúbal, Montijo, Almada e Guimarães. Foi na cidade minhota que a última parte se desenvolveu e foi lá que a estreia das quatro partes teve lugar, dividida em dois dias.
Com este périplo, Cintra quis pôr em prática aquilo que crê ser a base do teatro, a relação imediata com um público chamado a pensar. Para este efeito, põe em colaboração a Companhia Mascarenhas-Martins, do Montijo, o Teatro Viriato de Viseu, e o Centro Cultural Vila Flor, em Guimarães, com o intuito de, a partir do modus operandi anteriormente explicado e inspirado por uma tradução portuguesa de 1785 de Dom João de Molière, encenar este Dom João Português enquanto, admite, uma brincadeira “para que pensem que se trata de um espectáculo sobre a maneira que os portugueses têm de conquistar as mulheres. Como se fosse sobre um playboy português, quando, na realidade, não o é”. No folheto de apresentação do espetáculo, explica também que o faz com a consciência de que esta versão, uma tradução não oficial, e com um desenlace diferente do original, desafia o estatuto intocável dos clássicos, salientando que é esta a postura desejável face a documentos históricos: pensarmos sobre as nossas atitudes. Cintra propõe então um questionamento do amor no nosso tempo: “(…) qual é o lugar do amor na sociedade contemporânea, a maneira das pessoas se verem umas às outras. É inventado? É diferente para cada pessoa? (…) São as questões essenciais que estão em jogo, o que é sinal de crise.”

A proposta é pertinente, e a atualidade da vivência dos afetos – essa palavra que, curiosamente, entrou por via política no mundo árido da verborreia televisiva – dá pano para mangas do ponto de vista de uma dramaturgia que estimule o pensamento crítico. Parece-nos, no entanto, que a articulação de uma experiência artística itinerante, o desiderato de uma reflexão em torno do amor, e a apropriação de um texto de setecentos não conseguem, no final da longa encenação, resultar numa ideia coerente, num espetáculo orientado para o espectador, que, efetivamente, o leve a refletir sobre o amor. O que é interessante é a nudez e honestidade do projeto, refletidos no palco, polvilhado de objetos dispostos como se de um ensaio se tratasse. Já a proliferação e mescla de referências, que, entrecruzadas com a linguagem do século XVIII, nos dão, por exemplo, as boas-vindas com “How deep is your love” dos Bee Gees enquanto banda sonora de elevador, seguido de uma aula de ginásio frenética, nos parecem demasiado estéreis na pretensão de querer guiar-nos, espectadores imersos no pandemónio ruidoso do dia-a-dia, para o espaço pensante, o do teatro, consubstanciado no pensador de Rodin, a estátua falante, voz crítica, situada inicialmente no meio do palco, que dialoga com Dom João e seu companheiro da estrada Esganarelo.
De resto, o facto de ser Dona Elvira a tomar as rédeas no final e a exigir o casamento com o Dom João, que fizera carreira através do abuso e abandono de mulheres negando-se a amar, constitui a maior diferença face ao mito, que, lembramos, tem origem no Burlador de Sevilha de Tirso de Molina, sem que esse facto se torne âncora e âmago do espetáculo. A irreverência – no seu aspeto cénico e não na visita ao texto de Dom João – da encenação, que pode ser vista nos próximos tempos, em versão integral, nas restantes cidades parceiras do projeto, diz então mais sobre o processo de elaboração do espetáculo do que sobre a problemática dos afetos nas relações sociais em época de crise. Neste sentido, Um Dom João Português não responde, a nosso ver, de forma eficaz aos questionamentos que o nome da peça promete, ao não tornar, de forma convincente, o texto-base num veículo de uma mensagem que ultrapasse as necessárias diferenças contextuais entre época de origem e época da encenação; constitui, isso sim, e não é necessariamente pouco face à crise que vivem tantas companhias de teatro, um laboratório pujante sobre as possibilidades do trabalho dramatúrgico.

Por defeito profissional, Luis Pimenta Lopes escreve de acordo com o novo desacordo ortográfico.

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