home Didascálias, TEATRO Um Inimigo do Povo – Rivoli, 27/01/2017

Um Inimigo do Povo – Rivoli, 27/01/2017

Henrik Ibsen (1828-1906) escreveu Um Inimigo do Povo em 1882 mas, para quem testemunhou a representação no Rivoli, a actualidade do texto do norueguês foi certamente bem mais evidente que muita da ficção dita pós ou pós-pós moderna que se lê e vê por aí.

Incómodo na sociedade do seu tempo, pela capacidade natural de ler os problemas que a infectavam e os incorporar na sua escrita, Ibsen deixou uma herança valiosa na forma desabrida de abordar temáticas intemporais, como a traição, a individualidade, os conflitos familiares e sociais, o peso e a manipulação intrínsecas à politica e à imprensa, a relação do Poder com a Verdade e a Justiça, pela forma fria e assertiva como são apresentadas, tendo o espectador por suficientemente inteligente para captar as subtilezas e armadilhas que a ficção roubou à realidade.

A premissa do enredo é simples. A boa velha história do confronto entre o indivíduo e a comunidade, a liberdade de expressão fortemente prejudicial nos interesses instalados, os valores ditos “da maioria” e a “opinião pública”, esses entes “democráticos”, propalados e citados por qualquer pretexto, aqui dissecados e satirizados com mestria, assim como a ingenuidade e radicalismo intrínsecos às ideologias. Ambas as facções são expostas no seu desconcertante egotismo e, perante o absurdo inevitável das situações-limite, forçadas a uma reavaliação. Interessante nesta particular reaproximação à obra de Ibsen é o foco numa abordagem realista das circunstâncias e das personagens, com perspectivas maniqueístas postas de parte, em favor de um “exercício permanente do contraditório”, como nos aponta o excelente texto de Cláudia Galhós, entregue aos espectadores no intervalo, um “questionar sistemático” tornado “ambiguidade na peça”, em que “não é claro (…) quem é o herói e quem é o vilão”.

Com duas partes bem definidas, que podemos intitular, respectivamente, ascensão e queda/redenção de Tomas Stockmann, nesta sua nova encarnação, pelas mãos de Tónan Quito (o Bombarda da excelente série Boys da RTP), a peça começa por apresentar o elenco na sua rotina e mundividências.

O cenário inicial é o lar da família Stockmann, onde habitam o Dr. Tomas (Pedro Gil), patriarca e médico nas termas da cidade, a esposa Katherine (Isabel Abreu) e a filha Petra (Filipa Matta). O ambiente é descontraído e burguês. Katherine recebe o amigo Hovstad (Tónan Quito), editor do Jornal “O Mensageiro do Povo” e chega Tomas, inquieto e alegre com algo que tarda em revelar, impaciente com a chegada de uma carta. Peter (João Pedro Vaz), Intendente da cidade, irmão e patrão de Tomas, visita a família, preocupado com o projecto essencial nas termas da cidade, infraestrutura central da cidade e imprescindível fonte de capital político e financeiro.

O conteúdo da carta ansiada é um relatório provando a contaminação das águas termais. A notícia é encarada com optimismo, e Tomas quer torná-la rapidamente pública, através do “Mensageiro”, antecipando o profundo reconhecimento do irmão e da cidade pelo cumprimento escrupuloso das normas legais. Peter tenta dissuadi-lo, sem sucesso.

No dia seguinte, com a noticia já pública, o burlesco e metediço Aslaksen (Miguel Loureiro soberbo, no seu papel caricatural, alívio cómico para toda o dramatismo das restantes personagens) apresenta-se na Casa Stockmann para dar todo o seu apoio a Tomas e lhe revelar ter consigo a “Maioria Silenciosa”, disposta a tudo para o sucesso da sua pretensão. Tomas é inflexível no seu plano, mesmo perante a inevitabilidade de prejudicar o seu irmão e, consequentemente, o seu próprio futuro e o da sua família.

Hovstad, instado por Aslaksen, promete apoio a Tomas, com a publicação célere dos estudos, mas a visita cirúrgica e a consequente argumentação do Intendente vêm frustrar os planos do irmão. Revela-se a fragilidade da pretensa “Maioria Silenciosa”, assim como da independência e defesa da verdade anunciada por Hovstad quanto ao seu “Mensageiro do Povo”, perante a ameaça de despesas extraordinárias em consequência das obras exigidas pelo Dr. Stockmann, para quem a “solução”, vaga e intempestiva, é “fechar, mudar a canalização toda…”

A 2ª parte começa na assembleia municipal, constituída pelo próprio público. Tomas exige dirigir-se directamente ao povo e expor as suas razões. Anunciada formalmente na boca de cena por Hovstad, cedo se percebe ser uma farsa para descredibilizar e silenciar Tomas. Mas o médico resiste e apresenta a sua teoria da organização ideológica e hierárquica da sociedade, uma visão claramente oligárquica e desconcertante, fundamentada num fosso entre os preparados e os impreparados, com equiparações entre animais e humanos, entre outras pérolas de sabedoria. No calor da retórica e da emoção (momento alto da actuação de Pedro Gil), o “previdente” Doutor expõe(-se em) todo o seu fundamentalismo e agressividade, antes latentes. “A maioria das pessoas no Mundo são tolas e não queremos que os tolos governem”, vocifera em desespero, olhar perdido, limpando o suor da testa.

O monólogo, apesar de pungente e assustadoramente persuasivo, torna-se derivativo e infrutífero. Com a argumentação de Peter à assembleia, relembrando os custos implicados na concretização das pretensões do “honrado e justo” Dr., Tomas é declarado “inimigo do povo”. Tornado pária, isolado com a família em casa, transformada em alvo da ira de toda um povo, mantém teimosamente a irredutibilidade, mesmo com a renovada intervenção do abatido irmão, suplicando que reconsidere, acenando que tudo ainda seria reversível e poderia ser diferente: “(…)devias ter vindo falar comigo primeiro, para resolvermos a situação”. Mas uma irónica e súbita inversão das circunstâncias vem, estranhamente (ou talvez não), repor a ordem natural das coisas.

Peter revela que Morten Kill, pai de Katrine, dono de um conjunto de curtumes tido como o principal fonte da poluição das águas termais, tinha vendido todas as acções que tinha das termas, pelo que a revelação do relatório traria a ruína à sua família. Ora imaginem qual a inflexão seguinte na retórica do integro e inamovível Dr. Tomas Stockmann…

Enriquecido com actuações memoráveis de um elenco de grande coesão e camaradagem transparente, o texto do Mestre Ibsen aqui reinterpretado aponta as subtilezas da política em democracia, com a agravante acrescida de terem por contexto o núcleo familiar. A indefinição é constante, particularmente quanto ao protagonista. Até que ponto a sua obstinação pela verdade é virtuosa, sem resvalar para a vingança e a inveja da posição do irmão, para a frustração pela sua posição sócio-profissional estagnada, para a fragilidade da sua condição de  insatisfação constante perante um sistema que diz odiar, mas do qual lucra e faz parte integrante?

O facto de, talvez pela primeira vez na vida, as circunstâncias lhe conferirem uma verdadeira posição de poder, perante uma ordem social de que, voluntariamente, se arredou, contribuindo com pouco mais do que retórica, transforma, ou melhor, revela o verdadeiro Tomas Stockmann. Como constata o encenador Tónan Quito “Há muitas discussões privadas que levam a pensar (…) que nunca se encontrou uma solução séria para o problema. (…) Não accionou um plano…Podemos até pensar que há uma vingança do Doutor, que seria ´Eu disse como é que isto devia ser feito; eles para poupar dinheiro (…) fizeram assim (…) e agora lixam-se.´ Toda a peça anda à volta de como é que as movimentações acontecem e o problema real permanece.”

No final, o verdadeiro dilema, a proverbial “batata quente”, passa para as nossas mãos. A política e o poder, hoje como ontem, vão bem para além do bipolar certo ou errado. Em tempos de reacções rápidas e acaloradas perante a menor contrariedade ou revolta, de preferência com o número de “gostos” e “partilhas” inversamente proporcional à importância do assunto em causa, a validação social do século XXI, apesar de virtual, tem a mesma origem que tinha no século XIX de Ibsen: o indivíduo. A sociedade é ainda reflexo daquilo que fazemos dela/por ela. A ponderação última dos valores prevalecentes, por mais insignificante que possa parecer, é inalienável e essencial. A banalização do radicalismo e prepotência oblitera a fímbria derradeira da humanidade: a dúvida e a (sua) partilha. Porque nela se gera a luz .

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