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Um museu cheio

Podia ter sido só mais uma exposição. Era o que, aliás, previa João Ribas nas entrevistas que dera ao Público no início do ano, fresco enquanto novo diretor-adjunto do Museu de Serralves.

Em janeiro, o nome Robert Mapplethorpe não era empecilho, fluía sem interferências, era objeto neutro no território despojado de moralismos que é o ano de 2018: “Não podemos dizer o que é que as pessoas acham polémico ou não. Neste momento, Mapplethorpe representa uma abertura cultural e social em que essa polémica é coisa do passado. A força dessas fotografias está precisamente no facto de continuarmos à volta delas, pela sua ousadia, pela sua beleza ou pela coragem deste artista ter feito este trabalho nesta época.” E mais adiante, Ribas cavalgava ainda mais confiante o unicórnio cor-de-rosa: “Se para a cultura heteronormativa a fotografia de Mapplethorpe era quase criminal, para o artista era uma expressão de amor, de intimidade, de liberdade sexual. Essas fotografias, que foram polémicas nos anos 80, são só uma parte do trabalho do artista, ignorando as pessoas a parte mais clássica do Mapplethorpe.” Lemos isto em outubro e sorrimos inadvertidamente.

Em julho, uma declaração visionária proferida pelo diretor artístico é usada como título da entrevista: “Todos os directores querem o museu cheio. Mas com quê? Essa é a questão”. As entrevistadoras iniciam a conversa apontando uma faca: “O Museu de Serralves é mais Anish Kapoor ou Joana Vasconcelos?” Ribas é apanhado de surpresa e esquiva-se à questão, como a todas as que o Público insistentemente formula sobre a artista. Vai ser anunciada ou não? Ribas escusa-se a responder e, no final, questionado onde se vê depois de Serralves, dá mais uns passos, de espada em riste, em cima do unicórnio: “Acredito que o museu como instituição, como ideia, tem de ser repensado e espero que a minha geração possa começar a fazer esse trabalho. Esta casa foi posta em boas mãos durante muito tempo, sinto a grande responsabilidade que é estar nas minhas neste momento.”

É claro, neste momento, que as perguntas sobre Joana Vasconcelos não eram inocentes. Quem se mexe dentro do milieu sabe das intrigas. E as jornalistas do Público não provocaram Ribas por acaso. O jornal colocava as perguntas que assolariam qualquer um perante a possibilidade de Vasconcelos suceder a Mapplethorpe. Vasconcelos é mais administração, Mapplethorpe é mais Ribas. A luta que viria a chafurdar nos media estava já ali. E o clímax é atingido no artigo que antecede a abertura da exposição, no Ípsilon, no início de setembro. Ribas garantia que Robert Mapplethorpe: Pictures traria o pacote inteiro, inclusive aquelas imagens tidas como sexualmente violentas: “[S]ão imagens que registam práticas do corpo. São versões não normativas de prazer, de sedução; de dar e receber prazer. Em si não constituem actos violentos. Podem não se enquadrar na sensibilidade dominante do que é um corpo normativo, ou de um corpo masculino que sai dos padrões de experiência heteronormativa e branca.” Lemos o texto na altura e sorrimos conscientemente pela utilização assumida de uma linguagem que está de moda vilipendiar através das possibilidades mais pejorativas dos adjetivos “ativista”, “fundamentalista”, “ideológica”. Isto tinha de ser dito e desta forma. Ribas disse-o, sem rodeios, e perante a “possibilidade de críticas” sobre fotografias como Pila e Pistola, esteve à altura do que lhe compete enquanto comissário de uma exposição de Mapplethorpe em 2018: “Não eram só negros, mas homens negros homossexuais, cuja sexualidade era associada com a violência, a doença e a repressão. O artista trouxe-os para a fotografia e com os seus nomes. O corpo negro continua a ser um corpo fragilizado e o Mapplethorpe deu-lhe dignidade. Quem é que morria de sida quando as fotografias foram tiradas? Quem era considerado desumano? Ainda hoje, nos Estados Unidos, a violência é direccionada e continua a ser direccionada para o corpo negro”. Aspetos indiferentes a quem tem uma conceção de arte sensível à sexualidade, ao género e à raça só se as inquietações forem confortáveis.

Enquanto espectadores desta novela, faltam-nos ainda os contornos do que gerou o twist. Em reação à turba impressionável, as opiniões divergiram: Porque não salientar o restante da obra? Então e as flores? E a Marianne Faithfull e a Patti Smith? Como se tudo o que há de sexual na obra de Mapplethorpe fosse uma excrescência e um mero devaneio de um homossexual com sida. Essa lógica é a mesma daqueles que terão fechado portas e imposto limites de acesso, porque o sexo é uma exceção e carece de proteção face a um público sensível. Precisamente nesta linha, uma outra facção alertava: E os riscos para as crianças e os jovens? Não tem um museu que garantir que ninguém fica melindrado com imagens sexualizadas do corpo humano? A estas almas iluminadas que confundem um museu de arte contemporânea com um painel de anúncios publicitários de paragem de autocarro, recomenda-se, portanto, o confisco de todos os gadgets com acesso à internet disponíveis no mercado. Porque não é em Serralves que os vossos filhos vão aprender que há formas variadas de representar um corpo e a sua genitália. Nem é nesta exposição que vão dar azo aos mais depravados ímpetos oníricos a que vocês nunca vão aceder. É no tablet que receberam das vossas mãos imaculadas, como presente no último aniversário, e onde, há duas semanas, estoirada a polémica, googlaram o nome Mapplethorpe e deram de caras, sem restrições e aviso, com as pilas de pretos que no museu seriam apenas mais uma peça entre várias.

João Ribas pode até ser culpado do flop, por não ter avaliado a tempo aonde levaria a gigante divergência com a administração. Mas as suas palavras ficaram registadas, e a forma como descreve a pertinência de Mapplethorpe é de maior valor do que a exposição que acabou por ser montada. Provavelmente não vou visitá-la. Está contaminada com uma aura de 1986, do escândalo fácil e expectável da América de Reagan. Neste oásis atlântico de esquerda de 2018, a polémica soa extemporânea e a resposta à pergunta que Ribas fazia tem travo amargo: Serralves tem, neste momento, um museu cheio. Mas com quê?

Foto : Self Portrait, 1985 de Robert Mapplethorpe

Por defeito profissional, Luis Pimenta Lopes escreve de acordo com o novo desacordo ortográfico.

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