home Didascálias, TEATRO Um museu vivo de memórias pequenas e esquecidas – Teatro S. Luiz, 19/11/2017

Um museu vivo de memórias pequenas e esquecidas – Teatro S. Luiz, 19/11/2017

Joana Craveiro é um caso raro de talento e o Teatro do Vestido habituou-nos a espetáculos de uma versatilidade invejável. Um museu vivo de memórias pequenas e esquecidas é uma co-produção Teatro do Vestido, Negócio/ZDB, Théâtre de la Ville e São Luiz Teatro Municipal no âmbito do Festival Chantiers d’Europe. São cinco horas de espetáculo, interrompidas por um jantar improvisado, um retorno às memórias, seguido de uma conversa com os espectadores.

Um museu vivo. Que audácia. E de que museu falamos?

É como se caminhássemos em busca das memórias que ficaram esquecidas em baús pejados de fotografias, cartas, objetos. Memórias de gente como nós. Gente comum, que acende o cigarro e fala do quotidiano, gente que conversa com um amigo de longa data, enquanto beberica, distraidamente, um café amargo, sobre as pessoas com quem se cruzou, gente com contradições, sem uma pretensa superioridade moral ou intelectual.

São 80 anos de memórias de ditadura, de revolução e de processo revolucionário, e que incorporam, com uma coragem inaudita, o fenómeno da emigração portuguesa. Estórias com História, contadas na primeira pessoa, que guardam testemunhos, palavras em revistas, livros, possível resenha de contos maoístas recuperados de uma estante, panfletos revolucionários, rescaldos dolorosos do regresso a Portugal, e músicas na rádio.

Pode ser um mero encontro, extremamente subversivo, na garagem,  para ouvir Kashmir de Led Zeppelin ou falar de livros proibidos pelo regime, a respirar liberdade longamente… A condensar afetos e a dar identidade às memórias sem as tornar estéreis.
E canta-se Chico Buarque. E fala-se, olhos nos olhos. Reencontramo-nos com os nossos pais e avós, sem querer, ficamos nos seus testemunhos, rompendo-se a ideia de que há algum partido, ideologia que tenha feito as memórias suas reféns.

Como nos diz o título do livro de Augusto Abelaira, “A palavra é de oiro”, livro que, como o de Joana Craveiro, cheira a alfarrabista e mora na prateleira desta escriba.
Falamos de livrarias que já não o são, de espaços com história convertidos em hóteis, dos murais que desapareceram, do estudante Ribeiro dos Santos, uma das vítimas mortais do regime, dos anónimos que fizeram o nosso passado e a quem devemos manter viva a memória no futuro.

Não é um espetáculo que procure a objetividade histórica que Joana, a dado momento, ridiculariza. É mesmo a memória subjetiva, despojada de outro sentido que não o da verdade de cada um, e assumidamente de esquerda, de “uma certa esquerda” se o quisermos, como dizia um espectador, e que Joana, sem incómodo, não enjeita.
Sendo uma visão à esquerda, é singularmente genuína, por não sobredimensionar as figuras da Revolução de Abril,  por nos permitir reconstituir o passado e reescrevê-lo. O passado que é de quem o viveu, na rua, em casa, adormecido ou acordado, mas presente nesse compromisso com o seu trajeto. É longo o trajeto deste espetáculo, tantos os anos que percorre, mas seguimos esse lastro, com entusiasmo e uma espécie de receio de uma perda definitiva de algo precioso que nos é dado a conhecer.
E que se continue a tirar memórias ao esquecimento. Assim o quer a Joana Craveiro e assim o queremos nós. Pois que a memória vença o esquecimento, como acontece neste espetáculo. Não conseguiríamos viver sem memórias neste fogo fátuo que são os nossos dias.

Joana Neto, por defeito profissional, escreve de acordo com o novo desacordo ortográfico.

Foto © João Tuna

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